24/06/2024

Deus escreve certo por linhas tortas

No nosso dia a dia, quase sempre falamos ou escutamos gírias, expressões populares e ditados populares. Uma característica que diferencia as expressões populares das gírias é a duração. Enquanto a gíria vive durante cerca de cinco anos em uma comunidade, a expressão popular pode se manter por muito tempo, talvez décadas.

As gírias brasileiras da mesma forma que revelam o diálogo das gerações atuais, são, também, uma viagem no tempo para gerações passadas. Quando compreendidas, são um espelho das diversas culturas e regiões que encontramos aqui no Brasil.

Em 1985, a partir da observação diária do que era falado nos jornais e rádios populares, o professor e jornalista brasileiro João Bosco Serra e Gurgel do Rio de Janeiro escreveu o “Dicionário das Gírias”.

As expressões populares, também chamadas expressões idiomáticas são um recurso de escrita ou fala por meio do qual uma frase ou expressão ganha outro significado, indo além do significado literal das palavras que a formam. Por exemplo: na expressão “pode tirar seu cavalinho da chuva”, o objetivo não é aconselhar alguém a colocar o animal em um lugar coberto, no qual não caia chuva. Quando uma pessoa diz isso, ela quer informar que se deve desistir de determinada ideia.

Enquanto os ditados populares, também chamados de provérbios, são frases curtas que transmitem ensinamentos retirados de experiências de vida, ou seja, transmitem conhecimentos e sabedoria popular. Também atravessam gerações e passam por nós todos os dias durante anos a fio. Fazem parte do nosso cotidiano e expressam importantes lições, mas para isso é fundamental que possamos parar para refletir sobre eles. Por exemplo: “Entre marido e mulher não se mete a colher” ou ainda “Ladrão que rouba ladrão tem cem anos de perdão”.

Diversas expressões populares antigas contam com origens curiosas, que vão da chegada da coroa portuguesa ao Brasil, passando por jogos populares, entre outros motivos.

É importante lembrar que falar português no Brasil é diferente de falar português em Portugal. Até porque existem inúmeras expressões do português que têm um significado totalmente diferente aqui no Brasil. Por exemplo, a expressão “Porras recheadas”. Esse aqui é sempre motivo de muitas risadas e piadas nas redes sociais. Isso porque esse nome, para os brasileiros é bem sugestivo, mas em Portugal significa churros. É isso mesmo, a porra recheada é nada mais, nada” menos que churros.

Algumas expressões como “quebrar o gelo” e “puxar o saco”, algumas pessoas pensam que são coisas da atualidade, estão muito enganadas. A maioria desses dizeres tem pelo menos um século de idade, com vários datando do Brasil colonial e até da Idade Média.

Recentemente estava assistindo um programa de auditório na televisão quando o apresentado perguntou a um jovem da plateia se ele sabia o que era a gíria “é uma brasa mora” ou “é uma brasa, mora! A resposta foi negativa. Para quem não se lembra, na década de 60, ouvia-se essa gíria, principalmente pronunciada pelo Rei Roberto Carlos, que seria falar de algo bom ou de alguém legal. Nessa fase, as mocinhas diziam que o rapaz que achavam bonito era “um pão”.

Ainda nesta década tínhamos: Borogodó (significa charme, sensualidade), Bulhufas (significa o mesmo que nada, coisa nenhuma), Papo furado (o mesmo que conversa fiada).

Entrando em nossa máquina do tempo, podemos relembrar de algumas gírias da década de 50, tais como:  Chá de cadeira (é o mesmo que ter que ficar esperando por muito tempo), Marcar touca (perder uma oportunidade, dar bobeira). Da década 70: Grilado (estar desconfiado de alguma coisa), Patota (é uma turma de amigos). Da década 80: Viajar na maionese (ficar imaginando coisas absurdas), Pentelho (pessoa muito chata, irritante). Da década 90: Xavecar (significa paquerar, flertar), Queimar o filme (estragar a imagem, passar por algo vergonhoso). Da Década 2000: Passar o rodo (é o mesmo que beijar com muitas pessoa), Tá dominado (significa que está tudo sob controle).

Quem não se lembra do ditado popular atual “Cada um no seu quadrado”, originário da dança do quadrado se tornou um fenômeno de internet. Esse ditado popular é muito utilizado para referir sobre a importância de cada um cuidar de seus próprios assuntos, sem intrometer-se em coisas que não são de sua alçada ou para as quais não tem competência. Tem o mesmo sentido “Cada macaco no seu galho”. A origem desse ditado nos remete ainda ao século XIX, onde países como o Brasil, Argentina e Uruguai se uniram em uma guerra contra o Paraguai. Em uma estrutura racista de época, os negros que participavam do embate eram denominados macacos. Assim, na tentativa de surpreender os inimigos ao avistar os mesmos, Duque de Caxias gritou: Cada macaco no seu galho! Nesse momento, a expressão fazia a referência de que os homens negros do exército se organizassem de forma devida, tendo se tornado famosa a partir de então.

Atualmente, no Brasil, temos um ditado que traduz bem a ideologia política de muitos brasileiros, que diz: “O pior cego é o que não quer ver”. Esse ditado diz respeito à pessoa que não quer enxergar o que está na sua frente, àquele que se nega a ver a verdade. Consta que, em 1647, em Nimes, na França, na universidade local, o doutor Vicent de Paul D`Argent fez o primeiro transplante de córnea em um aldeão de nome Angel. Foi um sucesso da medicina da época, menos pra Angel, que assim que passou a enxergar ficou horrorizado com o mundo que via. Disse que o mundo que ele imaginava era muito melhor. Pediu ao cirurgião que arrancasse seus olhos. O caso foi acabar no tribunal de Paris e no Vaticano. Angel ganhou a causa e entrou pra história como o cego que não quis ver.

Pra quem gosta de viajar ou se aventurar, um ditado bastante utilizado é “Quem tem boca vai a Roma”. Essa expressão é utilizada para destacar o poder da comunicação. Interessante que a frase correta não tem nada a ver com a que conhecemos; nem com o fato de usarmos nossa capacidade de comunicação para ir a qualquer parte. Pesquisas indicam que com o tempo essa expressão foi sendo modificada da original que seria “Quem tem boca vaia Roma” (do verbo vaiar).  A frase correta é, sim, uma crítica política. Isso porque a plebe e os escravos acreditavam que a cidade de Roma merecia vaias por causa de seu imperador, Júlio Cesar, cuja opinião ninguém podia contrariar.

Quanto ao campo de “expressões”, podemos dizer é bastante vasto tanto na cultura nacional quanto internacional. Por exemplo, a expressão “Vitória de Pirro”. Em 279 antes de Cristo, Pirro - rei e general do Epiro - travou contra os romanos a Batalha de Ásculo e conquistou a vitória. Porém, com um elevado número de baixas de oficiais e soldados, obteve prejuízos irreparáveis para o seu exército, o que comprometeu a continuidade da guerra contra Roma. Ao observar os saldos da batalha, Pirro teria dito: “outra vitória como esta e estamos acabados”. O episódio ficou conhecido como a “Vitória de Pirro”, termo que hoje é utilizado, para descrever uma vitória com efeitos prejudiciais ao vencedor.

Diversas das expressões brasileiras tiveram sua origem atrelada à monarquia portuguesa, por exemplo, “vá tomar banho!”. Nos dias de hoje, utilizamos essa expressão para mostrar a alguém que essa pessoa está nos irritando e pedir para que pare de fazer isso imediatamente. Já no passado, essa expressão tinha um significado muito mais literal. Os nativos brasileiros sempre tomaram muito mais banhos que os membros da corte portuguesa, que muitas vezes passavam dias sem se banharem e muitas vezes utilizavam as mesmas vestimentas sujas. O mau cheiro obviamente incomodava os indígenas e outros brasileiros que já estavam acostumados a tomar mais banhos, de modo que uma expressão comum quando estes eram importunados pelos nobres portugueses era mandá-los tomar banho.

Outra expressão popular da língua portuguesa bastante conhecida é a “Casa da mãe Joana” que define um lugar sem regras, onde tudo é permitido, não há limites, com muita bagunça e confusão. A mulher que deu nome a tal casa viveu no século 14. Joana era condessa de Provença e rainha de Nápoles (Itália). Teve a vida cheia de confusões. Em 1347, aos 21 anos, regulamentou os bordéis da cidade de Avignon, onde vivia refugiada. Uma das normas dizia: "o lugar terá uma porta por onde todos possam entrar". "Casa da mãe Joana" virou sinônimo de prostíbulo, de lugar onde impera a bagunça.

No sistema de transito temos outro exemplo bem interessante. No Brasil o sistema de trânsito utiliza o que chamamos de “mão francesa” e na Inglaterra assim como outras localidades que outrora foram colônias inglesas, utilizam o denominado de “mão inglesa”. No caso de mão francesa adotamos o sistema de transito onde dirigimos ao lado direito da via e fazemos as ultrapassagens pelo lado esquerdo. Por outro lado, a Inglaterra se mantem com o fluxo à esquerda e consequentemente a ultrapassagem é pelo lado direito.

Até o final do século 18, era hábito para os cavaleiros e cocheiros viajarem pelo lado esquerdo das estradas. O motivo disso é bem simples: a maioria das pessoas era destra, usando sua espada com a mão direita. Para que ela ficasse livre e do lado certo para um eventual duelo (o que não era raro naquele tempo), era preciso andar desse lado. Se a pessoa viajasse do lado direito, seu lado esquerdo estaria totalmente exposto.

Existe ainda uma outra versão para explicar como surgiu a mão inglesa. Alguns dizem que se os cocheiros ficassem do lado direito das ruas e estradas, eles podiam acertar um pedestre na calçada quando açoitassem seus animais, o que geralmente também era feito com a mão direita. Mas a primeira versão é mais aceita (e tem mais sentido).

Quanto a “mão francesa” utilizada no Brasil, a resposta a essa pergunta tem nome e sobrenome: Napoleão Bonaparte. Esse imperador era canhoto, por isso ele precisava ficar do lado direito duma via para estar preparado num duelo, já que empunhava sua espada com a mão esquerda. Com isso, o imperador francês deu ordens para que todos se adequassem, passando a estabelecer o que chamamos de mão francesa, ou seja, andar pelo lado direito duma via. A influência nas América ocorreu devido ao fato que todos os colonizadores (além dos franceses, os holandeses, espanhóis e portugueses) foram dominados por Napoleão em algum período, não tendo outra opção a não ser adotar seu sistema. Quando dominaram outros países, o costume simplesmente foi passado adiante.

Na política, uma expressão que pelo andar da carruagem nunca vai sair de modo é “Terminar em pizza”. O termo, que denota que algo errado deve acabar sem nenhuma punição, surgiu no futebol. Na década de 1960, alguns dirigentes do Palmeiras já estavam há 14 horas reunidos discutindo assuntos do clube, quando a fome bateu. A solução foi terminar a reunião em uma pizzaria, onde a paz reinou depois de muita mussarela. O jornalista Milton Peruzzi, que acompanhava o imbróglio, registrou a seguinte manchete no Gazeta Esportiva: “Crise do Palmeiras termina em pizza”. A expressão voltou a ganhar força na época do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Collor de Mello, em 1992. Como muitos duvidavam que Collor fosse mesmo punido, em vez de “terminar em impeachment”, dizia-se que o caso “terminaria em pizza” (até a sonoridade é parecida). Por isso, até hoje, o termo segue muito associado a escândalos políticos. 

Continuando na política, podemos lembrar da expressão “colocar a mão no fogo”. Como os políticos brasileiros estão cada vez mais desacreditados pelos brasileiros, dificilmente alguém coloca a mão no fogo por eles. Essa expressão popular é utilizada quando temos total confiança em alguém e, por isso, faríamos algo tão absurdo como “colocar a mão no fogo”, confirmando que acreditamos que aquela pessoa não nos decepcionará. Significa confiar muito em alguém, a ponto de jurar pela sua inocência. A expressão pode ter se originado na prova do ferro caldo, utilizada durante a Idade Média na época da Inquisição. Uma pessoa acusada de heresia tinha sua mão envolvida em uma estopa e era obrigada a andar alguns metros segurando uma barra de ferro aquecida. Três dias depois, a estopa era retirada e a mão do suposto herege era checada: se estivesse queimada, o destino era a forca; se estivesse ilesa, era provada sua inocência. Daí, botar a mão no fogo virou sinônimo de atestar confiança quase cega em alguém. Bem, seria uma boa prova para nossos políticos se submeterem. O problema era que iria encher os hospitais de queimados.

Bem, são muitas as expressões repetimos sem sequer percebermos aquilo que significam. Essas pequenas frases fazem parte da tradição oral da sabedoria popular e sintetizam ideias sobre a convivência em sociedade, trazendo muitas vezes conselhos valiosos a respeito das relações humanas.

Concluindo, imaginem dois amigos conversando sentados num banco de praça utilizando de ditados populares, será que entenderíamos tudo se tivéssemos ao lado?

- (Fulano) Amigo, como está aquele seu negócio?

- (Beltrano) Acabou-se o que era doce. A vaca foi pro brejo. Infelizmente meus funcionários cuspiram no prato que comiam e transformaram meu negócio numa casa da mãe Joana. Minha empresa passou a ser um verdadeiro balaio de gatos. Na verdade, fui colocar o carro na frente dos bois e dei com os burros n’água.  Agora estou com a corda no pescoço. E o pior, com as mãos abanando e na rua da amargura. Mas, não vou lamber as botas de ninguém principalmente dos amigos da onça.

- (Fulano) Amigo, espere a poeira abaixar.  Sei que está de saco cheio e fulo da vida mas você não é de dar para trás. Além disso, entende do riscado. Mostre com quantos paus se faz uma canoa. Por enquanto você está com os bofes de fora e sentindo como um peixe fora d’água.

- (
Beltrano) Você sabe que não faço mal a uma mosca e nem passo a perna em ninguém. Não vou descer a lenha ou melhor quebrar o pau com ninguém. Vou dar tempo ao tempo. Bem, por enquanto só quero encher a lata e olhar para o próprio rabo. Como diz aquele provérbio: Não há bem que sempre dure, nem mal que nunca se acabe.

25/05/2024

Cegueira ideológica

De tempos em tempos, algumas palavras ou frases aparecem com maior frequência na mídia, ou até mesmo, em palestras e comunicações sociais, como por exemplo, a palavra “resiliência”, que tem sido utilizada para descrever o comportamento humano. A resiliência demonstra a capacidade que cada pessoa tem de lidar com seus próprios problemas, de sobreviver e ainda superar os momentos difíceis, sem ceder à pressão dos pessimistas ou dos que acham que quanto pior, melhor (para eles). Podemos até dizer que a resiliência do povo brasileiro é surpreendente. Nosso país tinha tudo para dar errado, afinal foi colonizado como colônia de exploração, foi refúgio da família imperial portuguesa, e é sinônimo de escândalos desde então. Mas de tudo isso, surgiu um povo arrojado, criativo e que tem algo muito importante na essência humana, a resiliência. A pena é que um povo tão lindo, tão verdadeiro e tão esperançoso, é tão mal representado nas esferas do poder.

Assim como resiliência, no Brasil, em decorrência da conturbada política brasileira, regida por políticos corruptos e descomprometidos com o povo, as citações a expressão “Estado Democrático de Direito”, passou a ser falado e debatido por vários segmentos da sociedade.

O Estado Democrático de direito é definido juridicamente pelo respeito aos direitos humanos fundamentais. É um Estado no qual os direitos individuais, coletivos, sociais e políticos são garantidos através do direito constitucional. Quando o Estado de direito democrático sofre ameaças, existe um grande risco de ruptura da democracia. As democracias podem ser subvertidas por dentro, pela atuação de líderes e atores, com tendências autoritárias ou populistas, que acabam por sufocar a liberdade.

Agora, temos também uma dobradinha que sempre está na boca de muitos brasileiros. Me refiro as palavras Direita e Esquerda.

A origem dos termos “esquerda” e “direita”, como um posicionamento político-ideológico, surgiu durante as Assembleias Constituintes francesas do século XVIII. Havia grupos organizados, os girondinos e os jacobinos. Os termos "direita" e "esquerda" referiam-se ao lugar onde políticos se sentavam no parlamento francês. Os girondinos que faziam parte de camadas mais ricas da sociedade, eram moderados e conciliadores. Sentavam-se à direita do orador, ou seja, do presidente que conduzia a assembleia. À esquerda sentavam-se os simpatizantes da revolução, os jacobinos. Eram adeptos ao revolucionismo e buscavam mudanças (especialmente a queda dos privilégios da nobreza e do clero) e mais igualdade.

Debatia-se sobre a revolução, sobre uma nova Constituição, destronar o rei, acabar com a monarquia e resolver a crise em que a França se encontrava. Os girondinos à direita não queriam uma mudança drástica, eram favoráveis ao rei e queriam conservar as coisas com prudência. Mas os jacobinos queriam uma revolução radical, mudar totalmente a forma como a sociedade se organizava, esperando melhorar tudo por meio de seus ideais realizados.

Foi em 1789 que o jornalista e revolucionário Camille Desmoulins, usou pela primeira vez os termos "direita" e "esquerda" para descrever o posicionamento político e ideológico, daqueles que participavam da Assembleia. Vale ressaltar que a Revolução Francesa foi um processo conduzido pela burguesia. Mulheres e pessoas pobres não participavam dos debates da época e as questões que dividiram os participantes, entre direita ou esquerda, não são as mesmas que hoje dividem essas visões políticas.

Atualmente, nos Estados Unidos, os termos "de esquerda" e "de direita", muitas vezes, têm sido usados como sinônimos para o "democrata" e "republicano" ou como sinônimos do Liberalismo social e conservadorismo, respectivamente. O Partido Republicano pode ser denominado de um partido de “direita”. Já o Partido Democrata possui um viés associado à tradição da “esquerda democrática”, que se diferencia da esquerda revolucionária, isto é, defende políticas sociais assistencialistas, a intervenção estatal na economia, leva em conta bandeiras de movimentos sociais, como a dos negros afro-americanos, dos gays, dos imigrantes latinos etc.

Na política brasileira tradicional, direita e esquerda têm tido noções difíceis de captar. A questão é simples: nunca foi habitual prestar atenção ao quadrante ocupado por políticos. O que notamos é que a conceituação de esquerda e direita é usada pelos grupos que atuam para se auto definir e enquadrar seus adversários políticos dentro de um espectro. Assim, vemos esquerda e direita, usados como conceitos fluidos com conteúdo vazio, mas ainda com força histórica atuante.

O fato é que não existe um consenso quanto a uma definição comum e única de esquerda e direita. Existem “várias esquerdas e direitas”. Isso porque esses conceitos são associados a uma ampla variedade de pensamentos políticos.

Atualmente, o espectro político que é um sistema para caracterizar e classificar diferentes posições políticas, também conhecido como régua ideológica, podem ir de extrema-esquerda, esquerda, centro-esquerda, centro, centro-direita, direita até extrema-direita.

Convenhamos que quando paramos para definir quem é de direita ou esquerda no Brasil ficamos bastante confusos. Por conta das alianças, algumas vezes pouca diferença encontra-se entre Direita e Esquerda eleitoral. Com relação aos eleitores, temos realmente um segmento da população que podem ser considerados eleitores de “carteirinha’ de candidatos de “direita”. Da mesma forma que temos eleitores de “carteirinha” de candidatos de esquerda. E uma parte da população que não se enquadra nem de “direita” e nem de “esquerda”.

Quando observamos os discursos dos políticos de ideologia de direita, em geral, fica claro que acreditam em um melhor funcionamento da sociedade quando o governo é limitado.  O Estado deve restringir-se às necessidades mais absolutas das pessoas. Busca favorecer a liberdade de mercado, defender os direitos individuais e os poderes sociais intermediários contra a intervenção do Estado e coloca o patriotismo e os valores religiosos e culturais tradicionais acima das propostas de reforma da sociedade. Enquanto os discursos dos políticos de ideologia de esquerda, defendem o controle estatal da economia e a interferência ativa do governo em todos os setores da vida social, é a solução para existir igualdade entre os cidadãos, além de ser responsável por proporcionar educação, saúde, trabalho, moradia e outros direitos básicos aos cidadãos. Defendem, principalmente, as classes sociais menos favorecidas na sociedade, ou seja, aquelas que necessitam de mais atenção e serviços públicos. O ideal igualitário está acima das questões de ordem moral, cultural, patriótica e religiosa.

A partir deste cenário, o termo “esquerda” passou a simbolizar o ideal de luta pelos direitos populares e pelos trabalhadores e a “direita” virou sinônimo de conservadorismo e elitismo. Essa divisão no Brasil, se fortaleceu no período da Ditadura Militar, onde quem apoiou o golpe dos militares era considerado da direita, e quem era contrário, de esquerda.

Independente de ideologia política, muitas vezes o termo esquerda também é usado para se referir a um grupo partidário que se opõe ao partido político no poder. Assim, muitas vezes, direita pode ser o nome dado para grupos partidários que apoiam o grupo político no governo.

Muito antes de Cazuza, o filósofo francês Conde de Tracy apresentou o conceito de ideologia. Seu objetivo era desenvolver uma ciência para compreender como ocorre a formação das ideias na cabeça das pessoas. Essa ciência seria chamada de ideologia.  Muitas outras figuras atribuíram significado à palavra. Mas, basicamente, a ideologia pode ser resumida como a maneira em que um conjunto de pessoas pensam. E, mesmo sem parar para refletir sobre isso, os grupos sociais carregam, em sua formação, algum tipo de ideologia. Como ideologia é uma forma de pensar, ser de direita ou de esquerda está ligado a forma como a pessoa pensa a sociedade.

As palavras, enquanto conceitos que identificam ideologias e práticas políticas, também possuem conteúdo histórico e expressam significados diferentes com a evolução do tempo.

Infelizmente, mais grave do que a cegueira biológica é a cegueira ideológica. Uma impede o homem de ver, a outra o impede de pensar.

Parece que hoje vivemos a síndrome de Emaús conforme narrado no Evangelho de Lucas (24.13–16).  Dois dos discípulos de Jesus iam a caminho da aldeia de Emaús que ficava a uns 11 quilómetros de distância de Jerusalém. E comentavam entre si tudo o que acontecera após a morte de Jesus. De repente Jesus apareceu e juntou-se a eles, caminhando ao seu lado. Mas os seus olhos estavam impossibilitados de o reconhecer. Aqueles discípulos tinham como maior expectativa Israel ser libertada da subjugação romana. Esse anseio guiava-os e muitos outros que olhavam Jesus como o grande libertador político. Na verdade essa era a ideologia que os movia.

A ideologia cega, mata e faz enxergar imaginários, muito longe do que é real. Da mesma forma, hoje em dia, Jesus é de direita, de esquerda, conservador, revolucionário, tudo o que as ideias façam brotar e as ideologias tentam encaixar nas cabeças e corações tardios para entender quem é Jesus.

Modelos de intolerância política e ideológica permeiam todas as civilizações, em todos os meridianos e paralelos. A cegueira ideológica tem provocado convulsões aqui e por este imenso mundo de Deus.

Tanto o radicalismo de esquerda como o de direita são responsáveis por destruir as bases da sociedade (bases que Aristóteles identificava, tanto na família como na pólis, com o conceito de phylia, uma força unificadora das relações sociais baseada num sentimento próximo ao da amizade). Se alguém quer ser de esquerda ou de direita, que seja, é um direito básico de cidadania, porém precisam compartilhar as mesmas ideias de excelência. Após a disputa eleitoral, vencedores e derrotados devem enviar sinais da amizade e não de inimizade. Como dizia John Kennedy: “É muito mais fácil ficar com o conforto da opinião do que com o desconforto da reflexão”.

A cegueira ideológica é uma praga que não para de crescer. Funciona segundo a lógica de que o inimigo do meu inimigo é meu amigo. Mesmo que ele seja um canalha.

A longevidade tem algumas vantagens. Uma delas é o aprendizado sobre tolerância. Por exemplo, respeitar as individualidades, as crenças particulares e as peculiaridades (tão distintas) desse animal complexo e estranho que é o homem. Incluindo neste pacote a consciência política. Sem elas, a convivência ideológica seria uma missão impossível.

Antigamente, a maioria dos ideólogos acreditavam no que defendiam, sem interesses, outros além da fidelidade as suas crenças. Hoje, a imensa maioria joga um jogo decepcionante. Parecem terem feito pacto irremediável com a imoralidade. Não importa o que (nem quem) defendam, porque, no final das contas, estão defendendo seus próprios interesses. Vale mitificar deuses enlameados. Vale beatificar criminosos. Vale beijar as vestes imundas da corrupção. Vale misturar o fanatismo religioso e a polarização política. Vale criar Mitos. Vale Criar Salvadores da Pátria e Caçadores de Marajás.

O que leva esses “ideólogos”, a maioria supostamente possuidores de embasamento moral e intelectual, abraçarem personagens políticas comprovadamente envolvidas em tudo quanto é desmando descortinado nos bastidores do poder público? Um boa reflexão.

Bem, a ideologia política é cega como o amor é cego. A pessoa apaixonada está bioquimicamente focada no objeto de sua paixão. O apaixonado, não só não olha para outra pessoa, como não percebe se tem alguém olhando para ele. Com o fim da paixão, a pessoa percebe que o que ela imaginava não era real e acaba olhando para o lado. A paixão deixa a pessoa tão obcecada quanto uma droga. Ela fica num estado de torpor, de encantamento. Por isso não consegue ver nada à sua volta.

O escritor, jornalista e romancista Nelson Rodrigues, nos deixou a seguinte famosa frase: “Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”. Nelson Rodrigues tem razão porque, de fato, quando há unanimidade ninguém precisa pensar, mas há unanimidades e unanimidades. Bem, se todos concordarem que toda unanimidade é burra ela será de fato burra, mas não podemos deixar de reconhecer a existência da unanimidade inteligente. O que nos falta é unanimidade na tomada de algumas posições, defesa de certas ideias ou valores que nos levarão a agir ou repensar nossas condutas.

Como disse o escritor jornalista Vicente Serejo em um dos seus artigos: “O fenômeno “vesgos” nasce de polarização que divide brasileiros e impede a visão correta do Brasil; os que apoiam candidato “A” (seja de direita ou esquerda) não enxergam erros do seu candidato e os que apoiam o candidato “B” (seja de direita ou esquerda) olham em seu candidato o exemplo da virtude. O efeito imediato é a vesguice, um verdadeiro vício “vesgueiro”, que acaba por fomentar uma visão política brasileira atual completamente distorcida, cheia de intolerância e sem limites, jogada num fosso profundo”.

Concluímos parafraseando trechos da música “Tocando a frente” de Almir Sater: “Ser resiliente é andar devagar porque já se teve pressa, carregando um sorriso, porque já se chorou demais, sem esquecer que cada um de nós traz em si a capacidade e o dom de ser feliz!”.

S.M.J (Salvo melhor Juízo)

24/04/2024

O CANGAÇO CONTINUA

De vez enquanto escutamos, principalmente dos idosos, a seguinte frase: “Não há mal que não traga um bem”. O escritor Machado de Assis, na sua genialidade literária, fez um pequeno complemento, que na minha opinião foi perfeita: “Não há mal que não traga um pouco de bem, e por isso é que o mal é útil, muitas vez indispensável, algumas vezes delicioso”. Este pensamento me faz lembrar de duas vezes que minha residência foi assaltada quando morava no Bairro de Lagoa Nova, na cidade Natal-RN, na década de 90. Todas as duas vezes foi durante a semana Santa quando viajávamos para Paraíba. Na segunda vez, quando estava na delegacia para abrir um Boletim de Ocorrência, o delegado me deu o seguinte conselho: “Não viaje mais na Semana Santa”. Na oportunidade, fiquei muito chateado com aquele “conselho”, mas depois de uma profunda reflexão, eu e minha esposa tomamos a decisão de não mais viajarmos. Somos cristãos, e a Semana Santa é um período sagrado. É a ocasião em que é celebrada a paixão de Cristo, sua morte e ressurreição.

Ela deve ser um tempo de recolhimento, interiorização, oração e abertura do coração. É a hora de reconstruir a própria fé e abrir a mente e o coração para Deus. Enfim, significa fazer uma parada para reflexão e reconstrução da espiritualidade, essencial para o equilíbrio emocional e a segurança no caminho natural da história de vida com mais objetividade e firmeza.

É muito triste lembrar, quando falamos sobre assaltos, bandidagem, que Jesus Cristo morreu como um criminoso, com verdadeiros criminosos dos dois lados.  E o pior ainda, ter sido trazido para diante da multidão numa tentativa covarde de Pilatos de se livrar de um inocente. Pilatos sabia quem era o criminoso chamado Barrabás, o qual ele mesmo mandou prender por crimes hediondos. O Evangelista Mateus empregou o título “muito conhecido” para referenciar Barrabás (Mt 27:16), deixando claro que ele era alguém com certa fama entre o povo, talvez até reputado como uma espécie de herói, principalmente se seus delitos fossem por motivação nacionalista. Seja como for, as referências bíblicas descrevem Barrabás como sendo um salteador, perturbador da ordem pública e homicida. Porém acabou sendo solto por Pilatos a pedido da multidão.

Infelizmente os “salteadores” sempre fizeram parte da história da humanidade. Quem não se lembra da lenda de Robin Hood, o conhecido príncipe dos ladrões? Essa personagem criada no Reino Unido no século XIII, conhecido por ser hábil no arco e flecha, trajava verde e vivia escondido nos bosques de Sherwood, em Nottingham, se tornou o modelo do bandido justiceiro, que redistribuía a riqueza roubando dos ricos para dar aos mais pobres. No entanto, trata-se de uma versão fictícia do personagem, muito distante da realidade histórica de bandidos e foras-da-lei medievais.

Dentro desse contexto, podemos citar os “piratas”. Existem desde que o homem passou a transportar bens e mercadorias usando rios e mares. Os registros mais antigos contam que, por volta do século V antes de Cristo, no Golfo Pérsico (região do Oriente Médio), ladrões já investiam contra barcos de comerciantes. A pirataria ganhou força entre os séculos VXI e XVIII, quando houve um aumento importante do transporte de riquezas pelo mar. Países europeus, como Portugal e Espanha, encararam os oceanos, explorando novas terras e buscando recursos naturais e minerais.

Uma curiosidade da vida dos piratas é como viviam em navios, manter um animal de estimação grande, como um cachorro ou um macaco, era difícil. Uma opção muito mais sensata e estratégica era um papagaio.

Infelizmente, em pleno século XXI, os piratas “modernos” ainda atacam e roubam embarcações em muitos lugares. As estatísticas indicam um crescimento dessa modalidade de roubo em alguns pontos do planeta. No Brasil, os crimes de pirataria marítima são menos frequentes e os piratas menos audaciosos. A baía de Santos é considerada a área de maior perigo, de acordo com os boletins transmitidos aos navegadores europeus.

E os salteadores no Brasil? Quando começaram a existir? É muito comum escutar pessoas relacionando as mazelas do Brasil de hoje ao tipo de colonização que o país teve. Dizem uns que, colonizados por bandidos, assaltantes, enfim, pela escória portuguesa que veio aportar nas terras do pau-brasil, não poderia, mesmo, ser outro o resultado. Os historiadores do passado perpetuaram a ideia que o Brasil recebeu mais criminosos do que qualquer outro segmento da sociedade portuguesa nos seus primeiros tempos. Nos últimas décadas, documentos descobertos e estudados, tornou público novas facetas da colonização brasileira. A colonização brasileira levada a cabo por degredados é uma lenda já desfeita. O degredado era banido de sua terra de origem (no caso, a Metrópole portuguesa) por ter cometido algum tipo de crime. Os crimes cometidos pelos degredados variavam desde crimes comuns, como roubo, até crimes de ordem religiosa, condenados pelo Tribunal do Santo Ofício, como feitiçaria, rituais de bruxaria etc. A maioria dos degredados que chegaram ao Brasil foram condenados pela Santa Inquisição e as autoridades portuguesas se valiam disso para promover a exclusão social.

O historiador e professor do Departamento de História da Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) Geraldo Pieroni relata no seu livro “Os excluídos do reino” (2000) que mais de 50% das pessoas degredadas para o Brasil eram mulheres, acusadas, quase sempre, por feitiçaria, blasfêmia e bigamia. Devemos relembrar que os dois maiores poetas portugueses, Camões e Bocage, sofreram a pena de degredo na Índia.

No Brasil, as histórias mais conhecidas sobre banditismo organizado, são sobre Lampião e seu bando de cangaceiros. Porém, antes de falar sobre o Cangaço, vamos comentar um pouco sobre o Coronelismo, tendo em vista que foi durante o período do coronelismo, surgiu o fenômeno marcante na história brasileira: o Cangaço.

O Coronelismo tem suas raízes nas primeiras décadas do Brasil independente, durante o Período Regencial (1831-1842), nascendo para conter as revoltas e motins pelo país e assim proteger a postura centralizadora do governo.

O coronelismo estava intimamente ligado ao sistema latifundiário brasileiro, visto que os coronéis eram proprietários de grandes extensões de terra, ainda que fossem das capitais. Terras onde exerciam autoridade absoluta sobre os trabalhadores rurais, estabelecendo relações de subserviência e dependência.

Foi um sistema político e social que moldou profundamente a história do Brasil de forma extremamente exploratória e corrupta. Como diz o advogado e historiador Victor Nunes Leal, em sua obra “Coronelismo, Enxada e Voto”, os coronéis foram senhores do bem e do mal.

Quanto ao Cangaço, podemos afirmar que é um dos fenômenos mais controversos da história nacional, geralmente categorizado na seguinte dualidade: ou criminosos assassinos ou heróis populares.

Os cangaceiros, como eram conhecidos os integrantes do cangaço, eram ladrões e assassinos que andavam bastante armados, os quais se dividiam em três formas de banditismo: o de vingança, o puro e simples e o de justiça social.

O Cangaço foi um movimento criminoso que aconteceu na região Nordeste durante o período que abrangeu o final do século XIX e a metade do século XX que desafiaram a autoridade do Estado e principalmente a dos coronéis locais. Interessante que muitos dos jagunços (pistoleiros) dos próprios coronéis se bandearam para a vida de cangaceiros. Alguns cangaceiros vendiam seus serviços para coronéis, perseguindo e matando seus opositores em troca de dinheiro.

O primeiro cangaceiro de repercussão nacional foi Jesuíno Brilhante, que, a partir de 1871, formou um poderoso grupo que circulou pelo Sertão, atacando principalmente fazendas dos grandes coronéis da região. Todavia, o bando de cangaceiros mais famoso foi o comandado por Lampião. Foi por volta de 1918 que Virgulino se tornou cangaceiro para vingar de um conflito familiar.

Importante ressaltar, que desde a época do cangaço, a opinião pública sobre o movimento se dividia. Para alguns, eles eram heróis praticando o que é chamado de banditismo social, para outros, eles eram criminosos cruéis que agiam com violência, destruíam cidades, cometiam estupros e não respeitavam as leis. Não deveriam, portanto, ser alçados à condição de heróis e seus atos violentos não deveriam ser relativizados.

Independente de pensamentos, a vida dos cangaceiros influenciou em diversas manifestações artísticas no Brasil, basta ver o modo de vestir de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Quem nunca cantou a música "Olê mulher rendeira? Segundo o Padre Frederico Bezerra Maciel, regionalista pernambucano e biógrafo de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, o cangaceiro teria escrito os versos da versão original desta canção. A ele se acrescenta Câmara Cascudo, segundo o qual Lampião teria escrito a letra em homenagem ao aniversário de sua avó Dona Maria Jocosa Vieria Lopes ("Tia Jacosa") que era uma rendeira.

No mundo atual, a criminalidade assumiu contornos diversos, e hoje é um mal que todos os países, tentam combater, e que infelizmente na maioria das vezes sem sucesso. 

Na atualidade ocorre no Brasil um fenômeno social conhecido como Neocangaço que são grupos de criminosos fortemente armados dominam pequenas e médias cidades, assaltando instituições financeiras. Entendo que não dá pra traçar uma analogia entre o cangaço e essas ações empreendidas atualmente. Claro que razões sociais estavam por trás do cangaço, assim como também estão por trás do crime organizado moderno, mas as situações históricas, lá atrás e agora, são completamente diferentes.

Hoje as organizações criminosas estão envolvidas com bingos, cassinos, lenocínio, narcotráfico, lavagem de dinheiro e jogos ilegais. Por exemplo, o Comando Vermelho (C.V.), tem atuação fortemente com o tráfico de armas, roubos, narcotráfico, entre outros. O Primeiro Comando da Capital (PCC), que é formado por todos os tipos de criminosos, com atuação vasta, que vai desde a proteção, até a assassinatos encomendados, sequestros, roubos, etc.

Da mesma forma que ao falarmos do Coronelismo temos que falar do Cangaço, quando citamos as organizações criminosas, tais como as ligadas ao tráfico de droga, vem em nossa mente as milícias brasileiras.

É provável que as milícias existam desde muitos séculos atrás. São diversos os relatos de grupos de mercenários, revolucionários e grupos armados que atuavam na sociedade, como a revolução de Espártaco e a milícia do senador romano Catilina.

A registros que no Brasil as atividades milicianas começaram na década de 60, no bairro Rio das Pedras, na cidade do Rio de Janeiro. Os objetivos inicial dos milicianos eram: lutar contra os narcotraficantes; impedir o uso e tráfico de drogas; ganhar dinheiro através do serviço de segurança privada. As milícias avançaram para as organizações criminosas que conhecemos hoje em dia, quando policiais enxergaram a oportunidade de exploração de atividades econômicas nas comunidades carentes, principalmente após a expulsão dos traficantes.

A diferença original entre milicianos e traficantes era simples: os milicianos cobravam para oferecer segurança; já os traficantes, por sua vez, vendiam drogas ilegais e dominavam territórios das favelas, tornando-se o governo desses locais. Contudo, atualmente a diferença entre os dois grupos tornou-se inexistente ou complexa.

Juntando a toda essa forma de bandidagem, que já existiram e continuam a existir, hoje em dia o banditismo organizado está no alto da cúpula política e econômica. Os chamados bandidos de colarinho branco. Na realidade sempre existiram, apenas hoje são mais sofisticados e manipuladores. Já é constatado que os criminosos do colarinho branco não estão presentes apenas no âmbito político e econômico do país. Profissionais de todas as áreas podem estar sujeitas a cometerem o crime de colarinho branco. O que irá diferenciar será os que decidirão enveredar pelo caminho do crime em busca de vantagens financeiras e pessoais muitas vezes valendo-se do seu poder econômico, intelectual e social. Infelizmente a prática criminosa não acaba, mas sim se adapta aos novos meios estruturais da sociedade.

Se hoje não existem mais os coronéis de patentes figurativas, conferidas pelo Estado, hoje temos, numa nova roupagem, políticos e empresários corruptos que ditam as regras. Se não temos mais cangaceiros de bornal espalhados pelas caatingas, assolando os sertões com suas ações criminosas, hoje temos milicianos, grileiros, traficantes e quadrilhas espalhando as mais diversas formas de miséria e degradação humana. O que podemos chamar poder paralelo ao do Estado.

Entraves da sociedade brasileira, como a desigualdade social, a pobreza e a falta de acesso à Justiça e a outros serviços fornecidos pelo Estado, foram fundamentais para o surgimento do cangaço e continuam sendo entraves na sociedade atual.

Diversas políticas sobre segurança pública são instauradas no Brasil, mas o problema continua. Não vejo o Estado desenvolver uma estratégia de recuperação dos territórios dominados pelas milícias e por traficantes. As ações contra os colarinhos brancos continuam sendo regidas e orquestrada para não prender ninguém.  O que vemos é o ciclo do mandonismo, favorecimentos e apadrinhamento, continuarem a regendo de forma orquestrada sobre as muitas vidas desfavorecidas e necessitadas nos quatro quantos do país. Em outras palavras, a velha cultura política do clientelismo e da dependência.

Em síntese, sem usar a lente de ideologias políticas, não podemos omitir ao menos o fato de que fazemos parte de um país que, mesmo tendo evoluído em algumas áreas, ainda somos uma nação atrasada, carente de “heróis” que realmente estejam dispostos dar a vida para sanar essa doença, visando a construção de uma sociedade mais igualitária, democrática e segura.

Bem, por enquanto só nos resta cantar: "Se gritar 'pega, ladrão'/ Não fica um, meu irmão".

25/03/2024

Pela obra se reconhece o autor

O escritor de Gênesis abre seu livro dizendo: “No princípio criou Deus os céus e a terra. A terra era sem forma e vazia; e havia trevas sobre a face do abismo, mas o Espírito de Deus pairava sobre a face das águas. Disse Deus: haja luz. E houve luz. Viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas. E Deus chamou à luz dia, e às trevas noite. E foi a tarde e a manhã, o dia primeiro (Gênesis 1,1- 5).

A criação do homem, versus a evolução do homem, é um dos maiores debates religiosos versus científicos. As religiões judaico-cristãs acreditam que Adão foi o primeiro homem na Terra e foi criado na forma atual do homem por Deus, e muitos cientistas acreditam que o primeiro homem na Terra, realmente evoluiu algumas centenas de milhares de anos antes.

Seguindo esse debate temos algumas perguntas que acompanham a humanidade há muito tempo, que são: De onde vim, para onde vou e o que estou fazendo aqui? Existe um Deus, um ser superior, um criador? Quem criou, quem nos criou?

Tem gente que não crê em Deus ou em qualquer "ser superior", é o que chamamos de “Ateu”. O ateísmo é uma "postura filosófica" dos ateus, que rejeita a ideia de existência de quaisquer deuses. Um ateu pode ter uma atitude ativa (quando defende de forma veemente a ausência de qualquer Deus) ou uma atitude passiva (quando nega apenas por não haver provas que demonstrem a existência da divindade).

Temos também os agnósticos que não negam a sua existência, mas tampouco podem confirmá-la. Os agnósticos, portanto, estão calcados na dúvida, pois não acreditam que podem afirmar a existência ou não existência de um deus. E temos os teístas que não seguem nenhuma religião, isto é, não participam de ritos, celebrações e rituais religiosos, mas eles acreditam na existência de um deus ou de deuses.

Uma das maiores religiões do mundo é o Budismo. A religião budista na sua forma clássica não é teísta, ou seja, não possui um Deus e não acredita em Deus. O Budismo é uma doutrina espiritual e filosófica criada pelo indiano Siddhartha Gautama, o Buda, que considera o poder da reencarnação humana, de animais e das plantas, e acredita que as escolhas para se chegar à libertação dos sofrimentos estão no autoconhecimento. Por isso o indivíduo deve ser bom a todos os seres.

A origem da vida é um tema bastante polêmico, e várias hipóteses tentam explicar como os primeiros seres vivos surgiram em nosso planeta. As principais são: a Biogênese, que segundo a mesma um ser vivo só pode ser originado a partir de um ser vivo preexistente; a Panspermia, cuja a hipótese é que a vida na Terra foi trazida do espaço por meteoros e cometas; da Evolução Química, cuja hipótese é que compostos simples presentes na Terra primitiva passaram por diversas reações e formaram compostos tão complexos ao ponto de conceber seres vivos; a Abiogênese que diz que alguns tipos de materiais possuem um tipo de “princípio ativo” capaz de gerar vida; e finalmente a Criacionista, que é a teoria de que a vida teria sido uma criação divina sendo embasada por escritos religiosos. As principais religiões que difundem suas versões criacionistas para explicar a origem dos seres na Terra são: Cristianismo, Judaísmo e Islamismo.

Para muitos físicos o conceito de Deus é uma necessidade teórica. Porque tudo tem que ter uma causa. Algo não pode ter origem do nada. Então você tem que ter sempre algo antes. A Teoria que tem sido aperfeiçoada é muito discutida sobre a origem do Universo, é a teoria do Big Bang. Ela sustenta que o Universo surgiu a partir da explosão de uma única partícula, o átomo primordial, causando um cataclismo cósmico inigualável a cerca de 13,8 bilhões de anos. De onde surgiram os elementos que provocaram o Big Bang? Então como vemos, a própria Ciência precisa de uma causa sempre. E aí o conceito de Deus entra como causa, causa primária de todas as coisas. Para os que não acreditam em Deus é mais fácil crer no acaso, que em um Ser Criador.

Tem um provérbio que diz: “Pela obra se reconhece o autor.” Do poder de uma inteligência se julga pelas suas obras. Não podendo nenhum ser humano criar o que a Natureza produz, a causa primária é, conseguintemente, uma inteligência superior à humanidade.

A ciência requer prova, a crença religiosa requer fé. Os cientistas não tentam provar ou refutar a existência de Deus porque sabem que não existe um experimento que possa detectar Deus.

Deus, de diversas maneiras, pertence ao plano “invisível”, portanto, há um elemento de fé na crença. Não se trata, contudo, de uma fé cega e insensível.

Um dos fundadores da microbiologia, criador da pasteurização, Louis Pasteur (1822-1895), disse a seguinte frase: “Quanto mais eu estudo a natureza, mais me maravilho com a obra do Criador, a ciência me aproxima de Deus”

O universo não é somente funcional; ele é lindo! É difícil admirar as cachoeiras, lagos, montanhas, florestas, orlas marítimas, cânions e não acreditar que Deus existe. Por isso que o maçom denomina o Criador de Grande Arquiteto do Universo

Os sinais de Deus se manifestam em todas as ciências para que o indivíduo pensante os contemple. Basta olharmos a complexidade dos seres humanos e dos animais, com tantos detalhes e tanta perfeição, os diferentes tipos de solos, rochas e minerais, de Bacias hidrográficas espalhadas pelo mundo inteiro e os oceanos que removem carbono do ar, regulam o clima da Terra, fornecem alimentos, empregos e fornecem oxigênio, da variedade de vegetais que se adaptam em diferentes tipos de terras e em climas diversos.

Não há como explicar a nossa beleza e existência, a perfeição do ser humano, e de todos os seres belos e encantadores como o cosmo, as estrelas, as flores, os pássaros, as crianças, e toda a ordem da natureza sem Deus.

Tentar compreender e explicar Deus é como tentar enxergar a olho nu e descrever, toda a grandeza das galáxias do universo. Impossível! Deus é imensurável!

Santo Agostinho disse que “Ele não pode e não deve ser compreendido, mas adorado”. Se nós o compreendêssemos ele seria um Deus falso, muito pequeno, limitado, criatura e não criador. Um deus que cabe na nossa cabeça não é Deus.

Quanto mais tivermos dificuldade para entendê-Lo, tanto mais podemos estar certos de estar crendo no Deus verdadeiro, que não pode ser apreendido pela nossa humanidade. Caso contrário Ele não seria Deus.

Deus é Infinito em tudo: onisciente (sabe tudo), onipresente (está em toda parte); onipotente (pode tudo). Ele está fora do tempo e do espaço; para Ele não existe ontem e amanhã; Ele é “um instante que não passa!”, disse Karl Ranner (sacerdote católico jesuíta de origem germânica).

Na obra ‘O Livre Arbitro’ de Santo Agostinho, livro II, capítulo 1 a 14, fala sobre a prova da existência de Deus. Para chegar à prova da existência de Deus, ele demonstrou que elas são:  A Razão, porque é o que há de melhor no homem, ela diferencia o homem de todos os outros seres do mundo, principalmente dos animais; Os Números, porque possuem uma verdade universal, inalterável e imutável; A Sabedoria, porque é com ela que o homem é capaz de discernir o que é bom e o que é ruim; E a Fé, porque é através dela que ele chegou a verdade, que é Deus. O ponto principal do pensamento de Santo Agostinho é a fé, porque foi através dela que ele chegou à verdade, que procurava antes de converter-se ao cristianismo.

E se acreditamos em Deus, não importa o que os cientistas descubram sobre o Universo — qualquer cosmos pode ser considerado consistente com Deus.

Quanto as três perguntas: De onde viemos, para onde vamos e o que estamos fazendo aqui?

Viemos de Deus, ele é o criador de todas as coisas. Essas três perguntas não se encontram em teorias bem construídas, mas em uma pessoa: Jesus Cristo. Quando Ele estava para partir desse mundo, através de sua morte e ressurreição, Jesus se reuniu com seus discípulos e disse: “Não tenham medo, não fiquem perturbados nem apavorados. Eu vou agora, mas vocês não podem ir comigo, mas um dia vocês estarão comigo para sempre, pois vocês sabem o caminho”.  Nesse momento, um dos discípulos o interrompe e pergunta: “não sabemos para onde você vai, como saberemos o caminho?” A incompreensão do momento presente e a preocupação com o futuro fez com que os discípulos questionassem suas origens, seu futuro e sua missão. É nesse contexto que Jesus, de maneira simples e objetiva, apresenta a resposta para as três perguntas. Jesus diz: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”.

O que estamos fazendo aqui? Nós estamos aqui para amadurecer diante de Deus, aprendendo a romper com as estruturas falidas deste mundo e se aproximar dos valores do reino de Deus, os valores e a maneira de viver ensinada por Jesus. Ele é o caminho. A vida com Deus não é um ponto de chegada somente. Mais do que isso, é uma estrada que precisa ser trilhada, obstáculos precisam ser superados, lições precisam ser aprendidas e você precisa amadurecer até parecer-se mais e mais com Cristo.

Quem criou Deus? Essa é uma pergunta que considera já de início que Deus foi criado. Que é um grande equívoco, considerando toda a complexidade do Universo criado. Daí a distinção fundamental que a Bíblia faz de todos os deuses das demais religiões e mitos. Deus é o Supremo Criador. Ele sempre existiu, nunca foi criado: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (...) Todas as coisas foram feitas por ele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez. - João 1:1, 3.

"Pouca ciência afasta o homem de Deus, muita ciência a Deus conduz" (Francis - político, filósofo empirista, cientista, ensaísta inglês).

S.M.J

25/02/2024

A resiliência e coragem das mulheres na conquista de seus direitos como cidadã, mãe e trabalhador

Recentemente li a seguinte frase, de um autor desconhecido: “Ser avó é voltar a ser criança, é fazer tudo pelo neto amado… É povoar a vida de esperança, é reviver todinho o seu passado”. Sábio pensamento. É assim que me sinto desde que meu neto nasceu. Nessa nossa volta a ser criança, coloco como um dos fatos relevantes, a comemoração da passagem de idade. Como é importante para as crianças, que “contam os dias” para comemorar com a família e os amigos. O dia do aniversário de uma pessoa, é um acontecimento marcante e especial, pois é a renovação de um ciclo cheio de aprendizados, realizações e renovação de muitos planos para a nova idade. Mas, para as crianças, tem um gostinho especial. O tema da festa, a mesa repleta de docinhos, bexigas coloridas, brincadeiras e, claro, muitos presentes. Essa é a ideia de festa de aniversário, para os pequenos. A comemoração é uma oportunidade valiosa para as crianças se sentirem amadas, valorizadas e especiais.

Assim como a comemoração de datas natalícias, seja de crianças ou em qualquer idade, as datas comemorativas carregam um simbolismo, um contexto histórico e cultural. Sejam datas para lembrar um evento, homenagear uma pessoa ou uma categoria profissional, um momento histórico, religioso, uma personalidade, uma data casamento, início namoro, etc. Interessante que aprendemos? desde cedo a nos importarmos com os eventos do calendário.

Dentro desse contexto, considero uma das datas comemorativa mais justas ou melhor, mais significativa, o Dia Internacional da Mulher, que foi oficializado em 8 de março de 1975 pela ONU. Data que simboliza a luta histórica e reivindicações das mulheres pelos direitos femininos, contra a desigualdade e sexismo, desde que o mundo é mundo. Inicialmente, essa data remetia à reivindicação contra a desigualdade e discriminação de gênero, no âmbito profissional, em todo mundo, atualmente, simboliza também a luta das mulheres contra o machismo e a violência.

Infelizmente, existe a concepção equivocada de que a mulher é inferior ao homem nas mais variadas culturas. Mas no Ocidente foi (e ainda é) sustentada por uma determinada interpretação da narrativa religiosa: feita da costela de Adão, Eva (e a mulher por extensão) seria um homem incompleto; uma pequena parte dele. Seria ainda a tentação, aquela que leva o companheiro a provar o fruto proibido, condenando todos à queda. Essa leitura do Gênesis contaminou a cultura ocidental e contribui para manter a dominação masculina sobre o feminino. Na verdade, o que temos que observar que Deus tão pouco tirou de Adão um osso de uma parte inferior (de seu pé) ou superior (da cabeça) para dar vida a ela. A costela está na lateral do corpo. Este é o lugar da mulher: não abaixo nem acima, mas ao lado do homem. Mais um sinal de igualdade. Quanto ao argumento de que Eva (e a mulher) é a tentação do homem, não se sustenta nem mesmo pela lógica machista. O sexo dito forte não seria, por meio dessa narrativa, fraco ao ceder à tentação? E não estaria em pé de igualdade com a mulher ao cometer o mesmo equívoco?

O Rabino Chelbo, um sábio que viveu há cerca de 1800 anos, eloquentemente afirmou: “Cuida-te quando fazes chorar uma mulher, pois Deus conta as suas lágrimas. A mulher foi feita da costela do homem, não dos pés para ser pisada, nem da cabeça para ser superior, mas sim do lado”.

Nunca podemos esquecer que Deus criou o mundo em "seis dias", e foi fazendo tudo surgir numa ordem crescente de perfeição: minerais, vegetais, animais, homem e mulher; então, a mulher é a mais linda criação de nosso Pai.

Infelizmente, a mulher entre os judeus, na época de Jesus, era não mais que um objeto pertencente ao marido, como seus servidores, suas edificações e demais posses legais. No interior da sociedade judaica, ela ocupava uma posição bem inferior à do homem.  Alguns rabinos chegavam aos extremos de afirmar que as mulheres não tinham alma.

As condições vulneráveis que as mulheres eram submetidas, nos tempos de Jesus são visíveis nos escritos sinóticos e no evangelho joanino.

Um dos episódios mais chocantes do Evangelho é justamente aquele no qual Ele se dirige à mulher samaritana. Este povo era aguerrido adversário dos hebreus, desde a cisão entre as tribos de Israel. Assim, ao se revelar claramente como o Messias para alguém desta comunidade, especialmente a uma mulher, Ele deixou tanto samaritanos quanto judeus perplexos.

A sociedade nos tempos de Jesus continuava com uma estrutura patriarcal de inferioridade e de submissão às mulheres. Jesus, porém, introduziu algumas mudanças significativas em seu comportamento pessoal com as mulheres, sendo diferente do tratamento oferecido pelos homens às mulheres de sua época. Ele reagiu contra a marginalização das mulheres. Mas como fazia parte de uma sociedade patriarcal, nada pode fazer com relação às mudanças jurídicas.

A Idade Média foi considerada por muitos historiadores como a Idade das Trevas, período de transição da escravidão para o feudalismo. Uma época de muita perseguição religiosa, várias doenças e ataques entre povos. Às mulheres deste período eram muito desvalorizadas, pois a sociedade era toda centralizada na figura do homem, porém foi nessa época que às mulheres conquistaram acesso a grande parte das profissões e também ao direito de propriedade. Mesmo tendo sua mão-de-obra vista como inferior a realizada pelos homens, há exemplos e exemplos de mulheres na Idade Média que desenvolveram atividades de liderança política, mulheres que tiveram à frente de exércitos, mulheres que ajudaram a conduzir batalhas, mulheres que trabalhavam nas oficinas, tendo determinados ofícios que eram quase propriamente femininos, as tecelãs são exemplo disso. Podemos destacar a camponesa francesa Joana D’arc liderou o exército francês durante um período da Guerra dos Cem Anos (entre França e Inglaterra). Essa valente figura rompeu com os paradigmas impostos pela sociedade, vestia roupas masculinas e possuía uma forte personalidade. A moça foi condenada pela Inquisição e executada como bruxa. Porém, no início do século XX foi canonizada como santa pela Igreja Católica.

A transição entre a Idade Média e Idade Moderna fez com que às mulheres começassem a ganhar espaço na sociedade mercantilista.

Na Idade Moderna, com o desenvolvimento industrial, a mulher assume novas ocupações, as mesmas antes ocupadas pelo homem. A Revolução Industrial, trouxe a disputa do trabalho entre o homem e a mulher. A mulher possuía mão-de-obra mais barata que o homem, porém, produzia menos em virtude de suas ocupações domésticas.

Recordando um pouco da nossa história brasileira, iniciando na época do Brasil Colônia (1500-1822), apenas uma pequena parcela da sociedade possuía direitos e deveres e mesmo às mulheres livres, eram marginalizadas de todo o processo político e econômico da sociedade. A escravidão se fazia presente durante esse período e às mulheres brancas eram tratadas de forma diferente das mulheres negras. Ambas eram submetidas à dominação do homem, que centralizava o poder para si, mas enquanto as mulheres brancas apenas estavam destinadas ao trabalho doméstico e familiar, a obedecer aos seus pais e maridos, às mulheres negras serviam de mão de obra escrava não só no âmbito doméstico, mas também nos campos e lavouras.

A lei permitia que marido assassinasse a própria mulher. Jorge Amado abre o clássico Gabriela, Cravo e Canela narrando o aflitivo momento em que o fazendeiro Jesuíno Mendonça flagra a mulher, dona Sinhazinha, na cama com o dentista Osmundo Pimentel e, sem hesitar, executa os dois a tiros. Embora seja ficcional, Gabriela se baseia em elementos da realidade daquela época.

Na Colônia, no Império e até nos primórdios da República, a função jurídica da mulher era ser subserviente ao marido. Mesmo após a Proclamação da República (1889) e o estabelecimento da Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, em 1891, às mulheres continuavam esquecidas, não sendo citadas em nenhum momento.

Fazendo uma pequena corrida no tempo, podemos lembrar de importantes acontecimentos e conquistas das mulheres brasileiras. Iniciamos lembrando quando as mulheres foram autorizadas a ingressar nos colégios e estudassem além da escola primária (1827), assim como acerca da obra “Direitos das Mulheres e Injustiças dos Homens”, de autoria da potiguar Nísia Floresta, publicado em 1833. Ela foi a primeira mulher brasileira a denunciar em uma publicação o mito da superioridade do homem e de defender às mulheres como pessoas inteligentes e merecedoras de respeito igualitário. 

Apesar da Proclamação da República no Brasil tenha ocorrido em 1889, foi apenas 20 anos depois, em 1910, que nasceu o Partido Republicano Feminino, como ferramenta de defesa do direito ao voto e emancipação das mulheres na sociedade. 

Quando ainda nem existia o voto feminino (1928), a potiguar da cidade de Angicos, Alzira Soriano de Souza abriu espaço para as mulheres na política. Ela foi a primeira mulher a assumir o governo de uma cidade não apenas no Brasil, mas na América Latina inteira. Somente em 1932 às mulheres brasileiras conquistam o direito ao voto. Uma vitória da luta das mulheres que, desde a Constituinte de 1891, pleiteavam o direito ao voto. Em 1934 a paulista Carlota Pereira Queiróz é eleita a primeira deputada do país. Em 27 de agosto, a Lei nº 4.212/1962 permitiu que mulheres casadas não precisassem mais da autorização do marido para trabalhar. A partir de então, elas também passariam a ter direito à herança e a chance de pedir a guarda dos filhos em casos de separação. Somente em 1974, às mulheres conquistam o direito de portarem um cartão de crédito. Imagine só. Cartão de crédito, que hoje está presente na vida da maioria das pessoas, por muito tempo foi um direito exclusivo dos homens. Até o dia 26 de dezembro de 1977, às mulheres permaneciam legalmente presas aos casamentos, mesmo que fossem infelizes em seu dia a dia. Somente a partir da Lei nº 6.515/1977 é que o divórcio se tornou uma opção legal no Brasil. Parece estranho, mas somente em 1983, Conselho Nacional de Desportos (CND), considerou o futebol feminino aceitável e o regulamentou. Dois anos depois (1979), a paulista Eunice Michilles tornou-se a primeira mulher a ocupar um assento no Senado Federal pelo voto popular e em 1994, Roseana Sarney é eleita como a primeira governadora de um estado brasileiro (Maranhão).

Foi apenas na Constituição de 1988 que o papel da mulher na sociedade contemporânea brasileira foi completamente modificado. Ocorreu a introdução do princípio da igualdade, que estabelece que “homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações”. Outro fato relevante, ocorreu em 2002, quando da retirada do Código Civil do artigo que dizia que um homem podia pedir a anulação do casamento caso descobrisse que a esposa não era virgem.

Nesse pequeno histórico, podemos dizer que uma das conquistas mais importantes para às mulheres brasileiras ocorreu em 2006 com a Lei nº 11.340/2006, conhecida como Lei Maria da Penha, que foi sancionada para combater a violência contra a mulher. Tivemos ainda, no campo da política, em 2010, a mineira Dilma Roussef eleita como a primeira presidente mulher do Brasil.

Dentro do contexto mundial, temos que ressaltar que as Grandes Guerras Mundiais (Primeira e Segunda), foram marcos históricos que causaram profundas transformações na sociedade, tanto no cenário econômico quanto no político e social. Nesse período ocorreu a inserção das mulheres nas relações de trabalho, pois os homens eram obrigados a se ausentar de casa para defender seus países, enquanto que as mulheres passaram a se inserir no mercado de trabalho. Inicialmente, elas começaram a substituir os homens nas fábricas, indústrias enquanto ainda continuavam com seu “papel” de cuidar da família.

Com as inúmeras perdas nos primeiros dois anos de guerra, as mulheres começaram a tomar funções militares, como enfermeiras, espiãs e outras muitas carregando armas em trincheiras.

Temos que destacar a participação de enfermeiras brasileiras na Segunda Guerra Mundial. As enfermeiras serviram nos hospitais militares, comandados pelos norte-americanos. A proximidade com a linha de fogo variava de acordo com o tipo de hospital (estacionamento, campanha, evacuação). Isso não as livrou dos perigos da guerra, já que as áreas hospitalares também foram atingidas por bombardeios, incêndios, alagamentos e explosões de minas.

Há um longo caminho a ser percorrido para uma sociedade ser justa e igualitária. É preciso de uma longa batalha para que o preconceito contra mulheres seja banido. Cada dia, um novo capítulo é escrito.

Apesar da conquista dos direitos no mercado de trabalho, o preconceito contra mulheres ainda é amplo. As mulheres não têm a sua vida prejudicada somente no mercado de trabalho, além disso, elas ainda são vítimas cotidianamente de assédio e da violência, seja ela simbólica, física ou sexual. Mas, na sociedade atual, a mulher moderna possui plena consciência do seu potencial e seus direitos e passa a demonstrar grande interesse pela valorização e melhoria de seus direitos como cidadã, mãe e trabalhadora.

O Dia Internacional da Mulher não é um mero dia voltado simplesmente a homenagens triviais às mulheres, mas diz respeito a um convite à reflexão referente a como a nossa sociedade as trata. Essa reflexão vale tanto para o campo do convívio afetivo, familiar e social quanto para as questões relacionadas ao mercado de trabalho. Momento para repensar atitudes e tentar construir uma sociedade sem desigualdade.

Tanto às mulheres brasileiras como as de todos os lugares desse planeta, em comum, elas têm resiliência e coragem para persistir e seguir em frente. Suas conquistas e trajetórias de vida servem de inspiração e exemplo para as gerações seguintes, porém apesar das vitórias e avanços, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Entendemos que é preciso comemorar o dia da mulher todos os dias e respeitar, apoiar e encorajar aquelas que são tão importantes para nossa vida!

Concluímos com alguns trechos da música “Mulher (sexo frágil)” de Erasmo Carlos: “Dizem que a mulher é o sexo frágil, mas que mentira absurda! Eu que faço parte da rotina de uma delas, sei que a força está com elas. Vejam como é forte a que eu conheço. Sua sapiência não tem preço. Satisfaz meu ego se fingindo submissa, mas no fundo me enfeitiça. Mulher, mulher. Do barro de que você foi gerada. Me veio inspiração, pra decantar você nessa canção. Na escola em que você foi ensinada, jamais tirei um dez, sou forte, mas não chego aos seus pés”.

DEU ZEBRA

Uma das características dos brasileiros que mais chamam atenção no exterior é a “alegria”. Esta é, sem dúvida, a marca dos brasileiros em qualquer lugar do mundo. É impossível não relacionar o brasileiro a um povo feliz, acolhedor e brincalhão.

Podemos relacionar esse lado brincalhão do brasileiro, com seu senso de humor. 

O senso de humor, é uma característica fundamental na vida e na manutenção dos relacionamentos interpessoais, é uma ferramenta eficaz para superar qualquer incômodo ou vergonha, para descontrair em situações tensas e quebrar o gelo. E se faz ainda mais necessária nos momentos de dificuldades, pois ajuda na superação, na maneira de encarar os problemas e de encontrar soluções. Todavia, o humor tem uma função defensiva, sendo fruto de uma ação do superego sobre o ego oprimido, a fim de protegê-lo do sofrimento. De acordo com Sigmund Freud, o ego recusa a realidade do mundo externo e tenta obter prazer afirmando-se contra a “crueldade das circunstâncias reais”. Nesse sentido, postula Freud, o humor é liberador e enobrecedor do ego. É um mecanismo subjetivo que visa anular o sofrimento e a dor, em favor do princípio do prazer. Situações que despertam sentimento de tristeza, revolta, injustiça, impotência, decepção etc. – e que normalmente independem da ação do sujeito para contorná-las.

Dizem que “brasileiro não perde a chance de fazer piada”. E isso ficou ainda mais evidente com o uso da internet. Política, economia, futebol, vida privada de famosos, Enem, morte, qualquer que seja o assunto, o humor vem recobrir sentimentos que se despertam e que diante dos quais, muitas vezes, não há o que fazer. É uma resposta àquilo que afeta, de alguma forma, o ser do sujeito.

Não podemos generalizar, mas são poucos os que levam as coisas a sério neste país, a maioria é adepta da brincadeira, do deixa como está para ver como é que fica, do empurrando com a barriga, do criar dificuldade para vender facilidades, do jeitinho brasileiro, do levar vantagem em tudo, do se Deus quiser um dia vai melhorar, etc. etc.

Dentro desse contexto, tem uma antiga piada que demonstra a paixão que muitos brasileiros tiveram ou ainda têm, pelo jogo do bicho, assim contavam: Numa pequena cidade do interior havia um pequeno convento onde viviam três freiras: A sisuda madre superiora e duas irmãs. As duas irmãs mais novas, tinham lá seu pecadilho: gostavam de um joguinho de azar. Tinha na cidade uma banca de jogo do bicho. As irmãs as escondidas da madre, quando arrumavam um dinheirinho jogavam no bicho.

Um dia, a irmã Dorotéia teve um sonho inspirador, e jogou todo seu dinheiro no bicho. A banca de jogo ficava ao lado do convento. A tardinha na hora da Ave Maria, elas estavam na capela cantando e rezando. Da janela da capela dava para ver a tabuleta onde ficava o resultado do jogo. A irmã Dorotéia a todo instante ia na janela para ver o número ganhador. A Madre superiora perguntou o motivo da inquietação dela. Ela através de evasivas, reclamou do calor, que seus joelhos estavam doendo. Como ela era baixinha não conseguia ver direito a tabuleta.

Era dia de Nossa Senhora de Fátima, elas estavam cantando aquela velha cantiga:

"A treze de maio, na cova da Iria. No céu aparece, a Virgem Maria... Ave, ave, ave Maria"...

A Madre superiora estava um pouco surda, ela ouvia, mas não entendia bem as palavras.

E como a irmã Chiquinha era alta e esguia como um bambu e estava perto da janela, a irmã Dorotéia cantou no mesmo tom: Irmã Chiquinha, você que é mais alta, mais alta que eu, me conta agora, que bicho que deu. A irmã Chiquinha espichou o pescoço que nem uma girafa, viu o resultado na tabuleta e no mesmo tom, também cantou: Ave, ave, avestruz. Ave, ave, avestruz!

Essa piada serve também para lembrar de outra característica do brasileiro que todos nós muito bem conhecemos, inclusive os estrangeiros. Estamos falando do chamado “jeitinho brasileiro”. Podemos denominar de criatividade.

Alguns produtos e serviços brasileiros obtêm sucesso no mercado justamente por possuírem densidade cultural, que agregam ainda mais valor aos produtos. Pode-se perceber que o aspecto citado acima está presente nos segmentos de moda, turismo, artesanato, agronegócio e, principalmente, em manifestações culturais como pintura, música e festas típicas/temáticas, como o Carnaval.

Retornando a piada das freiras, e claro, a paixão das mesmas pelo jogo do bicho, assim como a caipirinha, o samba e o Carnaval, o jogo do bicho é uma invenção brasileiríssima.

O jogo do bicho foi criado em 03 de julho de 1892, pelo Barão João Batista Drummond, como um meio de aumentar a arrecadação financeira do jardim zoológico mantido por ele.

O Barão de Drummond criou o Jardim Zoológico do Rio de Janeiro, tanto com a finalidade recreativa, como também didática, por essa razão foi considerado uma iniciativa de utilidade pública, recebendo, aliás, ajuda financeira do Império no valor de 10 contos de réis por ano. Ajuda essa que durou até a proclamação da República, quando esse auxílio foi suspenso.

Por alguns anos, o Barão manteve o Zoológico com seus próprios recursos. Porém, com dificuldades financeiras para alimentar os animais e pagar os trabalhadores do jardim zoológico, quase encerrou as atividades no empreendimento.

Foi nesse momento que Barão João Batista Drummond, teve uma ideia para atrair visitantes para seu zoológico em Vila Isabel, zona norte do Rio. O local tinha espécies exóticas e belas vistas da cidade, mas faltava público. Entre as novas sugestões de entretenimento para o local, uma se destacou: uma rifa.

Pela manhã, o barão escolhia um animal em uma lista de 25 bichos e colocava sua imagem numa caixa de madeira na entrada no zoo. Quem participava ganhava um tíquete com uma estampa de algum desses 25 animais.

Ao final do dia o barão abria a caixa e mostrava a figura. O vencedor levava 20 vezes o valor da entrada - o que já superava, por exemplo, a renda mensal de um carpinteiro da época. A partir de 1894, cada um podia comprar quantos bilhetes quisesse.

Daquele ano em diante, essa loteria deixou de ser um simples sorteio e se transformou em um jogo de azar. A “loteria” foi batizada de jogo de bicho.

Logo se estendeu para além do zoológico, por toda a cidade do Rio de Janeiro, e, depois, por diversas regiões do Brasil. O Rio de Janeiro transformou-se na "capital do jogo do bicho". Bilhetes começaram a ser vendidos, não apenas no zoológico, mas em lojas pela cidade.

Todavia, no final do século 19, pelo bem dos costumes e da moralidade, essa diversão passou a ser entendida como jogo de azar, e, as autoridades começaram a reprimir a prática. Mas a “brincadeira” só se tornou definitivamente ilegal em 1932, no governo de Getúlio Vargas, que através do Decreto Decreto-Lei nº 21.143, pela primeira vez o jogo do bicho aparece especificamente como contravenção penal.

Em 30 de abril de 1946, na promulgação do Decreto-Lei nº 9.215, que, embora não tratasse diretamente sobre o jogo do bicho, caçou todas as licenças concedidas para casas de jogos no Brasil. O que mais chama atenção é seu preâmbulo, que afirmava:

O Presidente da República, usando da atribuição que lhe confere o artigo 180 da Constituição, e considerando que a repressão aos jogos de azar é um imperativo da consciência universal; Considerando que a legislação penal de todos os povos cultos contém preceitos tendentes a esse fim; Considerando que a tradição moral jurídica e religiosa do povo brasileiro é contrária à prática e à exploração e jogos de azar; [...]

Mais uma vez, a moralidade é invocada para justificar a proibição dos jogos de azar no Brasil.

Muitos destacam, no entanto, a forte influência que a esposa do presidente Eurico Gaspar Dutra, a primeira-dama Carmela Teles Leite Dutra, teria exercido na proibição, motivada por sua forte devoção à Igreja Católica.

Em 1951, Rachel de Queiroz escreveu um artigo intitulado “O jogo do bicho”, em que levanta a questão da possibilidade de regulamentação, já que outros divertimentos mais danosos, ao seu ver, como o álcool eram permitidos.

A ligação do jogo do bicho com o carnaval começou por volta dos anos 1930, através de Natal da Portela. No quintal de sua casa foi fundado o bloco carnavalesco "Vai como pode", que se transformaria na Portela.  Após perder o braço em um acidente nos trilhos e, como não arrumava emprego, virou anotador do jogo do bicho. Em pouco tempo passou de anotador a dono de banca. Alguns anos depois, resolveu investir dinheiro na escola de coração. Surgia a figura do bicheiro patrono e a Portela se tornou a maior vencedora de todos os tempos. Depois, vieram vários outros: Castor de Andrade da Mocidade, Anísio da Beija-Flor e por aí vai. Como já dizia a canção de Dorival Caymmi: “Quem não gosta de samba, bom sujeito não é”, e nesse caso, quem gosta aparentemente também não.

Até hoje, o nome mais conhecido no universo do jogo do bicho é Castor de Andrade. Além de controlar o jogo do bicho na cidade do Rio de Janeiro, o “doutor Castor” financiava escolas de samba, ajudando a fundar em 1984 a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro. Também foi o maior patrocinador e dirigente do Bangu Atlético Clube.

No futebol, o jogo do bicho chegou paralelamente ao profissionalismo. Até 1910, o esporte era amador e, à medida que a popularidade foi crescendo, a rivalidade e a vontade de investir nos times aumentava tanto quanto.

Para aumentar o empenho dos jogadores, os sócios dos clubes ofereciam recompensas em dinheiro em caso de vitória. Para que não fosse institucionalizado o "prêmio", aqueles atletas amadores diziam que a quantia que entrava havia sido ganha no "jogo do bicho".

Na década de 60, as pessoas envolvidas com o jogo do bicho representavam cerca de um por cento da força de trabalho total do Brasil, e só na cidade do Rio de Janeiro, 50 mil pessoas trabalhavam com a contravenção entre as décadas de 1980 e 1990.

Vale destacar que nas regiões Norte e Nordeste, onde os problemas econômicos e sociais sempre foram latentes, a prática do jogo do bicho tomou proporções ainda maiores, e considerando os altos números de desemprego, foi nesta atividade que muitos procuraram manter a sobrevivência de suas famílias.

O cientista político dizem que as parcerias criminosas no Brasil, ganharam fôlego no período regime militar e se mantiveram no atual período democrático. Políticos, por exemplo, se beneficiam de doações via caixa 2 e do acesso dos bicheiros a comunidades pobres.

A verdade é que a repressão ao jogo do bicho não foi eficaz durante os anos do Regime Militar. Não interessava irritar ou acabar com a chamada “diversão” das classes menos favorecidas.

O historiador Luiz Antônio Silva, do Rio de Janeiro, deixa claro: “o jogo do bicho sempre foi aceito porque, apesar de juridicamente ilícito, era moralmente aceito porque não fazia mal a ninguém. Contudo, o tráfico de drogas jamais terá a mesma visão”.

Corre uma história de que durante o regime militar, o presidente Humberto de Alencar Castelo Branco, numa reunião da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste em Recife, teria cobrado do então governador João Agripino a extinção do jogo na Paraíba. Agripino teria respondido ao então presidente: "acabo com o jogo do bicho na hora em que o senhor arranjar emprego para os milhares de paraibanos que ganham a vida como cambistas".

Câmara Cascudo, no seu "Dicionário do folclore brasileiro", distinguia o jogo como sendo "invencível" e que a sua repressão apenas ampliava sua difusão por todo o país. "Vício irresistível", escreveu o folclorista: "(...) contra ele, a repressão policial apenas multiplica a clandestinidade. O jogo do bicho é invencível. Está, como dizem os viciados, na massa do sangue".

Um aspecto muito curioso é o fato de o Jogo do Bicho ser ilegal no Brasil, país onde nasceu, e isto apesar de toda sua popularidade entre o povo. Não seria exagero dizer que ele faz parte da cultura popular do país. Sempre destacou-se pelo lado democrático, seja rico ou seja pobre. Quem nunca interpretou sonhos, placas de carro e números, para fazer uma fezinha?

O jogo do bicho cresceu à semelhança das organizações mafiosas estrangeiras, por meio de estruturas familiares. Os grandes banqueiros do bicho, que a partir dos anos 70 passaram a habitar e operar a partir de “fortalezas”, criaram uma comissão dirigente para contornar disputas, dividir territórios e racionalizar as suas operações criminosas.

Segundo o Ministério Público do Rio (MP), os banqueiros do jogo do bicho começaram a operar com o tráfico de drogas em 1975. Nessa época, eles teriam se reunido em um bar na Barra da Tijuca (zona sul do Rio) e tomado duas decisões que mudariam a história da contravenção no Estado. Nessa reunião, os bicheiros decidiram permitir que a estrutura do jogo fosse usada para a distribuição de cocaína.

Atualmente, venda de droga e jogo não se misturam no morro. Nos morros cariocas, "bocas" de venda de drogas e pontos de jogo do bicho funcionam em locais diferentes.
A separação é uma estratégia de traficantes e bicheiros. Eles acreditam que, distanciados, atrapalham a ação policial.

A história da humanidade está ligada à história do jogo, pois parece que não importa o quão longe você vá, há sinais de que onde grupos de pessoas se reuniram, o jogo certamente estava ocorrendo. Infelizmente a tolerância social ao jogo serve como combustível para que o jogo ainda sobreviva depois de tanto tempo.

Atualmente, apesar de ainda existir o jogo do bicho, onde o bloco de papel foi substituído pelo computador, temos sites que nos permitem fazer apostas online e jogar em diversas modalidades esportivas e jogos de cassino. Entre as modalidades presentes no site estão basquete, futebol, cassino, pôquer, beisebol, bilhar, corridas de cavalos e muito mais. Vale esclarecer que, apesar de apostas serem consideradas jogos de azar, e esta modalidade ser proibida no Brasil, as apostas esportivas não são citadas na legislação brasileira.

Infelizmente, o jogo é um dos vícios que mais pode causar prejuízo aos humanos pois vem junto com a ilusão de dinheiro fácil e pode levar rapidamente um indivíduo à ruína financeira. Um assunto que tem andado extremamente popular nos dias de hoje é o vício em jogos eletrônicos e de azar. Apesar de ser um tema extremamente atual, se trata de um problema antigo, que diversas gerações enfrentam diariamente, cada dia mais.

Os jogos de azar são viciantes, justamente porque despertam prazer, adrenalina e, quando se ganha, alívio e sensação de vitória. Por outro lado, quando se perde, o indivíduo fica tentado a jogar mais algumas rodadas para mudar a sua sorte.

A compulsão pode levar a pessoa viciada a surrupiar os recursos financeiros dos seus entes queridos para alimentar o vício.

Bem, fico imaginando o que no outro mundo deva estar pensando o Barão Drummond, acerca da repercussão que sua invenção teve na sociedade brasileira nesses 131 anos de criação da “Loteria dos Bichos”, cuja ideia era apenas aumentar a arrecadação financeira do jardim zoológico mantido por ele.

Talvez ele pense: “Deu Zebra”. Não no aspecto cultural mas principalmente no fortalecimento das organizações criminosas. Interessante que a zebra não está entre os animais do jogo do bicho.

Concluímos com a música “Jogo Numerado”: O bicho homem é um bicho dominado. Pela mulher vive sempre apaixonado. Joguei um dado e fui sorteado. Caiu número um, avestruz tá decorado. Dois é a águia que tem o bico revirado. Três é o burro, pelo homem domesticado. Quatro é a borboleta que na selva foi criada.  Cinco é o cachorro, pelo homem estimado. Seis é a cabra que tem seu leite apreciado. Sete é o carneiro que tem o choro antecipado. Oito é o camelo que tem seu lombo encalumado. Nove é a cobra, um bicho amaldiçoado. Dez é o coelho que é um bicho desconfiado. Onze é o cavalo, para o homem andar montado. Doze é o elefante, com a tromba enrolada. Treze é o galo, chefe do terreiro, rei coroado. Quatorze é o gato, que pelo rato é respeitado. Quinze é o jacaré que na lagoa foi criado. Dezesseis é o leão, que é o rei do seu reinado. Dezessete é o macaco, bicho cabuloso, porém engraçado. Dezoito é o porco que só engorda bem tratado. Dezenove é o pavão, com suas penas invejadas. Vinte é o peru que é um bicho aperreado. Vinte e um é o touro que não gosta de gramado. Vinte e dois é o tigre, um bicho todo malhado. Vinte e três é o urso, um bicho mal encarado. Vinte e quatro é o veado que anda sempre apressado. Vinte e cinco é a vaca e o jogo tá terminado.

15/12/2023

Reconhecemos o que Jesus fez por nós?

Desde dos tempo antigos que os humanos tentam prever o futuro.  Os chineses tinham o I Ching que surgiu antes da dinastia Chou (1150-249 a.C.). Traduzido como Livro das Mutações ou Clássico das Mutações, é um texto clássico chinês, composto de várias camadas sobrepostas ao longo do tempo, é considerado um dos mais antigos e importantes livros de filosofia chinesa. O I Ching foi objeto de comentários de estudiosos e a base para a prática de adivinhação por séculos no Oriente, tendo também um papel influente no entendimento do pensamento oriental pelo Ocidente. Todavia, os oráculos gregos preferiam procurar respostas nas entranhas de animais.

Procurar saber o futuro através dos búzios, das cartas, a leitura de mãos, bola de cristal, horóscopo, etc, ainda faz parte de grande parte da população. Respeito a opinião de todos, que procuram esses caminhos para saber do futuro mas entendo que o futuro para nós é uma construção. É muito relativa essa coisa de prever o futuro para nós. Porque o futuro está em construção hoje. Entre as suas diversas frases famosas, o escritor Antoine de Saint Exupéry (1900-1944) o autor de um clássico da literatura “O Pequeno Príncipe”, escrito em 1943, nos diz: “O futuro não é um lugar onde estamos indo, mas um lugar que estamos criando. O caminho para ele não é encontrado, mas construído e o ato de fazê-lo muda tanto o realizador quanto o destino”.

Este tema me fez lembrar de um personagem da Escolinha do Professor Raimundo  - Seu Joselino Barbacena – quando ele dizia “Quando eu era criança pequena lá em Barbacena...”. Pois bem, na minha adolescência, descobri na casa de meus avós paternos o livro “As Profecias de Nostradamus”. Confesso que li apenas algumas parte do livro, mas na época me impressionou muito. O livro conta a história e profecias do francês Michel de Notre-Dame que nasceu em 1503. Ao mudar seu sobrenome para Nostradamus (forma latinizada de Nostredame, que caía bem numa época em que a sabedoria da Antiguidade era redescoberta) e escrever centenas de versos enigmáticos que chamava de profecias, ele caiu nas graças dos poderosos de seu tempo, e ainda cativa quase todo mundo que tenha uma quedinha pelo sobrenatural.

Segundo o livro, ele tinha suas visões em seu quarto, numa bacia de água, fazendo previsões, por exemplo, sobre o fim dos tempos, bem como a previsão de três anticristos encarnados, em seres humanos. Previu que um eclipse do sol sucederá o mais escuro e tenebroso verão que jamais existiu desde a criação e a morte de Cristo. Esse eclipse estava prevista para 11 de outubro de 1999 (fato não acontecido). Até hoje ninguém conseguiu prever um acontecimento com base em sua obra. O que existe é a correlação após o fato.

O título de "profeta", aplicado a Nostradamus, conferiu-lhe, com o passar dos séculos, uma aura de santidade e credibilidade indevidas. Identificou-o erroneamente com os profetas bíblicos.

Importante esclarecer que os profetas bíblicos não eram meros prognosticadores do futuro. Suas mensagens não se resumiam em falar o que ia acontecer. A inspiração divina em seus lábios, tinha por objetivo revelar os planos de Deus e manifestar a vontade do Senhor. Anunciavam todo o propósito de Deus, relacionando-os com o futuro, somente quando assim era necessário.

Existem cerca de trezentas profecias que se cumpriram literalmente na vida de Jesus, como o Messias de Israel. Entre essas predições, muitas delas envolviam lugares e acontecimentos exatos, como a cidade onde nasceu, a forma como falou, a forma como morreu e o resultado de sua obra. Não há nada escondido, não é necessário tecer conjecturas e suposições arbitrárias para "interpretá-las".

A profecia, entendida como a revelação da vontade inerente de Deus para a sua igreja, cessou com os profetas do Antigo Testamento e com os apóstolos do Novo Testamento. A primeira pessoa a ser identificada como profeta na Bíblia foi Abraão (Gênesis 20:7). O último profeta da Bíblia, na tradição profética de Israel, foi João Batista. A prova de que João Batista encerrou a escola profética de Israel, foi dada pelo próprio Senhor Jesus Cristo. Foi Jesus quem falou que a Lei e os Profetas duraram até João, e desde então é anunciado o Reino de Deus (Lucas 16:16).

Quando alguém diz ser profeta, devemos analisar o que diz à luz da Bíblia (1 Tessalonicenses 5:20-22). Nem todo que diz que é profeta vem de Deus. Também existem falsos profetas, que causam problemas.

O profeta de Deus não procura sua própria glória nem usa o dom de profecia para se tornar poderoso ou influente, não inventa novas doutrinas nem distorce o ensino da Bíblia, profetiza para ajudar outras pessoas, não para dar espetáculo nem para parecer importante, e se profetiza sobre o futuro, vai acontecer o que diz, senão não é profeta de Deus.

Por diversas vezes, humanos que se julgavam “profetas”, fizeram previsões sobre o fim do mundo. Por exemplo, São Gregório de Tours calculou que o fim do mundo aconteceria entre 799 e 806. Martim Lutero acreditava que o mundo acabaria até 1600. A peste negra (1346-1351) foi interpretada como um sinal do fim dos tempos.

Bem, quando ao fim do mundo e a volta de Jesus, melhor que acreditemos como está escrito nos evangelhos, por exemplo: "Quanto ao dia e à hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão somente o Pai. (Mateus 24:36).  Enquanto isso, temos que continuar, procurando comemorar com muita alegria seu nascimento, viver seus ensinamentos e refletir sobre o sangue de Cristo, derramado na cruz do Calvário para cumprir sua missão neste mundo, que ele revolucionou com suas ideias e ações.

Infelizmente, muitos cristãos só se preocupam em celebrar o nascimento de Jesus (acredita-se que a celebração do nascimento de Jesus, surgiu entre os séculos III d.C. e IV d.C), enquanto isso, no período conhecido por “Quaresma”, que nos lembra a entrada de Jesus Cristo a Jerusalém e posteriormente a sua crucificação, torna-se para muitos, um grande feriadão.

Algumas pessoas gostam de fazer o seguinte questionamento: “Se Jesus nascesse hoje, aqui no Brasil ou em qualquer periferia do mundo, qual seria a reação das pessoas com suas atitudes? Possivelmente, seria xingado e atacado nas redes sociais como anarquista, manifestante, socialista revolucionário ou falso profeta. E se barrasse algum apedrejamentos, diriam que eram ligada a alguma ONGS defensora dos direitos humanos.

Se voltarmos o tempo, lembraremos que Jesus nasceu em Belém, em um estábulo, envolvido em panos e colocado numa manjedoura, porque não havia lugar para ele e seus pais em uma hospedaria. Isso nos mostra que Jesus não veio de uma família rica ou importante da época. Grande parte do povo do qual Jesus fazia parte vivia exatamente nessa condição. Eram pessoas, em sua maioria, destituídas de poder político e praticamente sem posse ou renda. Situação parecida a de muitos brasileiros nos dias de hoje

Desde que nasceu, Jesus foi perseguido pelos governantes. Conforme o evangelista Mateus (2:13-23), o governo sentiu-se ameaçado diante do menino nazareno, organizou um elaborado plano para matá-lo, de forma a eliminar uma possível ameaça. Na verdade, Jesus nasceu e viveu em meio a violência estrutural promovida pelo Império Romano.

Ele foi o primeiro a lutar pelos direitos humanos e a dizer para separarmos a política da religião. Suas palavras eram contra a injustiça e independente de qualquer linha ideológica. Jesus dedicou toda sua vida para defender os humildes como ele. Defendia e curava os miseráveis que circulavam pelas ruas da Galileia. E enfrentou os enganadores que lucravam com a fé do povo.

Os quatro evangelhos, escritos em tempos diferentes para comunidades distintas, nos atingem ainda hoje por retratar os desafios de Jesus de Nazaré, numa sociedade mergulhada em tensões e disputas de poder. Uma sociedade massacrada pela ocupação romana, que teve o apoio dos religiosos para manutenção das relações de exclusão e violência.

Jesus não morreu de velhice, de doença, tão pouco foi atropelado por um camelo nas esquinas de Jerusalém. Foi crucificado até a morte, sem direito a julgamento algum. Foi vítima de torturadores.

Jesus participou intensamente da plataforma de redenção dos pobres. Ele jamais se apartou das pessoas que se esperaria que ele evitasse. Ele permaneceu amigo dos marginalizados, da sociedade e tocou nos intocáveis e tidos como indesejáveis.

Para muitos cristãos, protestar é visto como algo errado ou mesmo pecaminoso. Imaginar Cristo, como um manifestante é visto como um ato de blasfêmia. Protestar é a antítese de ser apático, cúmplice, insensível e passivo. Portanto, os cristãos devem se consolar com o fato de que Jesus – o filho de Deus – não era  apático, insensível nem passivo.

Ele incomodou tanto que acabou sendo preso, por perturbar o sistema à sua volta. Jesus criticou os fariseus e os chamou de hipócritas por darem o dízimo meticulosamente, mas falharem em aplicar o princípio mais profundo de justiça e igualdade. Nas estradas, nos montes ou mesmo no Templo, Sua voz ecoou em favor dos esquecidos, das crianças, das mulheres e dos marginalizados.

Jesus morreu porque confrontou o Templo, um sistema de dominação e exploração dos pobres. Foi assassinado pelos interesses da casta sacerdotal no poder, aterrorizada pelo medo de perder o domínio sobre o povo e, sobretudo, de ver desaparecer a riqueza acumulada às custas da fé das pessoas.

O crime pelo qual Jesus foi eliminado foi ter apresentado um Deus completamente diferente daquele imposto pelos líderes religiosos, um Pai que nunca pede a seus filhos, mas que sempre dá.

“Perdoai e sereis perdoados” (Lc 6,37) é, de fato, o chocante anúncio de Jesus: apenas duas palavras que, no entanto, ameaçaram desestabilizar toda a economia de Jerusalém. Para obter o perdão de Deus, não havia mais necessidade de ir ao templo levando ofertas, nem de submeter-se a ritos de purificação, nada disso. Não, bastava perdoar, veem para ser imediatamente perdoado. Quando os escribas, a mais alta autoridade teológica no país, considerando o ensinamento infalível da Lei, vêem Jesus perdoar os pecados a um paralítico, imediatamente sentenciam: “Este homem está blasfemando!” (Mt 9,3). E os blasfemos devem ser mortos imediatamente (Lv 24,11-14).

A indignação dos escribas pode parecer uma defesa da ortodoxia, mas na verdade, visa salvaguardar a economia. Jesus Cristo não era um perigo para a teologia (no judaísmo havia muitas correntes espirituais que competiam entre si, mas que eram toleradas pelas autoridades), mas para a economia.

As lideranças político-religiosas dos judeus não sabiam o que fazer com Jesus, como também não sabiam o que fazer com outras tantas formas de inconformismo dos judeus, de Zelotas a Essênios, que não mediam consequências para acabar com a dominação romana e que levariam à destruição de Jerusalém e a devastação de sua nação.

Importante ressaltar, que os judeus nunca reconheceram Jesus como o Seu salvador e não o receberam como deveriam. Em João 1 está escrito: Aquele que é a Palavra estava no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, mas o mundo não o reconheceu.

Os judeus, esperavam um Messias poderoso e político, não um filho de carpinteiro que mal tinha onde dormir. Por isso se apegavam a qualquer figura que demonstrasse liderança e poder de convencimento. Olhavam para Jesus, como um profeta que fundou um movimento responsável, por um legado de violência e tentativa de conversões forçadas de seu povo durante um período longo e cinzento da história. Infelizmente, até hoje existem judeus que não reconhecem Jesus como Messias prometido. Eles ainda aguardam um Messias que não virá, pois já veio. Naquele tempo, Jesus já dizia: "Só em sua própria terra, entre seus parentes e em sua própria casa, é que um profeta não tem honra". E não pôde fazer ali nenhum milagre, exceto impor as mãos sobre alguns doentes e curá-los (Marcos 6:4,5).

Importante ressaltar, que todos os milagres de Jesus têm um significado espiritual, pois indicam uma realidade que não podemos ver, muito maior que a qual podemos ver e, com isto, se abre o plano da redenção da humanidade. Na Bíblia, há registro de 35 milagres que Jesus fez. Os maiores objetivos dos milagres de Jesus eram: glorificar o Pai, cumprir e provar a palavra dita e a revelação de Jesus como Messias, Filho de Deus. Os milagres de Jesus não indicavam que Ele seria um líder terreno, que iria libertar a nação da opressão estrangeira. Seus milagres indicavam que Ele, era o único que poderia libertar o seu povo da condenação do pecado, satisfazendo a justiça de Deus através de seu auto sacrifício expiatório.

É impossível, ao olharmos para o crucifixo, com aquele corpo que foi torturado, ferido, riscado de correntes e coágulos de sangue expostos, aqueles pregos que perfuram a carne, aqueles espinhos presos na cabeça de Jesus, não nos sentirmos culpados. No evangelho de Marcos 14, 24, o sangue é derramado em “favor de muitos” e, em Lucas 22,20, é “derramado em favor de vós”. Será que em pleno Século XXI, reconhecemos o que Jesus fez por nós? Será que se Jesus nascesse e vivesse nos dias de hoje o reconheceríamos? Acredito, o contexto da sua morte não seria diferente, até porque os líderes ainda possuem extrema dificuldade em acolher os mais excluídos da sociedade e a sociedade não muda.

Mas, sempre é tempo de reflexão, principalmente no período natalino.  É a época para gente celebrar o quão maravilhoso e generoso Deus foi, por mandar o seu filho para a Terra para nos ensinar tantas coisas. Época para renovação da fé e da esperança e para união das famílias. Famílias que quase nunca conseguem se ver, mas fazem um esforço extra para estar juntos durante esse dia específico.

Celebrar o Natal nesses tempos de grandes ataques de escuridão simbolizados pela discórdia, pela corrupção, falsos messias, pelo confronto de ideologias política, pelo racismo, pela bandidagem, pelas guerras é um grande desafio para nossas famílias. Devemos portanto, pedir todos os dias que o Espírito Santo ilumine os nossos corações, para pue possamos reconhecer no Menino Jesus, nascido em Belém da Virgem Maria, a salvação oferecida por Deus a cada um de nós, a todo ser humano e a todos os povos da terra.

Devemos lembrar que Jesus veio ao mundo para tirar os pecados da humanidade, por isso, Ele morreu na cruz, para arrancar o pecado do mundo, arrancar as ervas daninhas que matam o jardim da nossa alma.

Concluímos, lembrando de uma citação do Papa Francisco: “Quando a vida interior se fecha nos próprios interesses, deixa de haver espaço para os outros, já não entram os pobres, não se ouve a voz de Deus, não se goza da doce alegria do seu amor, nem fervilha o entusiasmo de fazer o bem”.

Feliz Natal e Um Próspero Ano Novo!