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31 de agosto de 2026 • 11 min de leituraO “Velho Chico”, um tesouro nacional

Dificilmente uma obra pública passa pelas fases de projeto, construção e conclusão sem receber críticas de diferentes setores da sociedade. Um exemplo é a construção de Brasília, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek (1956–1961). Na época, JK foi criticado pela oposição política, pela imprensa e por setores da sociedade. Muitos consideravam os gastos excessivos e defendiam que os recursos deveriam ser destinados a áreas mais urgentes, como saúde, educação e infraestrutura. Também houve denúncias de superfaturamento e acusações de favorecimento a empreiteiras e aliados.
A oposição argumentava que o Brasil enfrentava problemas mais graves, como pobreza, desigualdade social, favelização e falta de serviços básicos, e que a mudança da capital não era uma prioridade.
Como acontece com grandes projetos, a construção de Brasília, inaugurada em 1960, trouxe consequências positivas e negativas. A nova capital contribuiu para a integração do território, modernizou a administração pública e impulsionou o desenvolvimento do Centro-Oeste. Por outro lado, gerou elevados custos, desigualdade social e desafios urbanos. Apesar das críticas, Brasília tornou-se um dos principais símbolos do governo JK e da modernização do Brasil. Atualmente, é reconhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.
Outra grande obra foi a construção da Ponte Rio-Niterói, inaugurada em 1974, durante o regime militar. Foi um marco da engenharia brasileira, mas também recebeu muitas críticas políticas, econômicas e sociais. Entre elas estavam o alto custo da obra, a falta de transparência, a ausência de licitação pública e suspeitas de superfaturamento. Também houve críticas aos efeitos sobre a especulação imobiliária e ao crescimento desordenado, principalmente em Niterói e São Gonçalo. Na época, muitos críticos argumentavam que o Brasil tinha outras necessidades mais urgentes, como saúde, educação e transporte público.
Nos tempos atuais, uma das obras mais questionadas é a Transposição do Rio São Francisco. A ideia de levar águas do São Francisco para outras regiões do Nordeste remonta à década de 1840, durante o reinado de Dom Pedro II. Já naquela época, alguns intelectuais consideravam a transposição uma possível solução para combater a seca. O projeto, porém, foi rejeitado por ser considerado muito caro e de difícil execução. Além disso, naquele período, não havia recursos tecnológicos suficientes para realizar uma obra dessa dimensão.
Ao longo dos anos, projetos de transposição foram anunciados pelos governos de Afonso Pena, Epitácio Pessoa, Getúlio Vargas, João Figueiredo, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Nenhum deles conseguiu tirar o projeto do papel. Como as secas no Nordeste são recorrentes, propostas para combater a falta de água surgem e desaparecem há mais de um século.
Em 2007, finalmente, as obras da Transposição do Rio São Francisco começaram a avançar, apesar de enfrentarem problemas de licitação, questões ambientais e protestos populares. Um dos mais conhecidos foi o do bispo baiano Luiz Flávio Cappio, que fez greve de fome em protesto contra a obra, com apoio de ambientalistas.
O projeto tem como objetivo levar água para regiões semiáridas do Nordeste Setentrional. A transposição permite abastecer açudes e rios que sofrem com a falta de água durante os períodos de estiagem.
A obra é formada por dois principais eixos: o Eixo Norte, que leva água para áreas de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte; e o Eixo Leste, que atende principalmente Pernambuco e Paraíba.
A Transposição do São Francisco continua sendo uma obra polêmica, que divide opiniões entre críticas e elogios. Seus defensores destacam a importância do projeto para garantir o abastecimento de água em regiões afetadas pela seca. Entre os reservatórios beneficiados estão o Epitácio Pessoa, em Boqueirão-PB, que abastece Campina Grande; Poções, em Monteiro-PB; Caiçara, em Cajazeiras-PB; Castanhão, no Ceará; Oiticica, em Jucurutu-RN; e Armando Ribeiro Gonçalves, no Rio Grande do Norte, entre outros. Por outro lado, ambientalistas alertam para possíveis impactos no ecossistema do Rio São Francisco, como a redução da biodiversidade e a degradação de habitats naturais.
Assim como aconteceu com outras grandes obras brasileiras, a Transposição do São Francisco mostra que projetos de grande dimensão costumam gerar debates, críticas e controvérsias. Com o passar do tempo, porém, seus resultados podem ser avaliados de forma mais equilibrada, considerando tanto os benefícios quanto os impactos provocados.
Independentemente dos problemas apontados pelos ambientalistas, o Rio São Francisco enfrenta, há muitos anos, sérios desafios ambientais, como desmatamento, poluição e os impactos causados pela construção de barragens em seu curso, afetando significativamente seu ecossistema.
Para muitos analistas, a maior preocupação será o período após a conclusão da obra, principalmente quanto à operação do sistema, às manutenções necessárias e aos seus custos. Sabemos das dificuldades do Estado em conservar aquilo que constrói. Por isso, existe o risco de esse empreendimento enfrentar problemas semelhantes aos de outras grandes obras públicas brasileiras.
A história do Rio São Francisco começa muito antes da chegada dos europeus ao Brasil. Os povos indígenas que viviam às suas margens o chamavam de Opará, que significa “rio-mar”, devido à sua grandeza e importância para suas vidas. Em 1501, os navegadores Américo Vespúcio e André Gonçalves chegaram à foz do rio e deram-lhe o nome de São Francisco, em homenagem ao santo celebrado naquele dia.
Durante o período colonial, o Rio São Francisco teve papel importante na expansão territorial e econômica do Brasil. Suas margens serviram como rotas para o gado e para a agricultura, especialmente a cana-de-açúcar. Por isso, ficou conhecido como “Rio dos Currais”, em referência à forte presença da pecuária na região.
O rio nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e percorre o interior do Brasil até desaguar no Oceano Atlântico, entre Alagoas e Sergipe. É o maior rio totalmente brasileiro e atravessa diversos municípios de Minas Gerais, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe.
De forma carinhosa e familiar, o São Francisco é conhecido como “Velho Chico”. Não há um autor específico nem um registro oficial para essa denominação. O apelido surgiu da tradição popular entre ribeirinhos e sertanejos, que passaram a chamar o rio dessa maneira como demonstração de respeito e intimidade. Para muitos, o Velho Chico é como um pai ou avô que fornece água, alimento e sustento, especialmente para às populações que vivem em regiões castigadas pela seca.
E se não existisse o Rio São Francisco, o que seria do Nordeste? Acredito que o Nordeste teria tido um desenvolvimento histórico e econômico muito diferente e, provavelmente, mais difícil. Sem o São Francisco, o semiárido seria ainda mais seco e menos produtivo, haveria menos disponibilidade de água e energia, e o impacto social e cultural seria enorme, provavelmente provocando maior migração e concentração da população nas capitais do litoral.
O Velho Chico é uma das poucas fontes de água perene da região. Sem ele, grandes áreas do sertão dependeriam ainda mais das chuvas irregulares. Usinas hidrelétricas como Sobradinho, Paulo Afonso e Xingó não existiriam, reduzindo a oferta de energia e o potencial industrial do Nordeste.
O rio e seus afluentes também sustentam pescadores, ribeirinhos e comunidades tradicionais. Sem ele, muitas dessas populações talvez tivessem migrado para o litoral ou para outras regiões do país.
Atualmente, o Vale do São Francisco, é uma das regiões mais produtivas do Brasil, especialmente nas áreas irrigadas. É um dos maiores polos de fruticultura irrigada do país, com destaque para Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). Entre as principais frutas produzidas estão uva, manga, melão, melancia, banana, goiaba, mamão, limão e lima. Também se destacam a cana-de-açúcar, o milho, o feijão, o algodão, o tomate e a cebola. Graças ao clima semiárido, à irrigação controlada e ao sol durante praticamente todo o ano, a produção agrícola é contínua, tornando o Vale do São Francisco uma referência em agricultura moderna e exportadora.
Nesse momento, não posso deixar de contar uma pequena história sobre esse grandioso rio. Tudo começou na década de 1960, quando eu viajava de ônibus com meus pais, de João Pessoa para o Rio de Janeiro, para visitar meus avós e tios. Era uma viagem de quatro dias, bastante cansativa, que passava boa parte do percurso pelo sertão baiano, incluindo Paulo Afonso (BA). Ali atravessávamos o Rio São Francisco pela ponte metálica Dom Pedro II, uma impressionante obra de engenharia sobre o cânion do São Francisco, ligando Paulo Afonso (BA) a Delmiro Gouveia (AL).
Em 1967, meu pai teve a coragem de fazer essa viagem dirigindo uma Rural Willys, mas escolheu outro caminho. Em vez de passar por Paulo Afonso, atravessamos o São Francisco de balsa, entre Penedo (AL) e Neópolis (SE). Para mim, foi uma verdadeira aventura. Essa travessia ainda existe e, ao longo do dia, transporta diversos tipos de veículos, de motocicletas a caminhões, além de passageiros a pé. A viagem proporciona uma experiência especial, permitindo apreciar o lendário São Francisco e conhecer Penedo, uma cidade rica em história e patrimônio cultural.
Nos últimos anos, em duas oportunidades, voltei ao Rio São Francisco para conhecer a região do Cânion do Xingó, em Canindé de São Francisco, na divisa entre Alagoas e Sergipe. Hoje, o local é um dos principais pontos turísticos do sertão nordestino. Os passeios de catamarã pelas águas verde-esmeralda revelam um cenário impressionante, formado após a construção da Usina Hidrelétrica de Xingó. O represamento das águas criou um verdadeiro espetáculo da natureza, com grandes paredões de rocha, lagos e belas formações rochosas.
Concluo esta reflexão homenageando o Velho Chico pela sua grandeza e pela importância que exerce no presente e no futuro do nosso país. O São Francisco não é apenas um curso d’água. É fonte de vida, história e esperança para o povo brasileiro. Suas águas alimentam a terra, sustentam comunidades, geram energia e inspiram culturas. A alegria de ser nordestino e ter o Rio São Francisco é algo que vai além das palavras. É carregar a força do Velho Chico e aprender a transformar dificuldades em coragem, lágrimas em sorrisos e a vida em celebração. O Velho Chico corre como uma veia que alimenta o coração do Nordeste, levando água, história e cultura por onde passa. Em suas margens nasceram comunidades, floresceram tradições e permanecem vivas as esperanças de um povo que aprendeu a tirar da terra seca a força para vencer.
Ser nordestino e ter o São Francisco é ter orgulho de um símbolo de resistência e esperança. É lembrar das canções, das poesias, das festas e da fé que ele inspirou. É reconhecer que suas águas carregam histórias de gerações inteiras e que sua presença representa esperança no amanhã.
“Velho Chico, rio da história, de águas que guardam memória. Pelo sertão levas esperança, do nosso povo guardas a herança. Nas tuas margens nasce a canção, da fé, da luta e da devoção. És correnteza que nunca cansa, és força viva, és confiança. Do norte ao sul, no teu caminhar, ensinas o povo a perseverar. Em cada gota, um ensinamento; em cada onda, um sentimento. Rio da vida, rio da união, teu leito é alma, teu nome é chão. São Francisco, luz que consola, és coração que nunca se esgota” (Autor Desconhecido).








