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04 de julho de 2026 • 11 min de leituraToda caminhada começa no primeiro passo

Existe uma sabedoria popular que nos ensina a importância de “dar o primeiro passo”. Essa expressão, tão presente em nosso cotidiano, assume diferentes significados, conforme a intenção e o contexto em que é utilizada. Em comum, ela sempre nos lembra que toda mudança, conquista ou transformação começa com a coragem de iniciar. Existe inclusive uma famosa frase de Martin Luther King: “Apenas dê o primeiro passo”.
No sentido literal é aplicado ao desenvolvimento motor infantil, quando a criança começa a andar. Sendo utilizada nesse sentido, vieram à minha memória os primeiros passos dos meus netos, Lucas e Daniel. Confesso que o tempo suavizou as lembranças dos primeiros passos dos meus filhos, mas os netos têm o dom de reacender emoções que pareciam adormecidas.
Dar os primeiros passos é um desafio gigantesco para a criança, exigindo uma complexa sincronia entre equilíbrio, força muscular e coordenação motora. Tropeços e tombos são totalmente normais e fundamentais para a criança ganhar noção de espaço e entender como o próprio corpo funciona. Ele vai tentar, vai cair, vai levantar, vai ganhar experiência. Ele vai ficar de pé com apoio e aos poucos irá entender o seu equilíbrio e arriscar a soltar as mãozinhas. Podemos portanto afirmar que dar os primeiros passos, andar foi nosso primeiro grande desafio na vida.
Desde os primórdios da humanidade, mover-se era sinônimo de viver. Caçar, colher e explorar faziam parte da jornada diária, lembrando-nos de que o corpo humano nasceu para o movimento. Caminhar, alongar-se, dançar, subir escadas ou praticar um esporte são mais do que atividades físicas. São maneiras de honrar nossa própria natureza. Até mesmo uma breve pausa para levantar-se da cadeira representa um pequeno reencontro com aquilo que somos. O movimento mantém o corpo ativo, fortalece a mente e renova o espírito. Afinal, assim como a vida nunca permanece parada, nós também fomos feitos para seguir em frente, um passo de cada vez. O importante é distância daquilo que o corpo mais precisa: sair da inércia. O famoso “depois eu começo” vai sendo empurrado dia após dia. E quanto mais tempo se passa na inércia, mais difícil parece ser sair dela. Sair da inércia pode parecer difícil no início, mas cada pequeno passo conta. A inércia física é a tendência natural de um corpo manter seu estado de repouso ou de movimento. Na vida, essa lei da física é uma metáfora perfeita para o comportamento humano: a nossa maior resistência sempre ocorre no momento de sair da estaca zero.
O medo de dar o primeiro passo é um dos fatores que sabotam nossos sonhos, tanto os grandes quanto os pequenos. É nesse primeiro passo que se condensam muitos dos nossos medos. Sair do que é habitual causa preocupação e desperta nossas inseguranças adormecidas. É daí que vem o medo de dar o primeiro passo.
Existe uma reflexão atribuída ao dramaturgo grego Sófocles que diz: “Para quem tem medo, tudo é barulho.” Essa frase sintetiza de maneira profunda como o medo e a ansiedade podem transformar a nossa percepção da realidade. Quando a mente está dominada pela insegurança, qualquer ruído, acontecimento ou mudança, por menor que seja, passa a ser interpretado como uma ameaça.
O temor amplia os problemas, antecipa dificuldades e faz com que enxerguemos perigos onde, muitas vezes, eles não existem. O que para alguns é apenas um contratempo, para quem vive tomado pela ansiedade pode parecer um grande risco. Assim, a frase de Sófocles nos convida a refletir sobre a influência das nossas emoções na forma como percebemos o mundo: nem sempre é a realidade que faz barulho, mas os medos que carregamos dentro de nós.
Muitas vezes, esperamos estar prontos para agir: no trabalho, nos relacionamentos ou em mudanças importantes. Mas o primeiro passo não exige perfeição, exige decisão de dar o primeiro passo e coragem de sair da zona de conforto e enfrentar o desconhecido.
Frente ao medo de dar o primeiro passo é comum que nossa primeira estratégia para enfrentá-lo seja postergar ou evitar aquilo que gera essa emoção. Deixamos para a semana que vem, ou para depois do ano novo. Na verdade, ao ser postergado, o medo não diminui, pelo contrário, aumenta.
Posso dizer que, em muitos momentos da minha vida, o ato de dar o primeiro passo foi um dos desafios mais difíceis, justamente porque todo começo exige coragem, incerteza e superação do próprio medo. Lembro que, em toda a minha vida profissional na Petrobras, a decisão mais difícil que tomei foi aceitar o convite para assumir a Gerência de Manutenção do Polo Industrial de Guamaré. Foram quinze dias de reflexão, dúvidas e ponderações, pois algumas escolhas têm o poder de mudar completamente o rumo da nossa caminhada. Naquele momento, os conselhos do meu gerente, Ricardo Albuquerque, foram fundamentais. Suas palavras me ajudaram a enxergar além dos receios e me deram a coragem necessária para dar esse importante passo na vida profissional.
Hoje, olhando para trás, percebo que as decisões que mais nos desafiam costumam ser as que mais nos transformam. Aquele “sim”, que demorou quinze dias para ser dado, tornou-se uma experiência de quinze anos e cinco meses de atuação gerencial, repleta de aprendizados, responsabilidades e crescimento.
A vida nos ensina que grandes oportunidades muitas vezes chegam acompanhadas de medo e incerteza. Mas, quando aliamos reflexão, bons conselhos e coragem, descobrimos que alguns passos difíceis acabam se tornando os mais importantes da nossa história.
Na verdade a vida é feita de decisões. Algumas são pouco significativas, coisas do nosso cotidiano; outras são muito importantes e suas consequências nos acompanham por toda a vida. Ao longo dos anos, você percebe que não tem escolha e deve enfrentar as situações adversas como elas se apresentam. Por essa razão, é muito importante dar o primeiro passo em qualquer situação. Para dar o primeiro passo é melhor não pensar muito e agir rapidamente. Lembre-se de que “Quem não arrisca, não petisca”.
Sabemos que não é bem assim pois toda escolha envolve riscos, isso é fato. Mas pra você chegar a algum lugar, vai ter que dar um primeiro passo, e isso inclui se arriscar também. Não é porque algo é difícil e envolve riscos que vamos deixar de correr atrás dos nossos sonhos. Pode parecer meio óbvio o que vou dizer agora, mas antes de dar o primeiro passo é preciso saber onde se quer chegar. Quando se tem um objetivo bem definido, além de ser mais fácil saber em que direção seguir, também é possível ter alguma ideia de por onde começar. Apenas temos que tomar cuidado nas decisão por impulso, para depois não nos arrependermos. Essas decisões acabam se tornando verdadeiros fantasmas que nos assombram durante muito tempo. Por isso, planejar seja o primeiro passo, certamente de muitos, para conseguirmos chegar onde desejamos. Sabemos que nem sempre é fácil, também não dá para querer achar que tudo correrá conforme planejado, lembremos que o mundo é volátil, incerto, complexo e ambíguo. Planejar envolve pensar no mínimo a curto e médio prazo, estabelecer um ponto de partida e “desembarque”, além de encontrar meios para poder registrar e acompanhar isso de alguma forma. Mas se percebermos que um ponto do plano não estava adequado ao contexto, lembremos que replanejar faz parte. A vida por si só é um eterno replanejar, precisamos nos acostumar com isso.
Bem, gosto sempre de encontrar reflexões nas músicas, sobretudo quando elas trazem a sabedoria simples e profunda do povo. Nesse tema do ‘dar o primeiro passo’, encontrei em uma canção de forró a inspiração que me faltava para seguir pensando sobre o tema.
Importante ressaltar, que foi por causa da minha metade nordestina, que faz do forró uma das minhas maiores paixões. Gosto de ouvi-lo como quem escuta memória antiga, de cantá-lo como quem conversa com o tempo, de dançá-lo como quem celebra a vida e, às vezes, me permito até arriscar alguns acordes, só para sentir de perto sua alma.
Dentro desse universo que pulsa em sanfona e poesia, há uma música do compositor pernambucano Accioly Neto, eternizada na voz de Flávio José, chamada “A Natureza das Coisas”. É uma canção que nasce simples, mas cresce em profundidade; que fala baixo, mas ecoa longe. Uma filosofia vestida de música, lembrando que a vida, em sua essência, tem um compasso próprio, sereno, inevitável e cheio de sentidos escondidos
A primeira vez que ouvi essa música, ela me causou forte impacto, trazendo uma sensação de conforto extraordinária. A canção começa com uma mensagem simples e profunda: “Não se avexe não, que amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada”. Em seguida, no verso “a lagarta rasteja até o dia em que cria asas, reforça essa sabedoria ao lembrar que até a lagarta, em sua lenta travessia, chega o momento em que cria asas e se transforma. Nesses versos, o compositor transmite justamente essa ideia de paciência diante da vida, mostrando que todo processo de transformação exige tempo, mesmo quando não percebemos.
No refrão, ‘Se avexe não, a burrinha da felicidade nunca se atrasa, amanhã ela para na porta da tua casa’, o conselho ganha tom de aconchego e esperança. Tudo tem seu tempo, e a felicidade, ainda que pareça tardar, sempre encontra o caminho até nós.
Logo após esse refrão, destaco a criatividade e a sensibilidade do compositor Accioly Neto por conseguir inserir, em uma letra de música, a palavra “inexoravelmente”. Na canção, ele diz: “Se avexe não, toda caminhada começa no primeiro passo, a natureza não tem pressa, segue seu compasso, inexoravelmente chega lá”. Literalmente, a locomoção exige o primeiro passo para quebrar a inércia. Significa que grandes conquistas exigem um começo e paciência. Em resumo, tudo acontece no tempo certo, independentemente da ansiedade.
No último verso o compositor destacou o valor do esforço e da igualdade, como em “Observe quem vai subindo a ladeira, seja princesa ou seja lavadeira, pra ir mais alto, vai ter que suar”. Ao afirmar que tanto “princesa” quanto “lavadeira” precisam “suar” para subir a ladeira, a música também aborda igualdade e esforço, mostrando que todos enfrentam desafios e que o crescimento é resultado de persistência.
Concluí dizendo que “coisa boa é namorar”, porque a felicidade também mora nos pequenos momentos. Enquanto esperamos pelos sonhos do amanhã, vale a pena aproveitar as alegrias de hoje.
Alguns séculos atrás, o filósofo chinês Lao-Tsé (também conhecido como Laozi ou Lao Tzu, cujo nome significa “Velho Mestre”) deixou o seguinte provérbio: “Uma viagem de mil milhas começa com o primeiro passo”. Essa frase ressalta a importância de iniciar, mesmo quando os objetivos parecem imensos ou inalcançáveis. Ela nos lembra que toda grande conquista nasce de uma pequena ação inicial e que o movimento, por menor que seja, é sempre o começo de qualquer realização.
Pois bem, hoje acordei sem pressa e sussurrei para mim: ‘se avexe não’. É apenas mais um dia, com suas possibilidades e silêncios. O amanhã é incerto, pode trazer tudo, ou talvez nada.
Portanto, vivamos intensamente, mas sem pressa de chegar aonde queremos. Não precisamos tentar voar como se já fôssemos borboletas, pois ela também foi lagarta antes de ganhar asas. Sigamos no nosso tempo, com paciência e firmeza, percorrendo o caminho que se apresenta, sem esquecer que “toda caminhada começa com o primeiro passo” e que para alcançar grandes alturas é preciso esforço e dedicação, independentemente de quem sejamos.








