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09 de agosto de 2026 • 11 min de leituraÉ mais fácil colocar a culpa nos outros

Desde o início da humanidade, o ser humano revela uma enorme dificuldade em reconhecer as próprias culpas. Com frequência, prefere terceirizá-las a se colocar humildemente diante dos próprios erros.
Como observou o dramaturgo, poeta e romancista italiano Luigi Pirandello, é próprio da natureza humana, lamentavelmente, sentir a necessidade de culpar os outros pelos nossos desastres e pelas nossas desventuras.
A culpa, como uma consequência de nossas ações ou omissões, tem sido objeto de reflexão e estudo de filósofos e antropólogos ao longo da história.
Lembrando o capítulo 3, versículos 1 a 24, do Livro do Gênesis, que narra os momentos maravilhosos que o homem e a mulher desfrutaram ao conviver com Deus no Jardim do Éden, infelizmente, essa convivência não durou muito tempo. Satanás entrou no jardim em forma de serpente para enganá-los. Dirigiu-se à mulher para tentá-la a comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, a única cujo fruto Deus havia ordenado que não comessem. Se o comessem, morreriam. Porém, a serpente mentiu à mulher e a convenceu a comê-lo. Para piorar ainda mais a situação, ela também deu o fruto ao seu marido, Adão, que estava com ela. Assim que perceberam o que haviam feito, Adão e sua mulher sentiram vergonha. Pegaram folhas de figueira para se cobrir, pois perceberam que estavam nus. Mais tarde, quando Deus foi passear pelo Jardim do Éden, sentiram medo e tentaram esconder-se do Senhor. Mas ninguém pode esconder-se de Deus nem ocultar o seu pecado aos olhos do Senhor. Então Deus perguntou a Adão por que ele havia desobedecido. O homem não apresentou uma boa justificativa: culpou a própria mulher. Em seguida, quando Deus perguntou à mulher por que havia desobedecido, ela, por sua vez, culpou a serpente.
Em resumo: Adão põe a culpa em Eva, enquanto Eva a põe na serpente. Assim somos nós quando não queremos assumir os nossos erros. Em vez de batermos no peito e dizer: “Por minha culpa, por minha culpa, por minha tão grande culpa”, insistimos em afirmar que a culpa é sempre do outro.
Essa passagem bíblica reforça a frase de Ana Paula Amaral (bacharel em Administração de Empresas): “É mais fácil colocar a culpa nos outros do que assumir os próprios erros.”
A primeira civilização a fazer referência ao conceito de culpa foi a grega. Quando alguém cometia um erro que resultava em uma consequência desastrosa ou trágica, esse erro era denominado hamartia, termo que designa uma falha ou equívoco que conduz à tragédia. Em todas correntes religiosas, a culpa é frequentemente associada à transgressão de princípios divinos.
O sentimento de culpa foi analisado com profundidade por Freud. Em primeiro lugar, sabe-se que o ser humano possui uma consciência moral capaz de experimentar o sentimento de culpa de maneira complexa e simbólica. Não apenas quando comete um delito ou um crime, mas também por carregar, muitas vezes, uma culpa que não está diretamente ligada a um ato específico, mas à própria existência. É como se, em determinados momentos, sentisse dificuldade em aceitar plenamente aquilo que é.
Freud distingue três formas de culpa: a culpa consciente, que o indivíduo reconhece e pode negar ou afirmar; a culpa inconsciente, relacionada ao complexo de Édipo e que permanece reprimida; e o sentimento inconsciente de culpa, que se manifesta de forma silenciosa e pode estar associado a conflitos internos profundos.
O ser humano tende, muitas vezes, a transferir a culpa para outras pessoas ou para fatores externos, buscando justificar comportamentos, atitudes ou resultados que não foram satisfatórios.
A dificuldade em assumir os próprios erros existe porque encontrar culpados tornou-se um hábito humano. Quando sofremos, procuramos alguém responsável por esse sofrimento; quando algo não dá certo, frequentemente acreditamos que alguém conspirou contra nós.
Nós, seres humanos, viemos ao mundo equipados com mecanismos naturais de defesa, como uma espécie de imunidade inata. A transferência da responsabilidade pela culpa também pode funcionar como um mecanismo de defesa, mas nem sempre devemos utilizá-lo. Colocar a culpa em terceiros proporciona uma sensação momentânea de alívio, porém impede o amadurecimento e a responsabilidade pessoal.
Embora muitas vezes não percebamos, o cérebro humano tende a procurar alguém ou algo para atribuir a responsabilidade pelo que acontece em nossa vida, seja um acontecimento de grande ou pequena importância. Se alguém falha em um exame, pode culpar o professor, acreditando que ele foi injusto. Se uma pessoa caminha por uma avenida, tropeça em uma pedra e cai, pode, após sentir constrangimento, responsabilizar a prefeitura pela falta de manutenção da calçada. A busca por um bode expiatório é, portanto, um comportamento frequente e quase instintivo. Assumir os próprios erros, ao contrário, exige humildade, autoconhecimento e coragem para reconhecer a própria responsabilidade diante da vida.
“É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, já dizia Raul Seixas na sua música Por quem os sinos dobram: “Nunca se vence uma guerra lutando sozinho. Você sabe que a gente precisa entrar em contato. Com toda essa força contida é que vive guardada. O eco de suas palavras não repercutem em nada. É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”. No contexto da letra, Raul Seixas canta sobre a ineficácia de tentar vencer desafios isoladamente, destacando a necessidade de buscar aliados e de se conectar com os outros. A canção critica a tendência humana de atribuir a culpa aos outros para evitar a autocrítica e a ação.
No mundo corporativo não é diferente. Culpamos a concorrência por não atingirmos as metas. Culpamos os colegas por não colaborarem. Culpamos o chefe, o chefe do chefe. Culpamos o sistema da empresa, que muitas vezes dizemos não funcionar. Culpamos as políticas internas, a cultura organizacional e até os clientes.
Nossa sociedade aprendeu a procurar culpados. Parece necessário apontar de quem é a responsabilidade. Entretanto, ainda é incipiente a discussão sobre os aprendizados que podem surgir dos erros cometidos. Preocupamo-nos muito mais em encontrar um culpado do que em compreender as lições que as situações difíceis podem nos oferecer. Mas e se, em vez de discutirmos apenas de quem é a culpa, passássemos a refletir sobre os aprendizados e a evolução que esses momentos podem nos proporcionar?
Geralmente, culpar os outros é um comportamento comum nas crianças. Isso ocorre porque seu desenvolvimento cognitivo e moral ainda está em formação, dificultando a compreensão da importância de assumir responsabilidade por suas ações. Por isso, muitas vezes elas tentam evitar a punição quando percebem que fizeram algo que não deveriam. Infelizmente, alguns adultos continuam reproduzindo esse comportamento em diferentes situações da vida.
Casamento e diferenças são como massa e molho: muitas vezes caminham juntos. As divergências podem contribuir para o crescimento do casal e fortalecer o relacionamento, desde que sejam conduzidas com respeito, diálogo e maturidade. Porém, muitas vezes, tendemos a responsabilizar nosso cônjuge por todos os infortúnios. Se os filhos apresentam dificuldades de comportamento, a culpa é atribuída ao outro. Se o dia não foi bom, novamente procuramos um responsável. Essas transferências constantes de responsabilidade podem se tornar prejudiciais ao relacionamento. Além disso, quando colocamos no outro a responsabilidade pela nossa felicidade, acabamos criando uma dependência que pode transformar o relacionamento em uma relação de cobrança e desgaste.
Relacionamentos saudáveis são construídos com comunicação aberta, respeito mútuo e responsabilidade compartilhada. Se uma pessoa é constantemente culpada pelos erros, responsabilizada por todos os conflitos e sente que sempre precisa pedir perdão, isso pode indicar um desequilíbrio na relação. O caminho mais saudável é reconhecer a própria parcela de responsabilidade e buscar, juntos, soluções para os desafios.
Algum tempo atrás, em um programa Globo Rural, falando das queimadas amazônicas, houve um foco expressivo no Mato Grosso e nos produtores de grãos e suas perdas. Foi perguntado aos produtores como o fogo chegou, a cada depoimento, ouvíamos: “Ah, veio do vizinho. Algum descuido por lá”. Fiquei um pouco confuso, mas serviu-me para resgatar a história dos outros sempre culpados e daqueles que não têm umbigos. Faz-me parecer só termos olhos para os próprios umbigos. “Nós aqui somos ótimos, quem ferra tudo são eles lá.”
“Errar é humano, culpar outra pessoa é política.” A frase é de Hubert H. Humphrey, vice-presidente dos Estados Unidos na década de 60. Se a culpa é sempre da política, a culpa também será de todo e qualquer governo antes, durante e depois do mandato. Aliás, tudo vai de mal a pior por culpa da “política” e do “jeitinho político”. Isso é se isentar do seu papel de cidadão em um país democrático, onde democracia significa “governo do povo”. Dizem alguns: “Se existe deputado/a, senador/a, governador/a, presidente, prefeito/a que são incompetentes, desonestos, ladrões do dinheiro do povo foram todos/as escolhidos de forma “soberana” pelo voto direto e secreto do povo”.
Se o povo é soberano, afinal, todo poder emana do povo em uma democracia, o exercício dessa soberania popular não deve ser substituído por favores, sacolões, benefícios oferecidos em troca de apoio, tapinhas nas costas, promessas de emprego, pequenas vantagens ou mesmo por discursos belos e inflamados. A cidadania exige consciência, participação e responsabilidade nas escolhas daqueles que irão representar a sociedade.
Será que faz o menor sentido culpar Portugal pelas nossas mazelas do presente, se o país não controla a política brasileira desde 1822? Aquilo que fizemos para que o Brasil se tornasse o que é hoje é resultado das nossas escolhas e da responsabilidade de nossa sociedade ao longo da história, assim como das gerações que nos antecederam. Não é coerente atribuir aos portugueses ou à Igreja Católica a responsabilidade por todos os nossos infortúnios. Afirmar que ambos continuam sendo responsáveis pelos problemas atuais é, mais uma vez, transferir a terceiros uma responsabilidade que também nos pertence. Afinal, o hábito faz o monge.
Conhecer a nossa história política, bem como as ideias, ideologias e os personagens centrais da cadeia de comando, é uma das maneiras mais adequadas de identificar e reconhecer os erros, para que possamos reformar aquilo que precisa ser reformado e eliminar o que deve ser eliminado.
A estratégia de culpar os outros para evitar assumir responsabilidades pelas consequências dos próprios erros nunca é uma boa escolha. No final, isso apenas conduz a relações superficiais e impede o verdadeiro crescimento pessoal.
Ao culpar terceiros ou circunstâncias externas, o indivíduo deixa de reconhecer aquilo que pode ser aprimorado em si mesmo. Deixa de olhar para dentro de si e de perceber suas próprias limitações e dificuldades. Culpar os outros pelos próprios erros, sofrimentos e carências acaba causando prejuízos significativos a si mesmo e aos relacionamentos que constrói.
É mais fácil culpar a Deus ou aos outros por nossas ações do que assumir a responsabilidade por nós mesmos. Encontrar um culpado é fácil; o desafio é reconhecer quem realmente tem responsabilidade.
Somos responsáveis pelas escolhas que fazemos e pelos caminhos que decidimos seguir. Muitas vezes, são essas escolhas que nos conduzem para o bem ou para o mal, assim como na narrativa de Adão e Eva, quando o ser humano tenta transferir a responsabilidade por seus atos. Quem insiste em culpar os outros tende a reforçar para si mesmo e para aqueles ao seu redor a ideia de que não tem controle sobre a própria vida e, consequentemente, dificulta a busca pela felicidade.
É importante lembrar que ninguém nasce com um sentimento de culpa pronto. Ele é construído ao longo da vida, a partir das relações sociais, da educação e das experiências com outras pessoas e com os seres vivos. Também está relacionado ao desejo humano de agir corretamente e alcançar a perfeição.
Culpar os outros constantemente nos impede de crescer como seres humanos. Somos responsáveis pela forma como conduzimos a nossa vida hoje. Cada escolha e cada atitude contribuíram para nos trazer até o ponto em que estamos.
“Assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas é um dos caminhos para o crescimento. Culpar os outros apenas nos impede de evoluir.” (Diego Sukuri)








