
De vez em quando vejo nos para-choques ou no vidro traseiro dos carros a frase, “Deus é fiel e justo”. E sempre me questiono se realmente quem divulga essa frase procura viver essa fidelidade e justiça. Deus queira que sim.
Sendo específico a palavra justo, sabemos que a justiça é uma qualidade fundamental da natureza Divina. A justiça de Deus está ligada à sua bondade e misericórdia (Salmos 116:5). Quem ama a Deus ama também a justiça, porque toda a justiça vem de Deus. A Justiça de Deus é reta e cheia de misericórdia. Ele reprova e condena a injustiça porque esta causa destruição e morte.
Acreditamos que a maioria das pessoas possuem algum senso de justiça. Todavia, sabemos de como é difícil ser justo nesse mundo de Deus. Mesmo tendo esta consciência de estar num mundo de injustiças e mesmo não sendo muito justos, reclamamos quando há falta de justiça.
Quantas vezes somos vítimas de injustiça, além de causar tristeza, é revoltante, mas a justiça dos homens nem sempre é justa. Infelizmente a justiça dos homens está carregada de injustiça.
A história da humanidade é repleta de momentos que evocam grandeza e progresso, mas também é marcada por tragédias e injustiças que abalaram o mundo. Algumas dessas injustiças ainda reverberam, causando impacto social, político e econômico nas gerações atuais.
Sócrates foi julgado em 399 a.C. Ele foi acusado de “desviar” a juventude. Sócrates disseminava ideias que incomodavam os poderosos de Atenas. Na sessão, adotou uma postura arrogante, desafiando os jurados. Acabou condenado a beber cicuta, um poderoso veneno. Pouco antes da execução, teve a oportunidade de fugir, mas preferiu cumprir a pena. Entendeu que a injustiça de seu julgamento e de sua pena reforçavam a sua causa.
Jesus, que pregava o amor, foi julgado duas vezes. Primeiro, pelo sinédrio, o tribunal judeu, onde foi acusado de blasfêmia. Mas os judeus não tinham, na Palestina, o poder de impor pena de morte. Em seguida, Jesus foi julgado pelos romanos. Seus seguidores haviam causado confusão, talvez fosse uma ameaça ao sistema. Num julgamento sumário, sem chance de defesa, foi, ao fim, crucificado.
Martinho Lutero, em 1517, denunciou os exageros da Igreja. Iniciou um movimento de protesto, mas, principalmente, de afirmação do livre arbítrio. Foi levado a julgamento em Worms, quando lhe foi oferecida a oportunidade de se arrepender de suas críticas. Lutero, corajosamente, preferiu manter-se firme aos seus propósitos e convicções. Foi obrigado a fugir e a viver escondido por anos. Plantou a semente do espírito crítico.
O Holocausto, é uma das maiores tragédias da história humana, ocorrido durante a Segunda Guerra Mundial, que perseguiu e exterminou cerca de seis milhões de judeus e outras minorias, como ciganos, homossexuais e deficientes. Essa injustiça gerou consequências que impactam até hoje.
Na obra “Ética a Nicômaco”, o grego Aristóteles fala da justiça e injustiça. Segundo o filósofo, justo é o homem que cumpre e respeita a lei e injusto é o homem “sem lei” e ímprobo. Diante disso, surge o conceito de injustiça, que é o oposto da justiça, isto é, o estado em que a justiça está ausente, que viola os direitos das pessoas e que privilegia alguns em detrimento de outros (sem uma justificativa plausível para isso).
Mas, podemos afirmar que mundo realmente é um lugar totalmente injusto? Quando escutamos ou lemos nos noticiários as catástrofes que acontecem no mundo, podemos afirmar que é uma ação Divina para castigar o homem? Vamos raciocinar com calma. Quem provoca desmatamento, queimadas? Quem polui o ar com monóxido de carbono e outros contaminantes? Quem fica brincando com produtos radioativos ou fazendo bombas atômicas? Quem polui os oceanos com derramamento de petróleo ou com materiais plásticos? Os rios com agrotóxicos, com mercúrio e similares? Quem é culpado pela ganância humana que quer o poder e termina provocando guerras? Quem é culpado pela fome na face da terra mas se gasta bilhões de dólares na fabricação de armas e construção de foguetes para tentar ir a outros planetas? Quem é culpado pela ocupação das margens dos rios? Quem é culpado pela construção em encostas de morros? Quem é culpado pela imprudência nas estradas e nas cidades? Quem é culpado pela produção de drogas, venda e consumo? A lista é grande. O problema é que Deus no deu livre arbítrio. Devemos lembrar do Paraíso do Livro do Gênesis. Depois a culpa é dele. Caíamos na real.
O filósofo Allan Kardec (1804-1869) explica que as desigualdades sociais não são obra do acaso e nem de Deus. Elas foram criadas pelos homens. Ainda assim, há quem afirme que é fruto da ambição desmedida e do egoísmo daqueles que querem, para si, toda a riqueza e poder.
Falar de desigualdades significa falar de injustiça, pelo menos numa das suas expressões, que é a impossibilidade de determinadas pessoas terem acesso a determinados recursos. Falamos não só de recursos económicos, mas também de recursos políticos, culturais, ambientais, etc.
As situações não faltam. No nosso cotidiano às vezes ficamos “revoltados” com alguns fartos que acontecem conosco. Isto me fez lembrar de uma frase dita por Tancredo Neves, eleito presidente do Brasil, que não chegou a assumir o mais alto cargo da nação, pois foi vitimado por uma insidiosa doença. Ao perceber que não chegaria a ocupar o ambicionado posto e em plena agonia, exclamou: “Eu não merecia isto!”.
Na nossa vida estudantil: "Professor, é uma verdadeira INJUSTIÇA, o senhor me reprovar por faltas, só por que não vim...".
Muitas famílias se revoltam quando um filho que se desviou do caminho, perdendo-se nos labirintos do crime, das drogas, ou morrendo prematuramente. O primeiro questionamento: “O que é que eu fiz para merecer isto?” Imaginemos o pensamento de uma pessoa no estado terminal: Porque eu?
Quem nunca passou por um momento em que fez tudo certo, seguiu todos os passos, mas não obteve o resultado esperado? Ou então, viu alguém que parecia estar “errado” ou agindo de maneira injusta ser recompensado de alguma forma?
Infelizmente, quase todos nós, em algum momento, sentimos este gosto amargo que é ser injustiçado por alguém ou em alguma situação.
Existe uma diferença muito grande entre entender que existem situações injustas e acreditar que a vida inteira é uma grande injustiça.
No ambiente de trabalho é um local onde acontecem injustiças, porém não é porque um chefe foi injusto com você em uma empresa que todos os chefes que você terá ao longo da carreira serão injustos com a sua conduta profissional.
Na verdade vivemos em um mundo mergulhado em trevas. Por isso, precisamos nos manter sempre próximos de Deus, para ter uma percepção clara daquilo que é certo aos olhos dEle.
Na prática, ser justo significa atender às exigências que Deus faz. Neste sentido, não há nenhuma pessoa completamente justa além de Deus.
O apóstolo Paulo mostra os parâmetros que envolvem o sentido da justiça na bíblia, quando ele diz: “Nele se revela a justiça de Deus, que vem pela fé e conduz à fé, como está escrito: ‘O justo viverá pela fé’” (Rm 1,17). Isso significa que a justiça está em sintonia com a vontade de Deus e na realização autêntica dos atos do ser humano na relação com as pessoas e com toda a natureza.
Todavia, as leis humanas são promulgadas para fazer acontecer, na prática, o cumprimento da justiça entre as pessoas. Os fariseus e doutores da lei quiseram incriminar Jesus dizendo que Ele não observava as leis de seu tempo. Ele era inclusive colocado à prova porque não poderia ser contra as leis. Mas para Jesus, a pessoa humana está acima da lei, principalmente quando o seu cumprimento ocasiona injustiça.
Importante ressaltar que justiça e injustiça são termos em sua definição abstratos e que dependem de perspectiva e, com isso, algumas situações que para uns são consideradas injustas, para outros não são.
Quando pensamos em justiça, logo nos vem à mente o castigo e a punição merecidos por algo que se fez de errado. Sabemos que a justiça humana é falha, parcial, corrompível e muitas vezes oportunista. Isto é, segundo a nossa "justiça", o outro merece sempre ser punido e pagar as consequências dos seus erros. Mas, se somos nós os culpados, buscamos parcialidade ou uma brecha para nos inocentar.
Em outras palavras podemos dizer que a justiça é sempre mais rigorosa quando a requeremos em nosso favor. Quando somos injustiçados exigimos a punição e o castigo alheio, mas não o contrário. Buscamos a nossa justiça própria, quando queremos ser favorecidos, mas a esquecemos quando ela nos acusa. Tem uma frase que diz: A justiça é o que nos favorece; a injustiça, é o que nos contraria.
Esse frase me faz lembrar de um ex-deputado federal chamado Daniel Silveira que votou em 2022 favor da proposta de um projeto de lei para acabar com a possibilidade de saídas temporárias nos feriados para visitar familiares. Como agora ele está de tornozeleira eletrônica e preso em regime semiaberto, a poucos dias pediu ao STF (Supremo Tribunal Federal) o direito à saída temporária para visitar a família no feriado da Páscoa.
O escritor e político inglês Daniel Defoe, escreveu: “A justiça sempre parece violenta a quem a recebe, pois cada pessoa é, aos seus próprios olhos, inocente”,
O profeta Isaias em 59:4 no diz: “Ninguém pleiteia sua causa com justiça, ninguém faz defesa com integridade. Apoiam-se em argumentos vazios e falam mentiras; concebem maldade e geram iniquidade”. Em outras palavras: “Não é para procurar a justiça que vão ao tribunal, e ninguém diz a verdade ao juiz. Todos confiam em mentiras e falsidades; inventam maldades e praticam crimes”.
Para entender por que precisamos da Justiça, se faz necessário imaginar um mundo perfeito, onde as pessoas, por meio da caridade, do amor, da igualdade e de outras coisas boas, conseguissem resolver os seus problemas e as suas diferenças. Um lugar onde todos os tipos de problemas existentes entre os indivíduos fossem resolvidos por esses próprios indivíduos, sem a necessidade da interferência de uma terceira pessoa. Infelizmente este é um mundo utópico.
A principal função da justiça, hoje em dia, é garantir que todos os cidadãos sejam tratados de forma igual e justa, sem discriminação ou favoritismo, tendo seus direitos respeitados. Mas segundo o estadista grego Sólon (638 a.C.–558 a.C.): “As leis são como as teias de aranha que apanham os pequenos insetos e são rasgadas pelos grandes”.
Existem muitas pessoas injustas no mundo, mas nós não devemos presumir que todas as pessoas sejam. É importante dar um voto de confiança aos novos indivíduos que chegam às nossas vidas. Muitos deles têm um senso de justiça apurado e certamente vão reconhecer os nossos méritos. Quando não somos justos com nós mesmos e com os outros passamos a julgar aquilo que não nos acomete. Ao passo que, quando paramos para refletir de forma justa sobre as nossas ações, passamos a olhar para a nossa vida de outra maneira, de modo que as escolhas se tornam mais coerentes.
Tem pessoas que acham que são os donos da verdade. No entanto, Deus não nos colocou no mundo para que sejamos juízes. Destacarmos que a própria Bíblia já nos diz: não julgueis para que não sejais julgado, pois à medida em que você julgar, será julgado na mesma proporção. E, ainda, diz que: antes de julgar “tire o cisco de seu próprio olho”.
Importante que busquemos sempre levar uma vida em justiça, isto é, correspondendo ao que Deus espera de todos nós. O que não podemos justificar determinados erros instrumentalizando a aplicação das leis, fazendo injustiça.
As repetidas práticas de injustiça acabam chegando a um final desconcertante. Como diz o ditado: “Mais cedo ou mais tarde a casa cai”. Significa que a injustiça não se justifica e não tem estabilidade.
Relembrar uma grande injustiça, com rancor no coração, é revivê-la. Lembre-se do que Platão já dizia: Quem comete uma injustiça é mais infeliz que o injustiçado.
Os julgamentos injustos jamais acabam, não têm fim. Seguem ecoando em nossas consciências.