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05 de dezembro de 2024 • 11 min de leituraMáscaras invisíveis

Não posso dizer que sou fascinado por publicidade e marketing, mas gosto de parabenizar a criatividade de vários profissionais do ramo, principalmente quando usada de forma humorística. Um dos slogans que tem cadeira cativa na memória de muitos brasileiros, e na minha também, foi criado no final dos anos 1970. Estamos falando do famoso slogan “Bombril tem 1001 utilidades”. O slogan transformou a marca em sinônimo de esponja de aço. Para completar o sucesso, a marca começou a ganhar enorme visibilidade pelas atuações do famoso garoto-propaganda ator Carlos Moreno, sendo denominado do Garoto Bombril. Se realmente o Bombril tem 1001 utilidade, não sei, pois nunca foi provado mas a lista é grande de utilização.
Assim como o famoso “Bombril tem 1001 utilidades”, diversos produtos também tem várias utilidades. Podemos citar por exemplo as “Máscaras”. Nesse caso temos que dividir em máscaras físicas e máscaras invisíveis da vida real, do cotidiano.
As máscaras estão no convívio do ser humano, de acordo com alguns estudos, desde o ano 9000 ac, sob as mais diversas formas, de diferentes materiais e com intuitos distintos, e por algum motivo, nos acompanham desde então.
No mundo ocidental os antigos gregos foram pioneiros no uso das máscaras teatrais durante as festividades de Dionísio, deus do vinho e da fertilidade. Nessas ocasiões, todos dançavam, cantavam, se embriagavam e realizavam orgias, evocando a presença do deus através do emprego da máscara. Também na Grécia, eram utilizadas nas suas cerimônias religiosas e era comum os atores se utilizarem de máscaras para interpretar seus personagens.
Na necessidade do homem de se embelezar e de se transformar, surge em Veneza na Itália, no século XV, o primeiro baile de máscaras, “Ball Masquê”, onde o uso da máscara também se fazia necessário devido aos constantes conflitos políticos. Os Cortesãos mascarados faziam brincadeiras, confiantes no anonimato, extravasando todos os seus impulsos reprimidos, libertando-os das normas sociais. Todavia, em Veneza, no século XVIII, as máscaras transformaram-se em itens de consumo cotidiano por todos os seus habitantes, velando apenas o nariz e os olhos. Logo foram proibidas, pois dificultava a ação da polícia na identificação de criminosos, muito comuns nesta cidade naquela época.
Na China, as máscaras eram utilizadas para afugentar os maus espíritos, enquanto que no Antigo Egito, as máscaras eram colocadas no rosto do falecido de modo a orientá-lo na passagem para a vida eterna.
As máscaras sempre fizeram parte da cultura africana, e imaginamos que elas fossem vistas como objetos místicos. Sua função era a de disfarçar a pessoa que usa, para que ela pudesse entrar em contato com os espíritos, absorver sua força, e usar em benefício da comunidade. Assim, as máscaras podiam ser vistas em todos os tipos de ritual: da cura ao casamento, da iniciação aos funerais.
Na América do Sul, sabemos que muitos povos indígenas usavam máscaras em suas cerimônias, que simbolizavam animais, pássaros e insetos.
Ao longo dos séculos houve sempre a necessidade que o ser humano protege-se as vias respiratórias, por meio de uma barreira física. Essa necessidade levou o homem a criar diferentes tipos de máscaras de proteção, com características diferentes, para atender às necessidades específicas de diferentes atividades e ambientes, seja para utilização em hospitais, laboratórios, industrias, construção civil, agricultura, gastronomia, etc.
Apesar de muita gente não querer usar, durante a pandemia foi bastante utilizado as máscaras de tecido, também conhecidas como máscaras de pano.
Mas nem só para proteção servem as máscaras. Temos também as máscaras tipicamente usadas em bailes, festas e outros eventos. Alguns usam máscaras para esconderem da própria face e permitir diminuir as repressões sociais e assumir os mais diversos personagens e fantasias, de modo a se livrarem daquilo que consideram amarras sociais, éticas e até religiosas.
Não podemos esquecer das máscaras que são utilizadas pelos bandidos como disfarce, para que não sejam reconhecidos ao cometerem seus delitos.
Bem, assim como “Bombril”, temos máscaras que podem ser utilizadas em várias situações da vida, ou melhor de todos os tipos e gosto. Todavia algumas máscaras temos que evitar. São as chamadas máscaras invisíveis da vida real.
Diferentemente do teatro, no palco da vida nossas máscaras são invisíveis, mas facilmente percebidas por aqueles que possuem olhos para ver. Quando falo de máscaras invisíveis, me refiro as que usamos para nos proteger, disfarçar, coagir, amedrontar e tantas outras utilidades. Essas máscaras podem ser apresentadas de diversas formas, seja por uma postura que adotamos habitualmente, a forma em que nos limitamos a comunicar ou até mesmo um sorriso sem motivo para tentar causar alguma boa impressão.
Poderíamos dizer que temos em nosso armário várias máscaras guardadas e em todo momento corremos o risco de recorrermos a estas, de acordo os locais que frequentamos, as pessoas com quem conversamos
No futebol, o jogador considerado mascarado é aquele que “se acha”. Quando se ouve dizer de alguém que “a máscara caiu”, sabemos que suas falsidades foram descobertas e suas reais intenções reveladas.
Tem pessoas que se escondem atrás da máscara de interesseira. Nunca terá ou fará amigos, apenas aliados, mas, quando seus interesses forem supridos e ela perceber que a pessoa não é mais útil, irá dispensá-la, porque ela apenas usa as pessoas.
Temos a máscara da mentira. Uma pessoa que usa a máscara da mentira é a mais perigosa de todas, porque a mentira não possui limites, ela é a chave que abre as portas para os outros tipos de males citados acima. Podemos ter ainda a máscara da inveja. O indivíduo que usa a máscara do invejoso vive na escuridão e deseja a qualquer custo a luz do próximo. Se não puder ter para si, ele prefere apagar, mesmo que essa luz seja de um membro de sua família ou de seu melhor amigo.
A máscara da timidez esconde, na verdade, a busca por uma eterna punição por alguma culpa a qual se atribuem, em grande parte dos casos, injustamente. Como por exemplo, pessoas que passam por perdas significativas dos pais ou que são abandonados por eles tendem a crescer com o sentimento de que não merecem ser amados.
Uma máscara comum a quem sente que, de alguma forma, foi injustiçado pela vida e que passa a acreditar que seu dever é buscar pela justiça é a máscara da injustiça. Pessoas que se encaixam nesse perfil costumam ser solitárias e infelizes. Passar por uma grande dor pode fazer com que uma pessoa se torne alimentada pelo ódio, pode levar essas pessoas a usarem a máscara da traição. Aqueles que usam essas máscara têm sempre o medo de que novamente serão enganados e enfrentarão grande dor.
Parece que existem mais máscaras invisíveis que físicas, Vejamos mais algumas: Máscaras de pureza em vidas sem compromisso com a santidade; máscaras de amor em relacionamentos marcados pelos interesses pessoais; máscaras de compromisso em casamentos internamente destruídos; máscaras de tolerância, que escondem planos vingativos; máscaras de espiritualidade em decisões puramente políticas e interesseiras; máscaras de exortação em sermões que não correspondem com a própria vida; máscaras de misericórdia, sem coração compassivo ou qualquer interesse em aliviar a dor do aflito.
Interessante foi a explicação de um dos atores que fez o papel de Superman quando perguntado qual o motivo pelo qual o herói não usava uma máscara. Respondeu que tinha haver com confiança. Se tivesse uma, daria às pessoas uma razão para não confiar nele.
É importante lembrar que as crianças não têm máscaras, porém, conforme convivem com os adultos e passam por reveses, vão descobrindo ser mais útil parecer diferente do que realmente se é.
Se formos para o lado político, talvez sejam os políticos que mais usam máscaras, principalmente da honestidade. A pergunta que não nos deixa calar:
Como nos protegermos dos bacilos (bactérias) das grandes pestes da democracia (políticos)? Esses bacilos não desaparecem nunca. E cada dia inventam mais uma máscara invisível para enganar o povo. Segundo o teólogo, monge e mestre espiritual indiano Swami Shankara, políticos sempre usam muitas máscaras, uma para cada ocasião. A máscara mais usada é a de cara-de-pau.
Segundo a Bíblia, o uso de máscaras pode ser associado à hipocrisia e à falta de autenticidade. A Bíblia enfatiza ainda a importância de ser verdadeiro consigo mesmo e com os outros, evitando a adoção de personas falsas.
No espiritismo, as máscaras são vistas como representações das diferentes personalidades e experiências que uma pessoa pode ter em diferentes encarnações. No tarot, numerologia, horóscopo e estudos dos signos, as máscaras são vistas como representações das diferentes energias e influências que afetam uma pessoa em sua vida. No Candomblé e na Umbanda, as máscaras são vistas como representações dos orixás e entidades espirituais que podem se manifestar através dos praticantes.
Bem, podemos perceber que geralmente usamos máscaras diante das pessoas mas esquecemos não conseguimos enganar a Deus. Diante do Senhor, não há máscara capaz de esconder quem somos e o que fazemos. Ingenuamente esquecemos que Deus nos vê como de fato somos, é Ele quem nos vê sob e através das máscaras, é Ele quem vê o que ninguém mais pode ver, o nosso interior e sabe tudo o que fazemos. Como muito bem nos ensina a bíblia em 1 Samuel 16.7b: “O homem vê o exterior, porém o Senhor o coração.”
O tempo passa, as coisas mudam, as máscaras caem. A máscara, com o passar do tempo, torna-se um fardo pesado e, já não teremos força para segurá-la. Os disfarces não resistem e a mentira aparece. Às máscaras sempre caem à luz da verdade. Toda maquiagem sai, toda máscara cai e toda mentira se revela. Seria bom que alguns hipócritas soubessem disso.
Pessoas que usam máscaras acabam se perdendo de quem realmente são e perdem o amor de Deus em seus corações, pois não sabem como canalizar este amor e nem como expressá-lo. Porém, antes de você julgar essas pessoas mascaradas, procure antes saber o que foi que motivaram a elas a usarem tais máscaras.
Concluímos recordando a música “Turbilhão”, interpretada por Moacyr Franco. Uma obra que utiliza a alegoria do carnaval para descrever a complexidade das emoções humanas e a efemeridade da vida. A letra menciona elementos típicos do Carnaval, como colombinas, serpentinas, confetes e palhaços, mas os utiliza para ilustrar sentimentos mais profundos. “Sopraram cinzas no meu coração” e “caiu a máscara da ilusão” sugerem desilusão e tristeza, contrastando com a imagem festiva do Carnaval. A repetição do refrão “a nossa vida é um Carnaval” reforça a ideia de que, assim como no Carnaval, a vida é feita de momentos de alegria e tristeza, e que muitas vezes a realidade é mascarada.
Que vençamos a tentação de usar destes artefatos, seja por qualquer motivo, e nos apresentemos como somos, diante das pessoas e diante do nosso Deus.






