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Política

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22 de novembro de 2021
36 min de leitura

“Meus concidadãos! Eu tenho um sonho”

Pastor Martin Luther King em um de seus discursos
Fonte: Estante Virtual.

No dia 28 de agosto de 1963, milhares de negros e negras Estadunidenses marcharam em Washington para exigir direitos. O ato foi convocado por organizações religiosas, sindicatos e movimentos populares pelos direitos civis da população negra dos Estados Unidos. E foi nesse ato que o reverendo Batista Martin Luther King, liderança e referência da resistência pacífica contra o racismo, proferiu seu discurso mais famoso: “Eu tenho um sonho“, repetiu, por diversas vezes em sua fala, ao profetizar uma terra de liberdade e oportunidade em que “nossos filhos não serão julgados pela cor de suas peles, mas pelo conteúdo de seu caráter”.

Luther King sabia que seu discurso era um grande passo em nome da união e coexistência harmoniosa entre negros e brancos. O que ele não sabia era que o famoso sonho seria eleito o melhor discurso dos Estados Unidos no século XX.

A história política confirma que tanto o carisma quanto um bom poder argumentativo são capazes de produzir líderes autênticos das massas.

O sociólogo alemão Max Weber classificou o carisma como sinônimo de autoridade, ou seja, um tipo de influência legítima através do reconhecimento das virtudes do líder por seus governados. O carisma é uma característica descrita como determinante para um bom orador.

Independente das intenções, os grandes oradores são capazes de mobilizar pessoas até onde suas vozes alcançam. E a poesia da fala inspira e faz sonhar.  Se Martin Luther King tivesse afirmado que possuía uma ideia e não um sonho, seu desejo teria sido esquecido.

O século XX assistiu à ascensão de um dos mais exitosos oradores da história da política. Os discursos de Adolf Hitler, na Alemanha, foram responsáveis pela fanática adesão à causa nazista. Ainda que tenha reinventado a propaganda política, o führer liderou os alemães sob o poder hipnótico da oratória, considerado uma de suas principais qualidades. Os objetivos do nazismo são considerados insanos atualmente, mas pouco foi contestado pela maioria alemã na época.

A arte de falar em público é tão ancestral que remonta à era clássica da Grécia Antiga, quando era confundida como uma parte da retórica. De fato, oratória e retórica se combinaram ao longo da história e dos discursos. Para os gregos, a oratória valorizava o conteúdo e o apelo à razão. Era um meio de persuadir pessoas e obter influência. Os dois termos são semelhantes, mas não idênticos. Enquanto retórica designa, para nós, a arte de falar bem, de maneira eloquente e precisa, com capacidade de convencer. A oratória significa falar em público.

Apesar de não discursar, o filósofo grego Aristóteles, em Retórica, a definiu como forma de convencer o ouvinte, mesmo que em detrimento da verdade. Infelizmente, em se tratando da política brasileira, a definição de retórica do grego Aristóteles, é uma pura verdade.

Em 24 de janeiro 1973, a rede Globo de Televisão, estreou a novela “O Bem Amado”, obra de Dias Gomes. Primeira telenovela em cores da televisão brasileira e a primeira a ser exportada. Criticava com humor o Brasil da ditadura militar. A trama conta a história do político corrupto Odorico Paraguaçu e de suas estratégias nada ortodoxas para manter seu cargo como prefeito da cidade de Sucupira, no litoral baiano, com seus discursos inflamados e verborrágicos.

O político cria o slogan: “Vote em um homem sério e ganhe um cemitério” para ser eleito para o maior cargo executivo da cidade. A estratégia dá certo, e ele ganha a confiança do povo ao assegurar que todos terão acesso a uma moradia digna de conforto eterno. Interessante, que em determinado momento, O Bem-Amado retratou uma epidemia na ficção. A cidade de Sucupira se torna alvo de uma onda de tifo e, focado em sua estratégia de deixar alguém morrer no local para inaugurar o cemitério, Odorico faz vistas grossas para vacinar todos. “Meus concidadãos! Este momento há de ficar para sempre gravado nos anais e menstruais da História de Sucupira!” (Prefeito de Sucupira, Odorico Paraguaçu).

Retornando a realidade, sabemos que a palavra é o reflexo do que se pensa e deseja, e que ela tem impacto direto na vida, seja para agradar ou agredir alguém. E não é só quem não tem papas na língua que se atropela ao falar demais, da forma ou na hora errada. Na maioria das vezes, não se mede o impacto que uma palavra pode ter.

Pois bem, isso se aplica totalmente aos políticos. Tudo que um político diz fica registrado nos anais da história. Muitas vezes fazem promessas milagrosas, para conquistar o voto do eleitor e depois não cumprir nem mesmos as viáveis, o que não deixa de ser um “estelionato eleitoral”. Não se pode negar que o eleitor também tem culpa nesse contexto. Mesmo porque quando “a promessa é grande, o santo desconfia” ou deveria desconfiar.

Faremos então, uma viagem no tempo relatando alguns impropérios que políticos brasileiros tiveram a ousadia de proferir nas mais diversas situações, seja em discursos, declarações ou entrevistas. Impropérios que de alguma forma demonstram nas mãos de quem o Brasil foi e está sendo entregue.  Interessante é que os fatos, em alguns momentos, parecem muito similares.

Nessa viagem, vamos focar em alguns presidentes da nossa república, que sem dúvida, influenciaram e continuam influenciando significativamente a história política do Brasil.

Iniciando pelo presidente da república que mais permaneceu no poder (1930/1945 e de 1951/1954), o gaúcho Getúlio Dornelles Vargas. Considerado um dos mais importantes estadistas brasileiros.

Vargas não se manifestava muito afeto a legalidade. Em abril de 1936, uma triste, infeliz e malvada frase foi dita por Getúlio Vargas: “A Constituição é como as virgens. Foi feita para ser violada”.

No dia 1° de maio de 1951, Getúlio Vargas proferiu um discurso que pode não ter mudado o mundo, mas certamente alterou o rumo do Brasil. À frente de um estádio de São Januário (RJ) lotado, o então presidente do país fez sua homenagem aos trabalhadores do Brasil, enfatizando suas políticas públicas de regularização do trabalho. Pela primeira vez no pais, os brasileiros podiam contar com uma carteira assinada. A maneira de se dirigir ao povo foi determinante na construção da popularidade de Getúlio Vargas. A oratória era uma das ações populistas que o ex-presidente utilizou para se aproximar de seu eleitorado.

No dia 23 de agosto de 1954, Getúlio redige uma carta-testamento, de natureza fundamentalmente política, e suicida-se com um tiro no peito. Dois dias antes do trágico final, os militares exigiram a renúncia e, novamente, Vargas não a aceita, respondendo “daqui só saio morto”. Sua carta-testamento, na qual dá suas razões para o gesto extremo, é um dos mais conhecidos documentos históricos.

Na sua Carta Testamento, escreveu: “Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo. Tenho lutado de peito aberto. O ódio, as infâmias, a calúnia não abateram meu ânimo. Eu vos dei a minha vida. Agora vos ofereço a minha morte. Nada receio. Serenamente dou o primeiro passo no caminho da eternidade e saio da vida para entrar na História”.

Entre 1956 e 1961 governou o Brasil, o médico Juscelino Kubitschek de Oliveira. Durante seu mandato tivemos a construção de Brasília. Algumas das principais frases que marcaram sua vida política:

–  Hoje é o dia mais feliz da minha vida. O Congresso acaba de aprovar o projeto para a construção de Brasília. Sabe por quê o projeto foi aprovado? Eles pensam que não vou conseguir executá-lo.

–  Sou visceralmente democrata. Para mim, a liberdade é algo fundamental.

–  O otimista pode errar, mas o pessimista já começa errando.

–  Não nasci para ter ódio, nem rancores, nasci para construir.

–  Costumo voltar atrás, sim. Não Tenho compromisso com o erro.

–  O perdão é a marca da grandeza, sobretudo quando se tem em vista um objetivo mais alto.

 – Meu sonho é viver e morrer em um país em liberdade.

Em outubro de 1960 foi eleito presidente da república o sul mato-grossense Jânio da Silva Quadros. Um dos políticos mais controvertidos que o Brasil já teve. Ficou conhecido pelas polêmicas e pelos discursos moralizantes. Foi presidente do Brasil durante sete meses, renunciando em 1961.

O “homem da vassoura” assumiu a Presidência da República prometendo “varrer” toda a sujeira da vida pública brasileira. Não varreu. Um dos seus hábitos era mandar “bilhetinhos” para seus auxiliares. Em 206 dias de governo, rabiscou mais de mil e quinhentos bilhetes.

Outras babaquices do Presidente: proibição de uso de biquínis nas praias, corridas de cavalo nos dias úteis, brigas de galo e desfile de “misses” com maiôs cavados.

Professor de Português e de Geografia. Respeitava a norma culta de nossa língua em declarações, bilhetes, cartas, documentos, em tudo o que dizia e escrevia. Muitas de suas tiradas ficaram célebres, como por exemplo: ” Fi-lo porque qui-lo”. Jânio a proferiu quando ainda ocupava o Palácio do Planalto, durante uma reunião com governadores e outras autoridades.

Entre um sem-número de tiradas tão sarcásticas quanto ácidas do velho político, cito as seguintes:

–  Os servidores públicos são mulher de César (a quem não basta ser honesta, é preciso parecer honesto). A frase representou o pensamento de Júlio César, ditador absoluto ou pretor máximo romano, no ano de 63 antes de Cristo.

–  O senhor sabe que a família interiorana é moralista e conservadora. Gostaria de lhe perguntar: por que o senhor bebe. A resposta veio bem ao estilo de Jânio: “Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia”.

O primeiro Presidente do Brasil depois do golpe militar de março de 1964 foi o Marechal Humberto Castelo Branco. Nomeado pelo Congresso, ficou no poder de 15 de abril de 1964 até 15 de março de 1967.  Citações de destaque:

– O exército não é um partido político para apresentar solidariedade ao governo ou a quem quer que seja. Quem tem o direito de apresentar solidariedade tem o direito de apresentar também desaprovação.

– Forças Armadas não fazem democracia, mas garantem-na. Não é possível haver democracia sem Forças Armadas que a garantam.

– A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.

Entre os anos de 1967 e 1969, através de eleições indiretas, o General Artur da Costa e Silva foi eleito o 27º Presidente do Brasil Republica. Foi o “Pai” do Ato Institucional n.º5, o AI-5. O ato concedia poderes totais ao presidente, como fechar o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmaras Municipais, etc.

Podemos citar como principais frases:

–  Nunca seria um ditador, inclusive porque no Brasil não há lugar para ditaduras.

–  Salvamos o nosso programa de governo e salvamos a democracia, voltando às origens do poder revolucionário (Discurso do presidente transmitido, no final de 1968, por rádio e televisão sobre o Ato Institucional Nº 5 – AI-5).

–  “O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor”. Não sei a interpretação dessa frase, talvez tem tomado como base a do economista e filósofo Austríaco Friedrich Von Hayek, que disse: “A liberdade não se perde de uma vez, mas em fatias, como se corta um salame”.

Entre 30 de outubro de 1969 e 15 de março de 1974, foi presidente do Brasil, o General-de-Exército Emílio Garrastazu Médici. No seu governo tivemos Campanhas oficiais para incentivar o povo. Foram criados slogans como: “Ninguém mais segura este país”, “Brasil, ame-o ou deixe-o”, “Pra frente, Brasil”.

Algumas de suas principais citações:

–  Sinto-me feliz todas as noites quando ligo a televisão para assistir ao jornal. Enquanto as notícias dão conta de greves, agitações, atentados e conflitos em várias partes do mundo, o Brasil marcha em paz, rumo ao desenvolvimento. É como se eu tomasse um tranquilizante após um dia de trabalho.

–  A economia vai bem, mas o povo vai mal.

–  A eleição direta é uma piada.

De 1974 a 1979 o Brasil foi governado pelo General Ernesto Beckmann Geisel. Principais citações:

 –  Eu sou um sujeito profundamente democrático (Em entrevista a Maria Celina D’Araujo justificando que a falta de liberdade durante o seu governo não era fruto de convicções pessoais).

–  Se é a vontade do povo brasileiro eu promoverei a Abertura Política no Brasil. Mas chegará um tempo que o povo sentirá saudade do Regime Militar. Pois muitos desses que lideram o fim do Regime não estão visando o bem do povo, mas sim seus próprios interesses.

–  É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?

–  O Brasil vem conseguindo evitar a recessão e a estagnação, que nos estão sendo exportadas pelo mundo desenvolvido lá de fora, com o seu corolário do desemprego a atingir, sempre, as classes mais pobres.

–  Nosso mal foi ter durado tanto tempo (Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo, em agosto de 1987, a respeito do regime militar).

–  Ao longo da minha vida eu fui um infeliz.

O último presidente militar, antes da Constituição de 1988, foi o General João Batista Figueiredo. Assumiu a presidência em março de 1979 para dar prosseguimento ao já traçado processo de abertura política. Ele era curto e grosso em diversas falas. Uma ao ser questionado por um garoto sobre o que faria se seu pai ganhasse apenas um salário mínimo, respondeu: “eu dava um tiro na cuca”.

O plano original do governo militar era o de transformar Figueiredo numa figura popular, conhecida como João do Povo. Mas isso foi muito difícil, afinal, o presidente não colaborava. Às vezes escapavam frases tão sinceras e honestas, surgidas da mais profunda introspecção, que soltas acariciavam ouvidos como esporas. Praticante do hipismo, foi questionado uma vez sobre o “cheiro do povo” numa entrevista sobre a cavalaria. Sem dó, ele respondeu: “Eu prefiro o cheiro do cavalo”.

O apreço pelo povo era praticamente negativo para Figueiredo. Várias vezes de forma ofensiva, ele culpava os mais pobres por diversos problemas do país. Uma vez, ele afirmou que “um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar”.

Algumas de suas principais citações:

–  Estou fazendo uma força desgraçada para ser político, mas não sei se vou me sair bem: no fundo o que gosto mesmo é de clarim e de quartel.

–  A solução para as favelas é jogar uma bomba atômica.

–  É um vagabundo sem vergonha. Sobre o cantor, compositor e diplomata Vinícius de Moraes.

–  Eu cheguei e as baianas já vieram me abraçando. Ficou um cheiro insuportável, cheguei no hotel tomei 3, 5, 7 banhos e aquele cheiro de preto não saía

–  Também já declarou que “durante muito tempo o gaúcho foi gigolô de vaca”.

Em 1985 tivemos o primeiro presidente civil após o movimento militar de 1964. O cargo foi exercido pelo político maranhense José Ribamar Ferreira de Araújo Costa Sarney. Como era vice presidente, assumiu a presidência após a morte de Tancredo Neves que não chegou a tomar posse.

Algumas de suas principais citações:

–  Consultei um futurólogo e ele previu que o Brasil só terá outro presidente nordestino daqui a 1.900 anos. Então, acho que mereço ficar os seis anos.

–  Durante o meu mandato a história se contorceu, mas a democracia não murchou na minha mão.

–  Quando há perigo iminente para os povos reunidos em Estados, cabe à inteligência política encontrar, e com decisão, a resposta certa.

–  A inflação é o pior inimigo da sociedade. Ela castiga os mais pobres, os que não têm instrumento de defesa contra seus terríveis efeitos. Ela não confisca apenas o salário: confisca o pão.

-A educação é o primeiro e o mais rentável dos investimentos públicos.

–  Herdei para administrar a maior crise política da história brasileira, a maior dívida externa do mundo, a maior dívida interna, a maior inflação que já tivemos, a maior dívida social e a maior dívida moral.

–  No Maranhão, depois dos 50 anos não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.

–  Realmente, estamos importando alimentos, mas isso é ótimo, porque significa que quem não comia está comendo.

– Governo é como violinha: você toma com a esquerda e toca com a direita (José Sarney mostrando porque sobrevive há tantos anos no poder).

Em 15 de março de 1990, assume a presidência da república, o carioca Fernando Collor de Melo. Primeiro presidente eleito pelo voto popular depois da ditadura militar. Também foi o primeiro presidente do Brasil a sofrer um processo de impeachment após denúncias de corrução e crime de responsabilidade. Ficou conhecido pelo congelamento da conta poupança da população.

Collor se elegeu presidente da República apoiado em uma campanha de moralização do serviço público em que se apresentava como “caçador de marajás”. Conseguiu se projetar na campanha presidencial valendo-se da sua imagem de boa-pinta e o discurso de ser uma renovação na política. Durante o seu governo, na tentativa de dar mostras da sua jovialidade, Collor se deixava fotografar fazendo cooper, praticando esportes e pilotando jet-ski. Também tentava passar uma imagem de virilidade e, num desses arroubos, falou a notória frase: “Tenho aquilo roxo”, após uma manifestação de protesto contra o governo.

Algumas de suas principais citações que ficaram para os anais da história:

–  O meu primeiro ato como presidente será mandar para a cadeia um bocado de corruptos.

–  Vamos dar um não à desordem, à bagunça, à baderna, à bandeira vermelha. Vamos dar um sim à bandeira do Brasil, verde, amarela, azul e branca (Collor de Mello referindo-se a Lula, no último debate dos presidenciáveis antes do segundo turno, em 14 de dezembro de 1989).

–  A poupança é sagrada.

–  Não temos mais alternativas. O Brasil não aceita mais derrotas. Agora, é vencer ou vencer. Que Deus nos ajude, declarou Fernando Collor de Mello, em rede nacional, na manhã do dia 16, após a ministra da Fazenda, Zélia Cardoso de Mello, anunciar as medidas de um novo plano econômico.

– Minha gente! Não me deixem só! Eu preciso de vocês (Pronunciamento feito durante o processo de impeachment).

Após afastamento do Presidente Collor, devido ao processo de impeachment, assumiu a presidência do Brasil o engenheiro, militar e político brasileiro Itamar Augusto Cautiero Franco (1992 – 1994). O presidente tinha algumas esquisitices, mas não colecionou deslizes morais e nem acusações de corrupção. Todavia no seu mandato, um fato que ocorreu durante o desfile de Carnaval em 1993, gerou muita repercussão na impressa. Um fotógrafo oportunista documentou a alegria do presidente no palanque ao lado da modelo Lílian Ramos. A moça não usava a mais íntima das peças íntimas da indumentária feminina. E sua genitália ilustrou a foto mais badalada daquele carnaval, foi capa de revista e muitos veículos da mídia impressa em todo o mundo a divulgou. Interessante como os grandes escândalos também se modificam conforme a época.

Algumas de suas principais citações:

–  Como vou fazer para saber se as pessoas estão de calcinha preta, verde, vermelha ou sem calcinha?

–  Quando reajo, dizem que sou temperamental, teimoso. Quando demonstro serenidade, falam que sou omisso. Não sei o que essa gente quer. 

–  Nós devemos aos nossos credores dinheiro. Dinheiro se paga com dinheiro. Não se paga dinheiro com a fome, a miséria e o desemprego dos cidadãos brasileiros. 

–  Se não saio de Brasília, reclamam. Se vou para o Rio, reclamam. Se vou para Juiz de Fora, reclamam do mesmo jeito. Se falar em ir para qualquer lugar, reclamam. “

–  Do jeito que as coisas vão, FHC vende a Bandeira Nacional até 2002 (Itamar já não era mais presidente quando pronunciou essa frase).

De 1995 a 2002, ocupou a presidência da república o sociólogo e professor universitário Fernando Henrique Cardoso. Foi o primeiro presidente brasileiro a se reeleger para um segundo mandato.

Algumas de suas principais citações que ficaram para os anais da história:

– O nosso vizinho não foi capaz de apurar tão depressa os votos como nós aqui (Frase dita por Fernando Henrique em 2000, ironizando a confusão da eleição presidencial nos Estados Unidos).

–  É demagógico. Alertar contra a fome é bom, mas falar e não resolver é gravíssimo.

– Saco de bondade à custa do povo eu não faço (Frase dita em 2001, ao afirmar que não permitiria que os gastos públicos estourassem em 2002, ano eleitoral).

–  Logo que eu iniciei o governo, eu disse que era fácil governar o Brasil. Talvez tivesse que refazer o que disse.

–  A pior guerra é a guerra contínua contra a natureza, que é silenciosa, que destrói ao longo do tempo.

– Eu sou o presidente da República, mas quem manda em mim é o Marco Aurélio. Você precisa parar de mandar em mim, Marco Aurélio (Fernando Henrique, dirigindo-se, em tom bem-humorado, ao presidente do STF, Marco Aurélio de Mello, durante jantar oferecido pelo presidente do Senado, Ramez Tebet – 2001).

– Não posso aceitar o pressuposto de que abafei um crime. A leviandade da imprensa e o golpismo sem armas da oposição estão criando um clima de fascismo e terror insuportável (Em 2001, sobre o envolvimento do governo no caso do banco Marka).

–  Graças ao meu estilo de governar, pouco a pouco as oligarquias, os caciques foram perdendo centralidade na política (Em 2002, dizendo, em balanço sobre as eleições, que, no seu governo, as oligarquias perderam o peso e a centralidade que tiveram no passado).

Fernando Henrique, homem muito culto e poliglota não escapou de gafes, ainda que fora do campo da linguagem. Durante cerimônia de abertura do 10º Fórum Nacional, em 1988, ele afirmou que as pessoas aposentadas com menos de 50 anos eram vagabundos porque se locupletariam de um país de pobres e miseráveis.

No discursar em homenagem ao Dia Internacional da Mulher em 1998, indagou: “Aqui nós estamos assistindo a ministros e vice-ministras aqui presentes; quem sabe um dia ministros e ministras, não é?”. Continuou: “Essa diretriz e para que, havendo qualificações iguais, as mulheres assumam, não o poder (risos), mas participem, coparticipem do poder”. Depois afirmou que muitas são “cabeças de cavalo”, corrigindo, em seguida, para “cabeça do casal”.

O Trigésimo quinto presidente do Brasil foi o metalúrgico, líder sindical e um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, o pernambucano Luiz Inácio Lula da Silva. Assim como o Fernando Henrique Cardoso, foi reeleito para um segundo mandato.

Os dois mandatos do presidente Lula foram marcados por grandes avanços, mas também por grandes escândalos. Lula teve condições de passar para a história como o presidente que realizou grandes feitos e priorizou políticas que beneficiaram os mais pobres, mas a corrução se infiltrou no poder.

Em diversas solenidades, Lula jogou para escanteio os discursos produzidos pelo ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência e partiu para o improviso.

Frases que marcaram seu período como presidente da república:

– Ontem, o Brasil votou para mudar. O brasileiro votou sem medo de ser feliz, e a esperança venceu o medo (No seu primeiro pronunciamento como presidente eleito).

–  Se no final de meu mandato cada brasileiro puder comer três vezes ao dia, terei cumprido a missão de minha vida.

–  Não é o Bolsa-Família que vai resolver o problema do povo brasileiro. O que vai resolver são as mudanças estruturais que nós queremos que aconteçam no Brasil: a economia tem de voltar a crescer e temos de gerar empregos.

–  Você pode fazer seu discurso político na hora em que quiser. Você pode ter suas definições ideológicas quando quiser, mas, na hora de governar, é pão, pão, queijo, queijo. Você nem sempre faz o que você quer.

–  Na primeira vez que me perguntaram se eu era comunista, respondi: “Sou torneiro mecânico”.

–  O salário mínimo nunca será o ideal porque ele é mínimo.

–  São privilegiados aqueles que podem pagar Imposto de Renda, porque ganham um pouco mais (em discurso a metalúrgicos do ABC que cobravam mudança na tabela do Imposto de Renda, em 2004).

–  Nunca fiz concessão política. Faço acordo… Se Jesus viesse para cá, e Judas tivesse a votação num partido qualquer, Jesus teria que chamar Judas para fazer coalizã.

–  Resolveram fazer um estudo para saber se a perereca estava em extinção. Aí teve que contratar gente para procurar perereca, e procure perereca, procure perereca, perereca, perereca… (em maio de 2009, ao eleger o bichinho como inimigo do desenvolvimento; por causa dele, houve atraso de sete meses na construção de viaduto entre Brasil e Argentina.

–  Uma mulher não pode ser submissa ao homem por causa de um prato de comida. Tem que ser submissa a um parceiro porque gosta dele e quer viver junto com ele.

–  Lá, a crise é um tsunami. Aqui, se chegar, vai ser uma marolinha, que não dá nem para esquiar (em 4 de outubro de 2008, garantindo que os efeitos da crise econômica não seriam sentidos no Brasil).

–  Tem gente que não gosta do meu otimismo, mas eu sou corintiano, católico, brasileiro e ainda sou presidente do País. Como eu poderia não ser otimista?

–  Quero saber se o povo está na merda, e eu quero tirar o povo da merda em que se encontra (em maio de 2009, ao garantir no Maranhão que suas obras de saneamento).

–  Ninguém tem mais autoridade moral e ética do que eu para transformar a luta contra a corrupção não em bandeira, mas em uma prática cotidiana (em meio às denúncias do escândalo de pagamento de propina a parlamentares que ficou conhecido como mensalão).

– (A dor da escravidão) é como a de cálculo renal: não adianta dizer, tem que sentir (em abril de 2005, na Casa dos Escravos, em Dacar, capital do Senegal, ao pedir perdão ao povo africano pelo passado escravista brasileiro).

–  Aprendi a contar até dez, apesar de só ter nove dedos, que é para não cometer erros.

–  A coisa que eu mais queria na minha vida quando casei com a minha ‘galega’ (a primeira-dama, Marisa Letícia) era um filho. Ela engravidou logo no primeiro dia de casamento, porque pernambucano ‘não deixa por menos’”.

–  Espero que o Poder Judiciário tenha agilidade para que processos não sejam engavetados, para que processos não demorem, porque o povo não pode continuar sendo roubado (em 2003, cobrando do Judiciário agilidade para que processos contra administradores públicos acusados de corrupção não fiquem engavetados).

Algumas gafes do Luiz Inácio Lula da Silva a partir de seu primeiro mandato, em 2003:

–  No plano geográfico ele disse uma vez que o Brasil somente não tinha fronteira com o Chile, o Equador e a Bolívia.

–  No setor de suas pesquisas históricas elas mostraram que Napoleão havia estado na China: “Quando Napoleão foi à China, ele cunhou uma frase que ficou famosa. Ele disse: A China é um gigante adormecido que o dia que ele acordar, o mundo vai tremer.

–  Outra sobre a sua natureza humilde, quando afirmou em 2004, no dia internacional da mulher, que era “filho de uma mulher que nasceu analfabeta”.

–  Durante uma viagem a Londres, em 2006. Lula participou de um banquete oferecido pela rainha Elizabeth 2ª e, chamado para discursar, elogiou a “contribuição do inglês Charles Miller ao futebol brasileiro. Miller era paulista, filho de um inglês com uma brasileira.

Nas eleições de 2010 tivemos a primeira mulher eleita para presidir o país, a mineira Dilma Vana Rousseff. Seu primeiro mandato foi de 2011 a 2014. Reeleita em 2014 para o segundo mandato de 2015 a 2018, todavia no dia 31 de agosto de 2016 deixou o cargo devido a um processo de impeachment aprovado pelo Senado, tendo sido acusada de crime de responsabilidade fiscal. 

Ao longo dos mandatos da presidente Dilma Rousseff diversos de seus discursos se tornaram polêmicos devido as frases engraçadas e, sem uma boa conexão com as temáticas abordadas. Muitas de suas falas se tornaram meme nas redes sociais.

Frases de Dilma Rousseff que não fazem o menor sentido:

–  O meio ambiente é sem dúvida nenhuma uma ameaça ao desenvolvimento sustentável.”

–  Se hoje é o dia das crianças, ontem eu disse que criança… o dia da criança é dia da mãe, do pai e das professoras, mas também é o dia dos animais, sempre que você olha uma criança, há sempre uma figura oculta, que é um cachorro atrás.

–  Primeiro, eu queria te dizer que eu tenho muito respeito pelo ET de Varginha. E eu sei que aqui, quem não viu conhece alguém que viu, ou tem alguém na família que viu, mas de qualquer jeito eu começo dizendo que esse respeito pelo ET de Varginha está garantido.

–  Eu tô aqui saudando a mandioca. Acho [a mandioca] uma das maiores conquistas do Brasil (abertura dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas).

–  Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou perder. Vai todo mundo perder.

–  A mulher abre o negócio, tem seus filhos, cria os filhos e se sustenta, tudo isso abrindo o negócio.

–  Eu já entendi que você entende, pois se você não tivesse entendido não entenderia que você teria entendido para ser explicado antes de você entender.

Nem tudo foi cômico:

–  A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um princípio essencial da democracia.

–  A imprensa que constrói uma democracia é a imprensa que fala o que quer, dá opinião que quer e se manifesta do jeito que bem entende.

–  Nós acreditamos que, sempre, em qualquer situação, é muito melhor o diálogo, o consenso e a construção democrática do que qualquer outro tipo de ruptura institucional.

–  Temos muitos motivos para preservar e defender a Petrobras de predadores internos e inimigos externos.

–  Lamento a campanha absolutamente difamatória que fazem contra mim, dizendo que estou utilizando o nome de Cristo para falar que nem ele me derrotava na eleição. Eu acho isso um absurdo, uma calúnia e uma vilania contra mim. Como vocês sabem que sou cristã, eu jamais usaria o nome de Cristo em vão.

No dia 31 de agosto de 2016, após aprovação do impeachment de Dilma Rousseff, toma pose como Presidente da República o advogado e político Michel Miguel Elias Temer Lulia. 

Nem mesmo o polido e cauteloso Michel Temer escapou das gafes. Algumas gafes:

–  Durante um encontro com a primeira-ministra norueguesa em 2017, Temer chamou Harald V, monarca norueguês, de “rei da Suécia”, país vizinho escandinavo, e se referiu ao “parlamento brasileiro”, em vez do norueguês.

–  Luiz Fernando Pezão, quando governador do Estado do Rio de Janeiro, teve que ouvir de Temer que o câncer lhe deixou mais bonito (por ter emagrecido), o que seria algo “útil”.

Algumas frases significativas:

–  Bons diálogos, boas conversas, sempre com vistas à pacificação absoluta.

–  Tenho feito esse diálogo com frequência. A raiva precisa acabar. Não se faz política com o fígado. Em política não se tem inimigo, mas adversário, aquele que adversa, está do outro lado. Não entender isso é comprometer as bases do sistema democrático”.

–  Quando nós nos desviamos dos limites do direito, nós criamos a instabilidade social e a instabilidade política.

–  Quando se tem esse tipo de movimento de rua, é preciso ouvir e dialogar muito, ter humildade e isso nós temos.

–  É uma rebelião, digamos assim, contra a classe política. Você pode me perguntar: mas isso é útil ou é inútil? Eu acho que é útil. Quando há uma queixa popular, você precisa verificar o que está acontecendo para melhorar as relações do poder institucional com a principal instituição do estado que é o povo.

Concluindo nossa viagem, chegamos ao 38º presidente do Brasil, eleito em 2018 para o mandato de 2019 a 2022, o capitão da reserva do Exército Jair Messias Bolsonaro. Se tornou um fenômeno eleitoral ao vencer as eleições, filiado a uma legenda sem grandes alianças com pouco tempo de TV e rádio e longe das ruas depois do atentado que sofreu no dia 3 de setembro de 2018. No seu discurso da vitória, Jair Bolsonaro declarou que seu governo seria um defensor da Constituição, da democracia e da liberdade.

O Presidente Jair Bolsonaro durante sua vida política sempre colecionou declarações polêmicas. Segundo o jornalista Noblat (30/08/2021), Jair Bolsonaro é um fio desencapado que ocasiona curtos circuitos e faíscas e pode produzir pequenos ou grandes incêndios.

Frases que marcaram sua histórica política:

–  Já vai tarde. (Quando Luís Eduardo Carlos Magalhães faleceu, filho de Antônio Carlos Magalhães -1998).

–  Se fuzilassem 30.000 corruptos, a começar pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, o país estaria melhor (1999).

–  A atual Constituição garante a intervenção das Forças Armadas para a manutenção da lei e da ordem. Sou a favor, sim, de uma ditadura, de um regime de exceção, desde que este Congresso dê mais um passo rumo ao abismo, que no meu entender está muito próximo (Discurso na tribuna da Câmara em junho de 1999).

–  90% desses meninos adotados [por um casal gay] vão ser homossexuais e vão ser garotos de programa com toda certeza (2012).

–  A escória do mundo está chegando ao Brasil como se nós não tivéssemos problemas demais para resolver (haitianos, senegaleses, bolivianos que pediam refúgio ao Brasil – 2015).

–  Ele devia ir comer um capim ali fora para manter as suas origens” (2008). Se referia ao índio Jacinaldo Barbosa, que lhe jogou um copo de água durante uma audiência pública na Câmara para discutir a demarcação da reserva indígena Raposa/Serra do Sol.

–  O erro da ditadura foi torturar e não matar” (2008 e 2016).

–  Eu jamais ia estuprar você porque você não merece (A frase foi dirigida à deputada federal Maria do Rosário, primeiro durante uma discussão nos corredores da Câmara em 2003, diante de vários jornalistas, depois repetida em 2014, dessa vez na tribuna da Casa).

–  Fui num quilombola [sic] em Eldorado Paulista. O afrodescendente mais leve lá pesava sete arrobas. Não fazem nada! Acho que nem para procriadores servem mais (2017).

– [O policial] entra, resolve o problema e, se matar 10, 15 ou 20, com 10 ou 30 tiros cada um, ele tem que ser condecorado, e não processado (Em declarações anteriores, ele já havia dito que “policial que não mata não é policial” e que a “polícia brasileira tinha que matar é mais” – 2018).

–  Seria incapaz de amar um filho homossexual. Não vou dar uma de hipócrita aqui: prefiro que um filho meu morra num acidente do que apareça com um bigodudo por aí. Para mim, ele vai ter morrido mesmo. 

–  Isso não pode continuar existindo. Tudo é coitadismo. Coitado do negro, coitado da mulher, coitado do gay, coitado do nordestino, coitado do piauiense. Vamos acabar com isso (2018).

–  Como eu estava solteiro na época, esse dinheiro do auxílio-moradia eu usava para comer gente (2018).

– Brasil acima de tudo. Deus acima de todos.

–  Eu acredito em Deus. Sou católico. Mas é coisa rara ir à Igreja. Eu já li a Bíblia inteirinha com atenção. Levei uns sete anos para ler. Você tem bons exemplos ali. Está escrito: “A árvore que não der frutos, deve ser cortada e lançada ao fogo”. Eu sou favorável à pena de morte.

–  O Brasil está quebrado. Eu não consigo fazer nada.  

–  E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê? Eu sou Messias, mas não faço milagre (declaração quando o Brasil passava a marca de 5 mil mortes e acabava de ultrapassar a China em número de óbitos – 2020).

–  No meu caso particular, pelo meu histórico de atleta, caso fosse contaminado pelo vírus, não precisaria me preocupar, nada sentiria ou seria, quando muito, acometido de uma gripezinha ou resfriadinho, como bem disse aquele conhecido médico, daquela conhecida televisão (2020).

–  Até quando vão ficar chorando? (Bolsonaro afirmou que era preciso parar de “frescura” e “mimimi” em meio à pandemia e ainda chamou de “idiotas” as pessoas que vêm pedindo que o governo seja mais ágil na compra de vacinas – 2021).

–  Se você virar um jacaré, é problema seu. Se você virar Super-Homem, se nascer barba em alguma mulher aí, ou algum homem começar a falar fino, eles (Pfizer) não têm nada a ver com isso.

–  Ô, ô, ô, cara. Quem fala de… eu não sou coveiro, tá?” (Resposta dada a um jornalista que perguntou sobre os números da covid-19 no Brasil).

–  Nada temeis, nem mesmo a morte, a não ser a morte eterna (esta frase passou a fazer parte dos pronunciamentos do presidente desde o dia 5 de agosto 2021).

– Por ser uma floresta úmida, a Amazônia não pega fogo (discurso feito para investidores árabes em Dubai – novembro/2021, repetindo o que disse em discurso na assembleia-geral da ONU, em 2020).

Nessa “amostragem política”, muitos ficarão para sempre, nos anais da história política brasileira, conhecidos pelos discursos moralizantes, declarações polémicas, frases infelizes e malvada, discursos com frases engraçadas e, sem uma boa conexão com as temáticas abordadas que se tornaram meme nas redes sociais, pelas respostas curtas e grossas em diversas falas, sem o menor senso de educação e responsabilidade, e por gafes memoráveis.

Lembramos que todo político, assim como todos nós, devemos ter cuidado com o que falamos. Tem um ditado que diz que “quem fala demais dá bom dia a cavalo”. Esse é um ditado antigo e que está em plena sintonia com o provérbio de Salomão que recomenda que moderemos nossos lábios. Falar menos é sinal de prudência. Falar menos é sinal de sabedoria. “As palavras podem ferir e causarem dor, por isso, só devem ser ditas para construir, para trazer esperança e para produzir otimismo e nunca para aniquilar, mas para ajudar, direcionar e enaltecer. Nunca para arrasar alguém, nem para humilhar e muito menos para entristecer. Se não tem algo bom para falar de alguém, o melhor é falar a verdade ou ficar em silêncio” (escritor Salomão Tavares).

Concluindo esse artigo, afirmamos que não tivemos a intenção de comparar nossos políticos com Luther King.  O mesmo era um líder com ideais bem definidos de união e coexistência harmoniosa entre negros e brancos. Falando do jeito que fez, ele conseguiu educar, inspirar e informar, não apenas as pessoas que ali estavam, mas também pessoas em todo os EUA e outras gerações que nem sequer haviam nascido. Mas, principalmente para dizer que assim como Luther King, eu também tenho um sonho: Que nossos descendentes vão um dia viver em uma nação onde elas terão todos os direitos inalienáveis a vida e que os nossos políticos, que transpiram com o calor da injustiça, que transpiram com o calor de opressão, transformem esse nosso Brasil em um oásis de liberdade, igualdade e humanidade.

Parece que, por enquanto, os nossos políticos são os Odoricos Paraguaçu, da novela Bem Amado.

 “Não prometa o que não pode cumprir. Não exija o que não pode oferecer. Não desdenhe do que não sabe fazer melhor. Não tente parecer ser o que jamais será” (escritora Lavínia Lins).

Política

Em

07 de novembro de 2021
11 min de leitura

Nem tudo que reluz é ouro


Em 15 de novembro de 1889, ocorria na cidade do Rio de Janeiro, capital à época, a Proclamação da República, fato histórico e emblemático da jovem Nação Brasileira.
Fonte: Educamaisbrasil
Primeira constituição republicana (1891).
Fonte: Arquivo Nacional

Em 2022, o Brasil comemora 200 anos de independência.  Durante o Regime Monárquico (1822-1889), o Brasil teve dois Imperadores, 33 Primeiros-Ministros (sempre com alternância de poder entre os Partidos Liberal e Conservador) e uma Constituição (1823). O Parlamento nunca foi fechado e funcionava a pleno vapor, com os parlamentares trabalhando de segunda a sexta e não, como é hoje na república, apenas de terça a quinta. Enquanto, o Regime Republicano, que iniciou em 1889, completará 133 (cento e trinta e três) anos. Todavia, durante o período republicano, já tivemos: 06 (seis) vezes o congresso fechado, seis golpes de Estado, 13 (treze) presidentes que não concluíram o mandato, 19 (dezenove) presidentes eleitos pelo voto popular e 20 (vinte) presidentes não eleitos diretamente, também considerando posse de vice e interinos. Um fato relevante é que nesse período republicano tivemos 06 (seis) Constituições Federais.

Por incrível que pareça, o Estados Unidos como república federativa, em 231 (duzentos e trinta e um) anos, tiveram 01 (uma) Constituição e 45 (quarenta e cinco) indivíduos foram eleitos ou sucedidos ao cargo de presidente.

Será que com base nesses dados, podemos questionar se a república foi a solução para os problemas do Brasil existentes no período monárquico? 

Nos anais da história está registrado que a queda da monarquia foi um golpe de Estado e não uma revolução. Veio do alto escalão do exército. Para ser uma revolução, teria de ser proveniente de quem está fora dos setores de poder do Estado. As pessoas sequer tomaram conhecimento. Sobre isso, disse Aristides Lobo: “os brasileiros não compreenderam e assistiram bestializados à Proclamação da República, pensando que era uma parada militar”.

A primeira fase do regime monárquico é chamado de Primeiro Reinado (1822 -1831). Termina com a abdicação de D. Pedro I. A segunda fase, conhecida como Regência (1831-1840). A última fase, denominada Segundo Reinado (1840 -1889), com D. Pedro II no poder.

Dom Pedro II era um intelectual sensível, valorizava as artes e era poliglota. Nunca aumentou o seu salário, do qual usava parte, para libertar escravos e financiar estudos de brasileiros no exterior. Dizia que a importância do debate democrático estava na liberdade de expressão. Uma vez indagado sobre essa questão, respondeu ao jornalista: “veja meu filho, imprensa é algo muito sério, é o pilar da democracia, e ela não deve ser combatida com ações estatais, deve ser combatida com mais imprensa.”

D. Pedro, d. Teresa Cristina e sua comitiva no Egito.
Acervo da Fundação/Biblioteca Nacional

Uma curiosidade era o famoso “caderninho preto” de D. Pedro II, onde ele anotava o nome dos políticos envolvidos em corrupção, e esses nunca mais conseguiam ocupar um cargo público.

Antes da queda da monarquia, a economia do Brasil era uma das mais estáveis do mundo. Era um exemplo de responsabilidade fiscal. Tinha uma diplomacia vibrante, usada para fins nacionais e não para fins políticos. Mesmo no período da guerra do Paraguai, não enfrentou nenhuma recessão na sua economia.

Ocorreu nesse período o surgimento de indústrias, bancos e usinas financiadas por empreendedores locais, bem como a construção de estradas de ferro, iluminação a gás, encanamento de esgoto e o desenvolvimento da indústria naval. Houve renovação urbana, com ruas largas, hospitais, prisões, pontes, elevadores e túneis. Já havia brasileiros mais ricos que a família imperial. Destacamos na época, a figura do Barão de Mauá: o maior empresário que o Brasil já conheceu.

Outro ponto a ser ressaltado era que as liberdades civis eram profundamente respeitadas: o Brasil, mesmo tendo a Religião Católica como oficial, assegurava constitucionalmente o direito de cada grupo religioso realizar seu culto, seja ele qual fosse.

Mas com o passar do tempo, a monarquia começou a entrar em crise. Essa crise foi gerada por um conjunto de fatores, tais quais: o movimento pelo fim da escravidão, choques com a igreja, o movimento republicano e conflitos com o exército.

O sistema de padroado instaurou uma grave crise entre D. Pedro II e os clérigos católicos brasileiros. Através do sistema padroado, o Imperador tinha o poder de nomear os bispos, exercendo controle sobre a Igreja. Ele ficava encarregado de sustentar o clero, pagando seus salários, patrocinando construções de Igrejas, etc. O estopim da crise foi quando em 1864 o papa Pio IX, através da bula “Syllabus”, proibiu a permanência de membros da maçonaria nos quadros da Igreja. O imperador rejeitou a decisão do papa. Alguns bispos permaneceram fiéis ao Imperador, porém os bispos de Olinda e de Belém expulsaram de suas dioceses os padres envolvidos com a maçonaria. O imperador reagiu com a condenação dos mesmos à reclusão e prestação de trabalhos forçados. Posteriormente, D. Pedro II anulou a decisão. Eles foram libertados e desculpados. Porém, perdeu o apoio fundamental da igreja.

A partir de 1870, o Brasil Imperial começaria a sofrer diversos tipos de oposição ao seu regime e a defesa da instalação de uma República em seu lugar. Os republicanos criticavam a centralização da Monarquia, seu caráter “hereditário”, o poder excessivo nas mãos de Pedro II, a vitaliciedade do Senado e o sistema político em geral. Preocupados com a questão do desenvolvimento e da modernização do país, acreditavam que a monarquia operava como o grande sustentáculo do escravismo.

Uma parcela dos republicanos era influenciada pelo “positivismo” que foi uma corrente filosófica que veio da França, no início do século XIX e entrou no Brasil pelos militares, ganhava espaço junto com o federalismo inspirado nos EUA. Defendiam o fim das tradições monárquicas, pois a sociedade tinha que ser racional, científica e planejada por tecnocratas. Interessante que tentavam disseminar suas ideias a qualquer custo, mas sem sucesso. A população não aceitava isso e eles raramente se elegiam. Destacamos que alguns textos influenciados pelo “socialismo utópico” abraçavam a causa republicana e seus preceitos democráticos como forma de atendimento aos anseios populares.

Com diretrizes confusas, prolixas e completamente utópicas, essa filosofia “positivista” foi a escolhida para representar os anseios de um povo que, até hoje, pouquíssimo ouviu falar sobre ela e o que ela exatamente defendia. O encantamento com essa utopia nas Forças Armadas era tamanho que uma abreviação do seu lema foi colocada na bandeira republicana do Brasil: “Ordem e Progresso”, retirando a esfera armilar, a cruz e os ramos de açúcar e tabaco, que de fato representavam o Brasil e tinham um profundo significado para o seu povo.

Os grandes fazendeiros, extremamente dependentes da mão de obra escrava, entenderam o fim da escravidão(1888) como um ato de traição do Império. Revoltados, fizeram um gigantesco lobby de financiamento ao Partido Republicano e buscaram influenciar a Maçonaria, na ajuda para depor o regime que libertou os escravos do Brasil.

Talvez, o motivo mais importante que determinou a queda definitiva da monarquia no Brasil foi o desgaste entre os militares e o Império. As ideias trazidas da Guerra do Paraguai (1870) só alimentaram a disposição militar em “purificar” os costumes políticos, consolidando a auto imagem do Exército, de salvador nacional. Os militares não sentiram retribuição da parte do governo pelos esforços que haviam prestado à nação. As reivindicações dos militares por melhores salários e maior influência na política resultou em conflitos com a coroa.

Fonte: Assembleia Legislativa SP

Em 14 de novembro de 1889, os republicanos fizeram circular o boato de que D. Pedro II havia mandado prender Deodoro e o tenente-coronel Benjamin Constant, líder dos oficiais republicanos. Os boatos (fakenews?) deram certo e as tropas se rebelaram. Na manhã seguinte Deodoro expulsou o primeiro ministro. O Imperador que estava em Petrópolis, ao receber um comunicado dos golpistas informando sobre a proclamação da República e pedindo que deixasse o pais, não ofereceu resistência e partiu para a Europa.

D. Pedro II cumpriu à risca o que lhe foi ensinado. Morreu em 1891, aos 66 anos. O obituário no jornal The New York Times afirmou que D. Pedro II “foi o mais ilustrado monarca do século”.

O Império Brasileiro era tão democrático, estável e respeitoso para com os seus cidadãos que o Presidente da Venezuela em 1889, Rojas Paul, ao saber do Golpe de 1889, disse: “foi-se a única República do Hemisfério Sul.”

O mais irônico de tudo é que no Hino da Proclamação da República, composto pelo maestro Leopoldo Miguez, existe um verso, que diz: “nós nem cremos que escravos outrora tenham havido em tão nobre País, hoje o rubro lampejo da aurora, acha irmãos não tiranos hostis”. Da a impressão de que os Republicanos foram os responsáveis por libertar os escravos e que instauraram, de imediato, uma república que livrou o Brasil de uma ditadura sanguinária.

Relembrando a frase de Shakespeare na sua obra “O mercador de Veneza: “All that glitters is not gold” (Nem tudo que reluz é ouro), podemos concluir, pelos registros históricos, que o regime monárquico do Brasil, teve no final do século XIX, seus “desencantos”. Afirma a historiador Laurentino Gomes que um dos grandes problemas para a continuidade da monarquia, seria a sucessão, disse: “A impressão que se tem, ao estudar a história do Segundo Reinado, é que D. Pedro nunca acreditou de fato que a filha pudesse assumir o trono. No Brasil, conservador e patriarcal, D. Pedro sabia que o exercício político de Isabel era tarefa difícil”.

Independentemente o que poderia acontecer, após a morte de D. Pedro II, o que temos assistido, após o fim da monarquia, é uma sucessão de golpes e contragolpes, de revoluções e reacionarismos, da ascensão vertiginosa de oportunistas famintos de poder e, a depender das necessidades, de sangue, suor e lágrimas. A República pariu o populismo, regimes ditatoriais, os “coronéis nordestinos” e tantos outros que marcam a nossa história como um exemplo de autoritarismo e uso do poder público para fins pessoais ou partidários.

No tempo do Imperador D. Pedro II, éramos reconhecidos no mundo inteiro pela nossa Cristandade, o apego que o nosso governo tinha pela ciência, pela nossa estabilidade e pela sabedoria do nosso Imperador. Nos tempos atuais, somos reconhecidos pelo país da corrupção e de não preservar as suas florestas. Infelizmente, nem pelo futebol somos mais reconhecidos.

Enfim, a monarquia se foi em 1889. O Brasil passou a ser uma República Democrática. Como disse o poeta: um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Contemplado com longos quilômetros de praias paradisíacas, animais das mais variadas espécies, uma população pacífica e religiosa, com muitas manifestações artistas e culturais, uma diversidade de riquezas minerais e uma grandiosa Floresta Amazônica. Mas, infelizmente a nossa classe política que é eleita pelo povo, esquecem que eles têm que governar, num regime democrático, conforme foi dito por Péricles, estadista da democracia ateniense do século V a.C: “pelo povo e para o povo”. E não com interesses pessoais ou partidários.

Mas não é ponderável colocar a culpa apenas na classe política. A culpa é de todos nós, brasileiros eleitores e cidadãos, que por vezes nos ocupamos em apontar o dedo para os erros dos outros sem, contudo, consertar os próprios. Refiro-me as maracutaias, termo utilizado para explicar as malandragens e os esquemas praticados para levar vantagem sobre os outros, também conhecido como jeitinho brasileiro. Tais práticas ocorrem praticamente em todos os espaços de relações sociais nesse solo gigantesco de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados.

E na hora do voto? De quem nos lembramos quando digitamos os números na urna eletrônica? Seria de alguém que julgamos ser uma boa pessoa para nos representar? Ou votamos apenas por ideologia política? Ou pior, apenas por interesses pessoais?

“Viva o Brasil! Viva a Democracia! Viva a Liberdade!” Gazeta da Tarde, 15 de novembro de 1889.

Política

Em

26 de outubro de 2021
12 min de leitura

Não importa se o gato é preto ou branco desde que cace ratos

Em novembro de 1995, a Gazeta Mercantil publicou o seguinte artigo: “Quanto a Cuba, o poder de Castro não ameaça os Estados Unidos mais do que uma pulga ameaça um elefante. Ele prejudica os cubanos, contudo. Aqueles que apoiam o embargo gostam de basear seus argumentos no princípio, segundo o qual, não se deve manter intercâmbio comercial com países cujos governos não reconhecem os direitos políticos de seus cidadãos e, em alguns casos, também os direitos humanos. Esse é um princípio sempre válido? Os Estados Unidos proibiram o comércio com a China?” Por esse artigo parece que quando se trata de determinadas nações, não vale o dito popular: “o pau que dá em Chico, dá em Francisco”.

O desenvolvimento do comércio Brasil-China teve início em meados dos anos 1950, ainda informalmente e sem uma notável expressividade econômica. No entanto, no começo da década de 90, o comércio bilateral entre os países experimentou um boom em suas transações.

Ao longo deste século, a China tornou-se o maior investidor externo do país. Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores divulgados em 2019, entre 2003 e 2019 os chineses colocaram por aqui US$ 72 bilhões, ou 37,3% do total investido por estrangeiros. Apesar de menores em número de projetos, os chineses já investem mais no Brasil do que americanos ou japoneses e canadenses, cuja presença no país já está estabelecida há décadas.

Após anos de marginalização internacional, a China conseguiu, em 1971, tornar-se membro permanente do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). Essa aproximação deu-se, principalmente, com os Estados Unidos, com quem a China formou uma aliança tática contra a “hegemonia soviética”.

A partir de 1978, liderado por Deng Xiaoping, a China lançou uma política de reformas e modernização de longo prazo, que consistia na reestruturação da indústria, da agricultura, da defesa e da cultura. Deng Xiaoping entendeu que o mundo era comandado pelo dólar. As reformas econômicas visavam principalmente a integração da China ao mundo capitalista.  A China passaria a ser uma grande empresa, “fábrica do mundo”, disposta a produzir de tudo com seu estoque de mão de obra ociosa.

Fonte: Internet

Depois de quinze anos como candidata, as mudanças permitiram que a China atingisse o seu objetivo, o que permitiu seu ingresso como membro da Organização Mundial do Comércio em 2001 e lhe abriu definitivamente as portas para a globalização e catalisou seu progresso econômico.

Em 2018, o então candidato à presidência da república Jair Bolsonaro, num dos seus discursos anti-China, fez a seguinte “observação”: “Os chineses não estão comprando no Brasil. Eles estão comprando o Brasil”. Tomou como exemplo a empresa China Molybdenum que comprou uma mina de nióbio por US$ 1,7 bilhão no ano de 2016. Segundo Bolsonaro, o próprio Brasil deveria desenvolver o empreendimento. Também registrou sua oposição à privatização planejada de alguns ativos da estatal Eletrobras, em razão do temor aos compradores chineses.

Entre 2007 e 2020, os chineses direcionaram 48% dos investimentos no setor de energia elétrica, em terras brasileiras, no qual há presença marcante de gigantes estatais como State Grid (maior transmissora de energia chinesa) e da China Three Gorges que arrematou hidrelétricas que pertenciam à estatal Cesp e comprou ativos da Duke Energy. Ambas as empresas são ainda fortes concorrentes em projetos de privatização, como os da Eletrobras e Cemig.

Após passar parte da campanha fazendo duras críticas à China, Bolsonaro mudou o discurso após tomar posse e passou a defender um reforço no comércio bilateral. No final de out/2019, Bolsonaro fez uma visita de Estado à Pequim e assinou 11 acordos de cooperação, principalmente nas áreas de energia e agronegócio. Durante a viagem, o presidente convidou Xi Jinping a participar do megaleilão do pré-sal.  Segundo o jornal Folha de São Paulo, já prevendo a possibilidade de fracasso dos leilões do pré-sal, o presidente brasileiro teria aproveitado a viagem à China para pedir a Xi Jinping que petroleiras chinesas participassem dos certames.

Essa mudança de atitude do presidente, se fosse algum tempo atrás, seria visto com preocupação pelos militares, alegando que essas cooperações poderiam trazer instabilidade das instituições do país. Quando Jânio Quadros renunciou à presidência (1961), o vice João Goulart estava na China em uma delegação responsável por aproximar economicamente a China ao Brasil. João Goulart foi comunicado que deveria retornar ao Brasil para assumir a presidência. No entanto, ministros militares formaram uma junta para impedir a posse de João Goulart, alegando que essa presidência ocasionaria instabilidade das instituições do país.

Faz cerca de 10 anos que a China passou a ter uma participação mais ativa em concorrências para exploração de campos de petróleo no Brasil. Em 2012, um consórcio com a presença das estatais China National Petroleum Corporation (CNPC) e a China National Offshore Oil Corporation (CNOOC) venceu o leilão do campo de Libra, um dos maiores do pré-sal. No leilão do pré-sal, realizado em 2019, no campo de Búzios, foi vencida por um consórcio formado pela Petrobras com as empresas chinesas CNOOC e CNODC. Dois dias depois, em um novo leilão, a chinesa CNDOC foi a única empresa estrangeira a fazer uma oferta em consórcio com a Petrobras. Foi arrematada na concorrência o bloco Aram, o mais nobre entre os cinco oferecidos. Importante ressaltar, que atualmente, a China é o maior importador do petróleo bruto brasileiro e que o Brasil avançou para o posto de terceiro maior fornecedor de petróleo bruto para China.

A área portuária é um dos setores que tem crescido em interesse por parte do governo chinês, a estatal China Communications Construction Company (CCCC), está investindo R$ 2 bilhões na construção do Terminal de uso privado no porto de São Luís, capital maranhense, formando assim duas rotas de escoamento da produção agrícola brasileira, ao sul e ao norte do país. A mesma CCCC está neste momento negociando um novo projeto, desta vez em Santa Catarina, também para a área de grãos, como em São Luís. O valor envolvido é da ordem de R$ 1 bilhão.

Em 2017 a China Merchants Group, uma companhia controlada pelo governo chinês listada em bolsa, pagou R$ 2,8 bilhões pelo Terminal de Contêineres do Porto de Paranaguá, o segundo maior do Brasil.

No ramo agrícola, os chineses são sócios majoritários com 53,4% da Belagrícola, produtora de máquinas e equipamentos paranaense com faturamento de R$ 2,8 bilhões. 

Outros investimentos incluem ainda: a Shangai Pengxin Group/Fiagril (insumos agrícolas e grãos), a Fosun/Guide (corretora investimentos) e a DIDI (Uber chinês) que comprou a brasileira 99.

Mas há outras companhias de grande porte que estão presentes ou investem no Brasil, tais como: BYD (maior produtora de baterias e veículos elétricos do mundo), Chery (montadora de automóveis), Lenova (computadores), Midea (fabricantes de eletrodomésticos) e a Petro China Company (maior petrolífera da China) que já comanda milhares de postos em solo brasileiro.

As empresas chinesas efetivaram 176 empreendimentos no Brasil, entre 2007 e 2020, com aportes que somam US$ 66,1 bilhões. Em 2019, pela primeira vez o Nordeste atraiu a maioria do número de projetos chineses no Brasil, com participação de 34%, seguido por Sudeste (27%), Sul (15%), Norte (12%) e Centro-Oeste (12%). O Nordeste também liderou a atração de aportes em termos de valor, com mais da metade do capital investido naquele ano.

Estima-se que 34,5 mil empregos foram criados no Brasil entre 2003 e 2020 por conta da entrada de novos projetos chineses (greenfield), ao mesmo tempo que as aquisições de ativos já existentes mantiveram 140,4 mil postos de trabalho no país.

Num período em que a economia foi prejudicada pela pandemia, os investimentos chineses no Brasil caíram de 74% em 2020, mas somam US$ 66,1 bi em 14 anos.  Entrada de capital chinês no País somou US$ 1,9 bilhão em 2020, o menor valor desde 2014, segundo o Conselho Empresarial Brasil-China, mas se consolida como principal destino de investimentos de Pequim na América do Sul. Apesar disso, a corrente de comércio (soma de exportações com importações) com a China bateu recorde em plena pandemia, chegando a US$ 101 bilhões em 2020.

Principais produtos exportados para China em 2019: soja, óleo bruto petróleo, minério de ferro, celulose, carne bovina, carne de frango, ferro ligas, algodão em bruto, carne de suíno e minério de cobre. Os principais produtos importados da China pelo Brasil em 2019 foram: manufaturados, circuitos impressos, motores, geradores, transformadores elétricos, circuitos integrados, tecidos de fibra têxteis/sintéticas/artificiais, peças para veículos, automóveis, tratores, inseticidas, formicidas, herbicidas, produtos laminados de ferro ou aço, bombas, compressores, ventiladores, aparelhos eletromecânicos ou térmicos para uso doméstico, e plataformas de perfuração ou exploração, etc.

A globalização abriu as fronteiras do comércio e tem gerado consequências de longo alcance. Parece que as nações idealizadoras do processo de globalização não se preocuparam com o que iria acontecer no seu país depois de certo tempo. É irônico, mas uma das características do processo de globalização é que ele concentrou a manufatura num pedaço da Ásia.

No caso específico do Brasil, essa avalanche de investimentos dos chineses em nosso território me fez lembrar do professor e jurista Celso Ribeiro de Bastos, ao analisar a soberania brasileira, concluiu: “Ter a soberania como fundamento do Estado brasileiro significa que dentro do nosso território não se admitirá força outra que não a dos poderes juridicamente constituídos, não podendo qualquer agente estranho à Nação intervir nos seus negócios.”

Não estou querendo dizer que essa “avalanche” possa ser um risco para a soberania brasileira mas entendo que a sociedade brasileira tenha que ter clareza de todo o processo que envolve a venda de ativos público, e até privados, porque os políticos passam e as consequências perpetuam para muitas gerações.

Por exemplo, podemos lembrar que no governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ocorreu significativa venda de ações da Petrobras. Hoje, a União detém apenas 36,75% do capital total. O restante do capital ficou assim distribuído: 42,79% com investidores não-brasileiros e 20,46% com investidores brasileiros. Boa parte negociados na Bolsa de Nova York. Antes das vendas no governo tucano, a parte da União superava 80%.

Será que ainda temos a soberania sobre um dos nossos maiores patrimônio nacional? Já perdemos a maioria do capital total e agora estamos assistindo o desmanche da holding. Nos últimos dois anos, tivemos a venda da Petrobras Distribuidora, da rede de Gasodutos, de campos terrestre e marítimos, recentemente tivemos a venda da Refinaria Landulpho Alves (RLAM). Outras vendas de Refinarias já estão encaminhadas. Imaginem o que pode acontecer com nosso Pré-Sal.

Outro ponto importante é a aquisição de terras no território brasileiro. É fato notório que a China precisa ter acesso a mais alimentos. Dos 7,7 bilhões de habitantes do mundo, a China é responsável por alimentar, sozinha, 1,43 bilhão dessas bocas. Consequentemente, ela precisa assegurar terras que garantam o alimento de sua enorme população e crescente classe média. Os chineses já são os estrangeiros que mais possuem terras rurais nos Estados Unidos e na Austrália. No Brasil, é diferente, eles estão apenas em 9º lugar no ranking de terras em posse de estrangeiros. Aqui, o apetite chinês é freado pelas diversas restrições impostas para a aquisição de terras por quem não é do país, geralmente relacionadas ao tamanho da área a ser adquirida ou arrendada e ao percentual do território do município que já está nas mãos dos estrangeiros. Mas isso pode mudar, caso o Projeto de Lei nº 2963/2019 que foi aprovado pelo Senado Federal e atualmente tramita na Câmara de Deputados, seja também aprovado pela Câmara e depois sancionado pelo Presidente da República. O projeto de lei facilita a compra, a posse e o arrendamento de propriedades rurais no Brasil por pessoas físicas ou empresas estrangeiras

Os escândalos revelados pela Operação Lava Jato envolvendo as maiores empreiteiras do Brasil estão longe de serem vistos como fator de preocupação econômica ou de instabilidade política pelos investidores chineses. Pelo contrário, têm ajudado, já que os preços dos ativos caíram.

Esta conclusão vai na direção da afirmação do diretor para a área de infraestrutura da A.T. Kearney, Cláudio Gonçalves, que afirmou: “Hoje, o Brasil é um país que está barato, por conta do cenário político e econômico. E isso é visto como uma grande oportunidade pelo investidor chinês”.

Não tenho bola de cristal para dizer as consequências desse apetite desenfreado chinês. Por exemplo, o impacto causado por grandes projetos que facilitam a exploração de riquezas naturais brasileira. Como os vizinhos ao sul da China já sabem, o país não é exatamente o mais preocupado do mundo com danos ambientais. Que o digam aqueles que sofrem com secas e, consequentemente, com a fome, em função do controle de barragens chinesas sobre rios para geração de energia.

Lembrando da frase de Xiaoping: “Não importa se o gato é preto ou branco desde que cace ratos”. Para ele, não importava se o sistema econômico chinês era comunista ou capitalista, mas se ele funcionava.

Possivelmente para Xiaopin, a conquista de uma Grande China, não será com a espada, mas com a importante carteira de investimentos internos e externos. Bem, parece que o apetite da China não é pequeno, o mundo é que se cuide.

Política

Em

12 de outubro de 2021
9 min de leitura

Quando vamos revogar a “Lei de Gérson”?

Fonte: Acarlosoliveira

O Filósofo Sócrates (470-399 a.C) foi condenado a beber veneno por acusação de corromper a juventude, não honrar os deuses da cidade e violar as leis. Ele dizia: “Sabemos que os poderosos têm medo do pensamento, pois o poder é mais forte se ninguém pensar, se todo mundo aceitar as coisas como elas são, ou melhor, como nos dizem e nos fazem acreditar que elas são”.

A maior investigação criminal sobre corrupção no Brasil (Lava Jato), derrubou, dentre tantos outros, um dos mitos mais aceitos pelo ingênuo senso comum: o de que os responsáveis pela corrupção são apenas os funcionários e agentes do demoníaco Estado, destacando-se os políticos. Os números e as provas, demonstram que muitas fortunas (boa parcela delas) foram construídas por força da compra de favores e privilégios junto ao poder público. A corrupção jamais se tornaria sistemática nas proporções a que chegou sem a participação efetiva, a conivência e o estímulo dos agentes do mercado (econômico e financeiro). É praticamente impossível medir a proporção de efetividade de cada parte (Estado e mercado) na medonha corrupção brasileira.

A corrupção no Brasil tem se transformado numa espécie de luta dos bons contra os maus. Corrupto é sempre o outro. Temos que lembrar que é um ato corrupto quando alguém desafia a honestidade e ganha vantagem em cima de outra pessoa. Parar em fila dupla é corrupção também. “Quem é que garante que quando você para em uma fila de mão dupla não vai prejudicar alguém que está em estado grave numa ambulância?”. É honesto o cidadão pegar atestados médicos sem estar doente ou saquearcargas de veículos acidentados nas estradas?

As práticas designadas como corruptas e corruptoras não são idênticas, elas sofrem uma variação significativa no tempo e espaço, isto é, o fenômeno possui uma dimensão legal, histórica e cultural. No Brasil, em razão do nosso passado colonial, isso ficou bem evidente.

Segundo os historiadores, a corrupção chegou ao Brasil com as caravelas portuguesas. Para estimular um fidalgo português a deixar o conforto da Corte e se aventurar no território selvagem recém-descoberto, a coroa então era permissiva, deixava que trabalhassem aqui sem vigilância, para não abrir mão do Brasil. A concessão de cargos foi o mecanismo usado por Portugal para garantir seu domínio e explorar as riquezas da nossa colônia. Esses cargos trariam não somente prestígio social, mas, principalmente, vantagens financeiras.

Ressaltamos ainda o estimulo da coroa portuguesa para pessoas irem para o interior, dizia: “vão para o interior e podem mandar à vontade por lá”. Esses locais só eram acessíveis após meses de caminhada, o que exigia ainda mais “incentivos” para os “fidalgos-desbravadores”.

A escravidão também contribuiu para o desenvolvimento da corrupção no país. Isso porque era a única relação de trabalho existente, deixando o trabalho livre sem qualquer tipo de norma para regê-lo. A corrupção encontrou, desta maneira, em solo brasileiro, condições propícias para sobreviver e se difundir na cultura de novo país durante a sua formação. Propinas a governantes e funcionários reais era uma prática tolerada e até regulamentada por lei.

D. João VI, nos oito primeiros anos em terras brasileiras, distribuiu mais títulos de nobreza do que em 700 anos de monarquia portuguesa. O historiador Pedro Calmon uma vez disse que, para ganhar título de nobreza em Portugal, eram necessários 500 anos, mas, no Brasil, bastava 500 conto. O Banco do Brasil foi fundado e refundado várias vezes. A primeira delas foi em 1808, por Dom João VI. Ao voltar para Portugal, em 1821, Dom João VI pegou todo o dinheiro depositado no banco.

Os populares santos de pau oco são mais representativos da contradição entre a fé e cobiça do que da prática do contrabando de ouro e diamante. Fonte: Revistadehistória

O famoso “jeitinho brasileiro” já era notado nessa época. Basta lembrar da famosa expressão “Santo do pau oco”. Pedras preciosas e ouro eram contrabandeados para a Europa, dentro de imagens de santos católicos para escaparem dos altos tributos. Nem a padroeira do Brasil escapou da corrupção. Entre a colônia e o Império, a devoção a Nossa Senhora Aparecida foi explorada e doações foram surrupiadas. Durante o Império, padres foram afastados pela Coroa e civis foram nomeados para comandar a diocese e usufruir do poder político.,

No primeiro Reinado, a Marquesa de Santos, amante de Dom Pedro I, cobrava dinheiro para fazer indicações a cargos públicos. O imperador, segundo jornais da época, era suspeito de estar envolvido. O jornalista Borges da Fonseca chamava D. Pedro I, ironicamente, de ‘Caríssimo`, não por considera-lo um ‘Prezado` monarca, mas em referência às enormes verbas que a Casa Imperial consumia dos cofres público”.

 “Quem furta pouco é ladrão, quem furta muito é barão e quem furta e esconde passa de barão a visconde” (adágio do século 19). Uma indicação da permanente suspeita de corrupção no Império.

Durante o reinado de D. Pedro II, Ângelo Agostini, um importante cartunista da época, desenhou ratazanas gordas usurpando do Tesouro Nacional. A casa Imperial também possuía grandes verbas, como o chamado “Bolsinho do Imperador”, de caráter pessoal, do qual o monarca era dispensado de prestar contas. Cartão Corporativo da época.



A charge acima, publicada na revista Ilustrada, mostra os ratos que comiam o Tesouro Nacional (Segundo Reinado). Um detalhe curioso para os paranaenses: dois ratos levantam suspeitas sobre a construção da Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá e da obra do ramal ferroviário para Antonina (Fonte: Gazeta do Povo)

Com a proclamação da república (1889), cenário de corrupção pouco mudou. Fontes históricas sugerem, por exemplo, a continuidade da prática de pagamentos de propina, como no caso de concessões para construção de ferrovias durante a Primeira República.

Fonte: HH Magazine

Na República Velha não tínhamos sequer eleições para valer. O que tínhamos era o regime “café com leite”, o regime dos governadores, onde os governadores se reuniam e decidiam: “Essa é a vez daquele, aquela é a vez do outro”. Destacamos ainda o “voto de cabresto”, em que os coronéis locais determinavam em quem os eleitores tinham de votar. No dia da eleição o votante ganhava um pé do sapato e somente após a apuração das urnas o coronel entregava o outro pé. Caso o candidato não ganhasse o eleitor ficaria sem o produto completo.

A expressão “mar de lama” foi popularizada na segunda gestão do governo Getúlio Vargas. O Inquérito do Branco Brasil, Cexim (antigo CACEX) e Jornal Última Hora, foram três casos de corrupção envolvendo órgãos e agentes do governo, que contribuíram por fixar certa concepção social do que seja corrupção na sociedade brasileira nos anos 50.

O Regime Militar (1964) se firmou sob o pretexto de lutar contra a subversão e a corrupção porém não estava imune à corrupção. Embora não haja nenhuma denúncia de corrupção envolvendo diretamente os generais-presidentes, muitos outros militares e civis foram alvo de denúncias durante o regime. Mais de 1.100 processos foram instaurados pela Comissão Geral de investigações, ligado ao Ministério da Justiça, mas desse montante apenas 99 casos chegaram ao fim, com o confisco de bens aos envolvidos. Como a imprensa era censurada, muitos escândalos nem sequer chegavam aos jornais.



Fonte: Brasilefragilrepublica

Em 1974, o “Pasquim”, deu uma “cutucada” e publicou uma foto da ponte Rio-Niterói, com uma legenda mais ou menos assim: “Ilusão de ótica: onde vocês veem uma ponte, são onze pontes”.

Segundo a pesquisadora Heloísa Starling, o Presidente Castello Branco descobriu depressa que esconjurar a corrupção era fá­cil; prender corrupto era outra con­versa: “O problema mais grave do Brasil não é a subversão. É a corrup­ção, muito mais difícil de caracteri­zar, punir e erradicar”.

A redemocratização não impediu que o país continuasse a ser palco de grandes escândalos de corrupção. Afloraram principalmente por três fatores: maior liberdade de imprensa (sem censuras dos governos), atuação mais energética do Ministério Público e Promotores de Justiça e maior participação da população na política. O ex-presidente Fernando Collor sofreu impeachment em 1992 por denúncias de que tinha suas despesas pagas por meio de um esquema de corrupção. Anos depois, a emenda constitucional que garantiu a reeleição de Fernando Henrique Cardoso foi alvo de outra grande suspeita: os votos favoráveis no Congresso teriam sido comprados. Em 2005, o governo Lula foi palco do escândalo do mensalão. Pouco depois veio a Lava Jato, que criou a pressão popular para o impeachment de Dilma Rousseff. Ressaltamos ainda os escândalos corrupção do ex-governador Sérgio Cabral (RJ), do ex-presidente da Câmara Deputado Eduardo Cunha e outros políticos.

Pelo exposto, evidenciamos que as práticas que vemos hoje na política brasileira já remontam ao século XVI. O sistema político brasileiro (com raríssimas exceções) sempre foi um balcão de negócios e predominantemente um escritório de gerenciamento dos interesses das classes dominantes. Não devemos esperar que a corrupção seja suprimida da noite para o dia. A atitude de conformismo, passividade e alienação do cidadão alimenta a proliferação de maus políticos. Precisamos urgentemente, mudar nossos valores e atitudes. Vamos revogar a “Lei de Gérson”. Chega de levar vantagem em tudo!

Em meados dos anos 70, em pleno regime militar e o Brasil tricampeão mundial de futebol, um infame comercial de cigarro (Vila Rica) teve como garoto propaganda o nosso Gérson, o Canhotinha de Ouro, que protagonizou uma campanha publicitária e sem querer descreveu em uma frase o brasileiro e sua essência, Gérson finalizava o comercial dizendo: “gosto de levar vantagem em tudo”.

Política

Em

11 de outubro de 2021
3 min de leitura

O brasileiro foi feito de qual argila?

Durante a chamada ‘Guerra da Lagosta’ as aeronaves de patrulha da FAB tiveram papel fundamental na vigilância dos navios franceses. Na foto, o contratorpedeiro da Marinha Francesa Tartu é sobrevoado por um RB-17G da FAB.”Imagem, www.naval.com.br.

Quando eu era criança em Barbacena me disseram que a frase “O Brasil não é um país sério” foi dita pelo General De Gaulle. Por diversas vezes, em conversas com amigos, dizia essa frase e imputava a autoria ao general De Gaulle.  Recentemente lendo sobre a “Guerra da Lagosta” descobrir que temos controvérsias.

Fonte: Plushistória

A “Guerra da Lagosta”, foi um conflito diplomático envolvendo o Brasil e a França, que se desenvolveu entre 1961 e 1963, denominado jocosamente pela imprensa de guerra da Lagosta. O episódio faz parte da História das Relações Internacionais do Brasil, e girou em torno da captura ilegal de lagosta, por parte de embarcações de pesca francesas, em águas territoriais no litoral da região Nordeste do Brasil.

Os franceses estavam pescando a 30 milhas da costa brasileira, onde constataram haver maior quantidade de lagostas. O presidente, provavelmente sem pensar nas consequências do seu ato, deu instruções às autoridades para suspender a licença que permitia a pesca pelos franceses. A embaixada do Brasil em Paris ignorava tais ações do governo brasileiro, conforme relatado por Carlos Alves de Souza, embaixador em Paris na época, em seu livro “Um embaixador em tempos de crise”. Quando pesqueiros franceses foram apreendidos pela Marinha brasileira, Souza ficou sabendo pelo governo francês.

Em decorrência de tais fatos, o embaixador Souza foi chamado para se encontrar com o presidente De Gaulle. O general fez um histórico sobre o caso da lagosta, a permissão do presidente Goulart para a pesca, o sequestro dos pesqueiros, as notícias inverídicas da imprensa brasileira e as críticas a ele e à França.

Foto: Capa do Livro Guerra da Lagosta – Editora Traça

Após esse encontro com o general De Gaulle, Souza encontrou-se com o jornalista Luiz Edgar de Andrade, ex editor-chefe da TV Globo. Preferiu não comentar sobre a entrevista com o general De Gaulle mas falou ao jornalista sobre o tal samba carnavalesco “A Lagosta é nossa”, as caricaturas do presidente De Gualle. Terminou a conversa dizendo: Luiz Edgar, “le Brésil n’est pas um pays sérieux, conta no livro. Segundo o embaixador, foi daí que a frase se popularizou.

“Na minha vivência de mais de 50 anos nos meios militares, diplomáticos, políticos e sociais, cheguei a duas conclusões melancólicas. A primeira é a de que a argila, da qual foi feita o brasileiro, não é de boa qualidade. E a outra, em que foi acertada minha frase, atribuída a De Gaulle: “o Brasil não é um país sério”, diz Souza ao encerrar o livro”.

Dificilmente vou saber se essa frase foi realmente dita pelo ex-embaixador Carlos Alves de Souza ou pelo General De Gaulle.  Todavia a leitura sobre “Guerra da lagosta” reforçou ainda mais meu cuidado com a divulgação do que leio e escuto. Uma coisa tenho certeza, é uma frase para que façamos duas boas reflexões. Não se a lagosta é um prato delicioso mas qual argila fomos feito e a seriedade dos governantes desse país. O que vocês acham?

Comunicação

Em

11 de outubro de 2021
5 min de leitura

Slogans que fizeram história na política brasileira

Fonte: Google

Em fevereiro de 1987 começou minha caminhada no Estado do Rio Grande do Norte. Na oportunidade o empresário Geraldo Melo tinha acabado de vencer as eleições para governador com o slogan “Novos tempo, Novos Ventos”. Normalmente os slogans usados nas campanhas eleitorais tornam-se gritos de guerra dos militantes partidários e, com certeza, não saem da cabeça de nenhum iluminado.

Embora a história da propaganda política no Brasil seja recente, a contribuição do slogan tem sido uma peça essencial de uma campanha política.

Os slogans eleitorais devem ser de fácil lembrança, com palavras simples. Rimas, trocadilhos e palavras bem humoradas ajudam no fator lembrança, como: “Não vote em branco, vote Negrão de Lima’ (Campanha no Rio de Janeiro para Governador); “Chega de malas, vote em Bouças”; “Não vote sentado, vote em Pé”; “Vote com prazer” (candidata stripper no Ceará); Vote em Difunto, porque político Bom é político Morto” (candidato chamado Difunto); “Seu voto? não chute… vote na Ruth?”; “Linguiça Neles” (candidato Linguiça de Cotia-SP). “Rouba mas faz” (Ademar de Barros/Paulo Maluf). Esse foi um slogan popular, que surgiu em épocas distintas para os dois candidatos.

Na eleição de 1920 para presidência da república, o candidato Artur Bernardes foi apelidado de “Seu Mé” pelos seus hábitos etílicos (imprimindo-lhe o rótulo de “Seu Mé”, para qualificar quem tomava aguardente em excesso).”

Alguns predicados foram exaltados no slogan do Brigadeiro Eduardo Gomes na eleição presidencial de 1945. “Vote no brigadeiro, ele é bonito e é solteiro”. Significando que ele poderia ser um bom presidente por estas razões.

Candidato Brigadeiro Eduardo Gomes

Nas eleições presidenciais de 1960, o candidato Jânio Quadro queria varrer a corrupção que assolava o país na época, então utilizou o slogan “Varre, varre vassourinha”. A vassoura era um objeto que a maioria da população possuía em sua própria casa, desta forma seria possível, com a autoridade moral do candidato, acabar com a corrupção no país.

A repetição deu ao “Meu nome é Enéas” (1989) a característica para que o candidato obtivesse com apenas 30 segundos diários, mais de um milhão de votos. O candidato Enéas repetia e interpretava este slogan, que beirava o ridículo, mas cujo resultado em termos de memorização e eficiência foi ótimo

Fonte: Capa da Veja

O slogan “Caçador de Marajás” foi usado pelo candidato Collor de Melo nas eleições presidenciais de 1989. Usando a imagem de que um “marajá” era um funcionário público que ganhava muito e não trabalhava direito, o então candidato, reprisando a mensagem da “vassoura” de Jânio, igualmente prometia limpar a corrupção do funcionalismo público no país.

“Sem medo de ser feliz”, slogan de Luiz Inácio Lula da Silva na eleição presidencial de 1989. As pesquisas mostravam que a classe média tinha medo de votar em Lula para Presidente. Assim nasceu o slogan que combatia esse conceito.

Fonte: Centro Sérgio Buarque de Holanda

Fonte: Carta Maior

Na eleição presidencial de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro adotou o slogan “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Esse slogan é uma apropriação de brado da Brigada de Infantaria Paraquedista do Exército. Em artigo, o coronel Cláudio Tavares Casali, esclareceu que o lema foi muito questionado devido a semelhança com o brado nazista de “Alemanha acima de tudo” (no alemão, “Deutschland Über alles”) mas que a origem foi realmente o brado da Infantaria Paraquedista, surgido no final da década de 1960. 

Temos ainda slogans durante o regime militar (1970): “Brasil, ame-o ou deixe-o”; “Ninguém segura esse país”; “Este é um pais que vai pra frente”; “Eu te amo meu Brasil”.

Fonte: Propaganda Governo
Fonte: Jornal a Verdade

Não podemos esquecer do slogan “O Petróleo é nosso”. Segundo a médica e ativista política brasileira Maria Augusta Tibiriçá, a campanha do petróleo é nosso foi efetivamente, a maior e mais original contribuição de uma atitude nacionalista brasileira democrática. Talvez hoje esse slogan seja: “O petróleo ainda é nosso?”.

Pelo que evidenciamos, a criatividade não tem faltado na criação dos slogans. Infelizmente os candidatos não têm honrado com seus slogans, mas não devemos desanimar. Vamos continuar com a esperança que tenhamos Novos tempos, Novos ventos nesse nosso amado Brasil, afinal são apenas 132 anos de república.

Concluímos com a frase do Sir Winston Churchill: “O político precisa ter habilidade de prever o que vai acontecer amanhã, semana que vem, mês que vem e no ano que vem. E a habilidade de explicar porque não aconteceu”.

Política

Em

10 de outubro de 2021
4 min de leitura

Aprendemos alguma lição com a Revolta da Vacina ocorrida em 1904?


A charge da revista O Malho, de 29 de outubro de 1904, parecia prever a revolta que se instalaria na cidade poucos dias depois: nem com um exército, o “Napoleão da Seringa e Lanceta”, como muitos se referiam a Oswaldo Cruz na época, conseguia conter a fúria da população contra a vacinação compulsória (Acervo Fiocruz)

Nos últimos tempos tenho intensificado minha leitura sobre História do Brasil e da Humanidade com objetivo de entender um pouco mais da política brasileira nos dias atuais, jogada num fosso profundo de uma crise de intolerância e sem líderes. “Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la” (filósofo Edmund Burke). Em outras palavras: “Um povo sem história está fadado a cometer no presente e no futuro os mesmos erros do passado” (Historiadora Emília Viotti).

Os acontecimentos na saúde pública me trouxeram a lembrança os fatos ocorridos na Revolta da Vacina, uma insurreição popular ocorrida no Rio de Janeiro no período de 10 a 16 novembro de 1904 contra a vacina anti-varíola. Quando o presidente Rodrigues Alves assumiu o governo, nas ruas da cidade do Rio de Janeiro acumulavam-se toneladas de lixo. Desta maneira o vírus da varíola se espalhava. Proliferavam ratos e mosquitos transmissores de doenças fatais como a peste bubônica e a febre amarela que matavam milhares de pessoas anualmente.

Foto: MultiRio

Era necessário combater o mosquito e o rato, transmissores das principais doenças. Primeiro, o governo anunciou que pagaria a população por cada rato que fosse entregue às autoridades. O resultado foi o surgimento de criadores desses roedores a fim de conseguirem uma renda extra. Devido às fraudes, o governo suspendeu a recompensa pela apreensão dos ratos.

De forma a melhorar o saneamento precário e combater as doenças, o presidente Rodrigues Alves nomeou para diretor geral da Saúde Pública o médico sanitarista Oswaldo Cruz. Uma das propostas do médico para combater a doença foi a vacinação obrigatória contra a varíola, para todo brasileiro com mais de seis meses de idade. Oswaldo Cruz trouxe uma regulamentação ainda mais problemática. O governo passaria a exigir comprovantes de vacinação para que as pessoas pudessem matricular seus filhos nas escolas, começar em empregos, viajar, se hospedar na cidade e, até mesmo, se casar. Quem se negasse a ser vacinado seria multado.

Quando o conteúdo da proposta de Oswaldo Cruz chegou às mãos da imprensa, o povo iniciou a maior revolta urbana do Rio de Janeiro até então. Políticos, militares de oposição e a população da cidade se opuseram a vacina. A imprensa não perdoava Oswaldo Cruz dedicando-lhe charges cruéis ironizando a eficácia do remédio.

Espalhou-se por vários bairros da cidade, o conflito envolveu uma violenta repressão policial. Seis dias após ter sido iniciado, 945 pessoas foram presas, 100 feridos, 30 mortos e 461 deportadas para o Estado do Acre chegava ao fim a Revolta da Vacina. Em decorrência do conflito, o governo suspendeu a obrigatoriedade da vacinação, declarando estado de sítio. Exército, Marinha e Polícia foram para as ruas, repreendendo o conflito, e restabeleceram a ordem no Rio de Janeiro.

Foto: Wikipedia

É interessante observar que durante a Revolta, os militares tentaram usar a massa popular insatisfeita com um pretexto para a tentativa de um golpe, que não obteve sucesso contra o presidente Rodrigues Alves.

Outro ponto importante em ressaltar a falta de tato do governo no esclarecimento acerca da vacina. A grande maioria da população, formada por pessoas pobres e desinformadas, não conheciam o funcionamento de uma vacina e seus efeitos positivos. Numa sociedade onde as pessoas se vestiam cobrindo todo o corpo, mostrar os seus braços para tomar a vacina foi visto como “imoral”. 

Muitos estudiosos apontam que os motivos da Revolta da Vacina, em todas as classes sociais, foram a junção entre a política de tratamento com a população pobre e o sentimento de “invasão dos lares” das famílias mais ricas, obrigadas a se vacinarem.

Movimentos populares como a Revolta da Vacina ajudam a contar a história do Brasil, demonstrando o contexto em que estão inseridos e a maneira como esses conflitos se dão. Mais do que uma insatisfação contra a Lei da Vacina Obrigatória, a Revolta simboliza o período conturbado pelo qual passou o Rio de Janeiro, principalmente pelo caráter higienista e excludente adotado pelos governantes da época. Estes fatos ocorreram em 1904. Aprendemos a lição?