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02 de abril de 2026 • 12 min de leituraUma vida sem religião é como um barco sem leme
Por José Viana
É natural do Rio de Janeiro. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba e Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Trabalhou 30 anos na Petróleo Brasileiro S.A. Atualmente aposentado.

Nos dias atuais temos um profissional denominado de “Influenciador Digital”. O mesmo cria conteúdo para as mídias sociais a partir da sua rotina. Ele tem como objetivo atrair e influenciar o público. Assim, eles vão inserindo produtos e serviços utilizados no seu dia a dia, contextualizando de maneira natural a propaganda.
Podemos também denomina-los de “Formadores de Opinião”. Na verdade desde que o mundo é mundo temos os formadores de opinião que são pessoas que tem a capacidade de influenciar e modificar a opinião de outras pessoas nos campos político, religioso, social, moral, cultural, econômico, esportivo, alimentar, etc.
Já em 1760, no que alguns definem como primeira fase de influencers, a marca de porcelana inglesa Wedgwood já contava com a rainha Charlotte como garota-propaganda. Atualmente, qualquer um pode ser um influenciador, não precisa ser rainha nem ao menos celebridade do cinema. Basta ter um número significativo de seguidores leais e uma boa taxa de engajamento.
Existem muitos influenciadores que podem gerar conteúdos e aprendizados positivos, porém alguns comportamentos precisam ser acompanhados de perto, principalmente em se tratando de jovens e crianças
Sendo bem específico ao campo religioso, podemos afirmar que pastores protestante, escritores espírita, monges budista, padres católicos, são importantes formadores de opinião, pois podem determinar a conduta das pessoas, não apenas na parte religiosa, mas também no modo de vida pessoal.
A religião sempre esteve presente na vida do homem, inerente ao nosso desenvolvimento, independente da sua forma ideológica. Foi um dos fatores que permitiram nossa espécie se sobressair a todas outras espécies terrestres.
Dentro desse contexto, ao longo da história percebe-se desde os primórdios a influência da religião no convívio social e político. Nas sociedades antigas, podemos observar cerimônias e símbolos através de manifestações religiosas.
Na Grécia antiga a influência da religião estava presente e regulamentava todos os aspectos da vida. Não havia guerra ou fundação de colônias, promulgação de leis ou tratados, ajuste de matrimônios ou contratos, que não necessitasse da proteção de uma divindade, cuja atenção era solicitada com os atos de culto adequados e os sacrifícios necessários. Os romanos também tinham a religião como um ponto de forte influência em suas decisões de convívio social e político, como por exemplo, ao consultar o oráculo para fins de se constatar um eventual sucesso no campo de batalha. A religião garantia ordem estabelecida e excluía todo o poder fundamentado no medo, pois o relacionamento com os deuses era feito de forma racional. No antigo Egito a influência da religião na vida social e política também foi latente. A civilização egípcia tinha toda a vida social, econômica, cultural e arquitetônica moldada pela religião. A religiosidade do povo egípcia estava estreitamente ligada a religião dos faraós e sua relação com o sagrado se deu de forma politeísta. Porém, quando a figura do faraó se atrela ao poder político, se inicia processo de centralização do poder e o controle a vida em sociedade legitimada pela sua autoridade suprema e divina.
Na Idade Média vimos a hegemonia da Igreja Católica em termos de influência social e política. O cristianismo foi assimilado e, depois da queda do Império Romano no Século V, a Igreja se tornou a autoridade dominante na Europa Ocidental, permanecendo assim quase mil anos. A Igreja se posicionava como a ponte entre o homem e Deus e detinha a última ou a única palavra sobre o que deveria ser a vida de seu rebanho e sobre o que era o bem e o mal, o certo e o errado, o justo e o injusto. Mas nem tudo foram flores. Diante do poder e da influência social e política que a igreja conquistou durante a Idade Média, a Igreja Católica utilizou do chamado “venda de indulgências. Pagamento monetário pelo perdão espiritual dos pecados. Foi um mecanismo criado para obter vantagens econômicas e políticas em meados da Idade Média. Esta venda do perdão dos pecados foi uma das principais causas do movimento de reformas religiosas feito pelo monge Martinho Lutero.
Interessante que nos dias atuais, nós vemos cada vez mais igrejas abrirem suas portas, seus líderes religiosos clamam verdadeiros discursos perante os fiéis, normalmente cobrando dízimo em troca de uma vida melhor após a morte, vendendo artefatos ditando serem os mesmos milagrosos, dentre outras atividades religiosas em troca de dinheiro.
Não tenhamos dúvida que a política e a religião sempre se misturaram. Durante milênios o poder político emanou da fé. Apesar de sempre se misturarem, podemos afirmar que sempre foram dois assuntos polêmicos. Quando os dois universos se juntam, as discussões podem ser ainda mais intensificadas.
Para muitos católicos os religiosos não devem se meter em política. Na verdade, raramente um padre, por exemplo, entra para a política e quando isso ocorre a Igreja Católica os afasta temporariamente. Diferente dos evangélicos que atualmente estão bastante atrelados na vida política. Esse fato pode ser comprovado no número cada vez maior de políticos cristãos nas várias esferas, chegando ao ponto de existir o que se chamou “bancada evangélica” no Congresso. Atualmente o Congresso Nacional possui 228 integrantes evangélicos 202 deputados federais e 26 senadores.
Estas lideranças religiosas, quando ocupam cargos políticos, baseiam seus discursos em certa tradição bíblica, cuja moral separa o certo e o errado, o bem e o mal e, com isso, conquistam o voto dos religiosos.
Na minha opinião, ninguém é proibido de participar da política e a religião é livre. Porém, usar o proselitismo religioso para impulsionar a carreira política, ou apresentar-se como representante político de uma religião, são desvirtuamentos da democracia.
O que me parece que o problema recai apenas com padres ou bispos quando falam de política e denunciam atitudes que atentam contra a vida do ser humano. Condenar simplesmente um sacerdote porque ele falou de questões políticas é muitas vezes o falso julgamento de quem desconhece o conteúdo de dezenas de pronunciamentos e documentos da Igreja em matéria de Doutrina Social. Agora, tomar partido envolve o risco de dividir, por isso, os padres não podem intervir diretamente na ação política partidária, nem na organização sindical. À luz do Evangelho, o Ensino Social da Igreja trata de política, economia, organização social, vida plena com justiça, paz, boas condições de trabalho, respeito recíproco e, acima de tudo, dignidade humana.
A Bíblia mostra claramente que nem Jesus, nem os primeiros cristãos se envolveram na política. E nem apoiou questões políticas. Por exemplo, nos dias de Jesus, os judeus não queriam pagar impostos ao governo romano, porque achavam que isso era injusto. Eles tentaram fazer com que Jesus desse uma opinião sobre se esses impostos eram justos ou não, mas Jesus se recusou a tomar partido nessa questão política. Ele disse: “Paguem a César o que é de César, mas a Deus o que é de Deus.” (Marcos 12:13-17). Ele não se envolveu na política porque sabia que não são os governos humanos, mas sim o Reino de Deus que vai realizar a vontade de Deus na Terra. (Mateus 6:10).
Não podemos esquecer que Jesus não morreu de alguma doença, deitado numa cama, nem de desastre de camelo, em uma esquina de Jerusalém. Ele morreu como um prisioneiro político: foi preso, torturado, julgado por dois poderes políticos e morto pelas forças de opressão do Estado. Na verdade, a religião mudou profundamente a sociedade romana, mais entre suas massas populares que no nível político.
A influência da religião na vida social e política no Brasil, remonta desde a tentativa de cristianização dos índios e negros após sua descoberta pelos europeus e sempre se mostrou presente até os dias atuais. Até os anos 1980, pelo menos, a Igreja Católica teve considerável incidência na vida política brasileira. Os generais-presidentes da República tinha o poder de nomear todos os cargos administrativos, mas não interferiam na nomeação dos cardeais e nem dos bispos. Interessante que não cassavam os prelados e abades católicos que desafiavam ou enfrentavam o regime como Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, Dom Aloísio Lorscheider, o cardeal arcebispo de Fortaleza, Dom José Ivo Lorscheiter, por exemplo. Nessa época, grande parte da Igreja Católica se movia pelo princípio da opção preferencial pelos pobres, pela doutrina da Teologia da Libertação e pela ideia de que a Fé tem que transformar a vida social. O movimento nunca foi totalmente censurado pelo Vaticano, mas sofreu questionamentos quanto a algumas aproximações suas com o marxismo durante o pontificado de João Paulo II.
Quanto o dueto religião e guerra, infelizmente são dois temas que muitas vezes se cruzam. Desde as Cruzadas em 1095 até hoje em dia, vimos inúmeros conflitos travados em nome da fé. Todavia, a causa original de qualquer guerra ou conflito é complexa e cheia de nuances, e há muitos fatores em jogo, como poder, ideologia, dinheiro, território e identidade. O Estado Islâmico pratica uma versão extrema do Islã, e não pensa duas vezes antes de derramar sangue para lograr seus objetivos.
O comunismo, o fascismo, o socialismo e o nacionalismo, todos eles, encararam a religião como a maior ameaça ao projeto que tinham para criar novas sociedades, pois em muitos casos era ela um importante acessório do regime que os revolucionários queriam derrubar. Em consequência, deu-se uma investida sem precedentes contra edifícios religiosos, clérigos e fiéis.
O conflito entre israelenses e palestinos do Hamas remonta à declaração de independência de Israel em 1948, um país que desde a sua fundação tem vivido conflitos com os seus vizinhos, principalmente países árabes e muçulmanos. Os desentendimentos tiveram origem há quase 100 anos e envolvem caráter religioso e político.
Hoje em dia, na minha opinião, a religião continua a ser uma herança muito preciosa. Preservar adequadamente esta herança exigirá um respeito renovado pela liberdade religiosa e pelos princípios democráticos que a sustentam.
Apesar de já ter diversas vezes ouviu a máxima de que “religião não se discute”, que se trata de uma escolha pessoal e individual, entendo que é importante observar como a questão religiosa influencia em nosso cotidiano e sociedade de maneira geral. É necessário também atentarmos nos efeitos psicológicos do fanatismo religioso. Seguir cegamente uma religião, ou qualquer outra ideologia, simplesmente significa restringir sua percepção da vida.
Muitos que dizem ser pastores de Deus, exploram a ingenuidade e a fragilidade do povo, utilizando a falta de conhecimento e a ingenuidade deste para se darem bem às custas de pessoas simples e humildes, fazendo jus ao título de “lobos”, que é dado a eles pelo próprio Cristo.
Outro ponto importante é lembrarmos que à medida que o mundo se tornou mais secularizado e pluralista, e que as questões sociais se tornaram cada vez mais complexas, a religião passou a ser alvo de críticas e controvérsias. O que não podemos esquecer, é que as organizações religiosas são formadas por pessoas que podem ser extremistas ou tolerantes.
De qualquer forma ao longo dos séculos, a religião tem desempenhado um papel central na vida das pessoas, oferecendo conforto espiritual, orientação moral e um senso de comunidade. A religião e a liberdade religiosa contribuem para uma sociedade mais pacífica, estável e caridosa, todavia sem fanatismo.
A partir de um ponto de vista comum entre todas as pessoas, até mesmo aquelas que não têm assiduidade em uma igreja, entende-se que religião se refere a uma ligação do ser humano a Deus, por meio da dimensão espiritual motivada pela fé. Portanto a religião pode ser uma força positiva para promover a paz, a justiça social e a solidariedade global, desde que seja praticada com responsabilidade, empatia e sem escrupulosos, que exploram a ingenuidade e a fragilidade do povo.
Apesar de todas as controvérsias, corroboro com o pensamento de Mahatma Gandhi: “Uma vida sem religião é como um barco sem leme”.
Uma coisa tenho certeza. Tanto Buda, Jesus e Maomé eram mestres que ensinavam o Amor. O amor era a sua religião.
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Excelente artigo.
Parabéns Viana . Um perfeito artigo.