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01 de junho de 2026 • 14 min de leituraO SANFONEIRO QUE AMOU E CANTOU A HISTÓRIA DO POVO NORDESTINO
Por José Viana
É natural do Rio de Janeiro. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba e Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Trabalhou 30 anos na Petróleo Brasileiro S.A. Atualmente aposentado.

Diferente de muitos brasileiros que conheceram Luiz Gonzaga, o Rei do Forró, através da música Asa Branca, meu primeiro encontro com as obra de Luiz Gonzaga aconteceu com a música Xote das Meninas, ainda na infância. Foi durante uma visita que meus pais fizeram a uma prima de meu pai, que morava em Campina Grande, cidade fortemente ligada à cultura nordestina e ao forró. Um dos filhos dessa prima, havia ganhado da namorada um compacto disco. Entre as faixas, estava a música Xote das Meninas. Encantado, ele passava um bom tempo ouvindo aquela canção, repetidas vezes, como se cada acorde e cada verso guardassem algo especial. A canção retrata a transição da infância para a adolescência no sertão nordestino.
Independentemente dessa minha “descoberta”, a música Asa Branca, lançada em 3 de março de 1947, foi eleita a mais a significativa música popular brasileira (MPB) do último século (1925-2025), em um ranking promovido pelo jornal O Globo (2025). Uma prova da relevância dessa música na história da MPB é que, apesar de ter sido composta na década de 1940, ela talvez seja uma das canções brasileiras, com maior número de regravações.
Luiz Gonzaga do Nascimento, conhecido como o Rei do Baião, foi um ícone da música nordestina e deixou um legado incomparável que transcende a cidade que nasceu, Exu -Pernambuco, em 13 de dezembro de 1912, e faleceu em 1989. Filho de Januário José dos Santos, o mestre Januário, “sanfoneiro de 8 baixos”, e de Ana Batista de Jesus.
Da seca da Asa Branca até as belezas do luar do sertão, Gonzaga cantou de tudo e deu o som de uma região marcada pela força do seu povo, da Bahia ao Maranhão. Com seu chapéu de couro, gibão e sanfona, Gonzaga deu visibilidade à cultura nordestina de uma forma autêntica, criando uma ponte cultural entre o sertão e o resto do país. O Rei do Baião gravou 627 músicas em 266 discos: 53 músicas de sua autoria, 243 de sua autoria com parceiros e 331 de outros compositores. Conseguiu mostrar o Brasil para o Brasil através de uma escolha maravilhosa de parceiros incríveis, tais como Zé Dantas, Humberto Teixeira, João Silva.
Gonzaga denunciou a fome, a pobreza e a violência sofridas pelo nordestino em suas músicas e com seus parceiros. Suas composições retratam as paisagens, os costumes, os desafios, a saudade e as alegrias do povo sertanejo. Não tenho dúvida que quem estuda suas canções viajando pelo Nordeste, percebe o Nordeste das suas canções. E é exatamente isto que vamos fazer nas próximas linhas.
Começando exatamente por Asa Branca. “Quando olhei a terra ardendo. Qual fogueira de São João. Eu perguntei a Deus do céu, ai. Por que tamanha judiação. Que braseiro, que fornalha. Nem um pé de plantação. Por falta d’água perdi meu gado. Morreu de sede meu alazão. Até mesmo a asa branca. Bateu asas do sertão. Depois eu disse adeus Rosinha. Guarda contigo meu coração”. A letra apresenta uma linguagem simples e regional para mostrar a dor da seca, a perda e a esperança de retorno. A escolha da asa-branca destaca que a situação é tão extrema que até mesmo os animais precisam abandonar a região, servindo como um termômetro do sofrimento local. No último verso ele diz “Quando o verde dos teus olhos. Se espalhar na plantação. Eu te asseguro, não chore não, viu. Que eu voltarei, viu. Meu coração”. A música denuncia a dureza do sertão, mas também valoriza o apego à terra natal e a esperança de dias melhores, representada pela espera da chuva e pelo desejo de reencontro.
Bem, quanto a música “O Xote Das Meninas”, Luiz Gonzaga, usa a floração do mandacaru como símbolo das mudanças. Uma descrição poética e bem-humorada da transição da infância para a adolescência feminina (puberdade). “Mandacaru quando fulora na seca. É o sinal que a chuva chega no sertão. Toda menina que enjoa da boneca. É sinal que o amor já chegou no coração. Meia comprida, não quer mais sapato baixo. Vestido bem cintado, não quer mais vestir timão. Ela só quer, só pensa em namorar”. Assim como o mandacaru floresce e anuncia a chegada da chuva no sertão, a menina da música começa a deixar de lado os brinquedos e a se interessar por namorar, mostrando o início de uma nova fase em sua vida.
Em suas canções Luiz Gonzaga, retrata também de forma clara a presença marcante da fé católica no cotidiano do povo nordestino Na música “Ave Maria Sertaneja”, composta por Júlio Ricardo e Osvaldo de Oliveira, o Rei do Baião retrata de forma clara a presença marcante da fé católica no cotidiano do povo nordestino. Nela ele compartilha sua própria devoção. Logo no início, o verso “Quando batem as seis horas. De joelhos sobre o chão. O sertanejo reza a sua oração. Ave Maria. Mãe de Deus Jesus. Nos dê força e coragem. Pra carregar a nossa cruz”. Significa a profunda fé e resiliência do povo do sertão, retratando a devoção à Virgem Maria. É um pedido de força para “carregar a cruz” e uma expressão de gratidão e esperança, mesmo nas adversidades.
A música “Acácia Amarela” de Luiz Gonzaga é uma homenagem à Maçonaria, celebrando seus ideais de fraternidade, justiça, perfeição e trabalho para o bem comum. Quando Gonzaga canta “Ela é tão linda é tão bela / Aquela acácia amarela / Que a minha casa tem”, ele faz referência direta à presença desses ideais em sua vida e ambiente, demonstrando orgulho e respeito pela instituição maçônica. A acácia amarela, mencionada no título e na letra, é mais do que uma árvore: na Maçonaria, ela representa pureza, imortalidade e ressurreição. A música usa a linguagem poética do baião para tornar acessíveis e acolhedores os símbolos e princípios da Maçonaria, mostrando o orgulho de Gonzaga por essa instituição.
A música “Xote Ecológico” de Luiz Gonzaga e Aguinaldo Batista alerta para os perigos da poluição e da degradação ambiental, destacando a morte do solo, a escassez de água e a destruição da flora e fauna. A letra traz frases repetidas como “Não posso respirar, não posso mais nadar” e “A terra está morrendo, não dá mais pra plantar”, evidenciando como a poluição e o uso predatório dos recursos naturais afetam diretamente a vida das pessoas, desde necessidades básicas como ar e água até elementos culturais, como a “pinga da boa”. O xote é um alerta urgente sobre a interdependência entre a natureza e a sociedade, pedindo por consciência coletiva para evitar um futuro sem os recursos essenciais.
Já na música “Respeita Januário” fala sobre a volta de Luiz Gonzaga ao sertão após anos no Rio de Janeiro. Aborda de forma leve e orgulhosa a relação entre sucesso pessoal e respeito às raízes familiares. A canção celebra o pai como um sanfoneiro experiente e uma figura de grande valor na família e na comunidade, mesmo com a ascensão do filho como artista famoso. Esta observação fica bem clara no verso “Lui respeita Januário. Lui respeita Januário. Lui, tu pode ser famoso, mas teu pai é mais tinhoso. E com ele ninguém vai, Lui, Lui. Respeita os oito baixo do teu pai”. Reforça a mensagem de que, apesar do sucesso e da modernidade do filho, o pai é um mestre experiente e com valor inestimável. A música celebra a humildade, a importância das origens e o reconhecimento daqueles que vieram antes, tudo com o tom descontraído e espirituoso característico do Nordeste brasileiro.
Em “Que Nem Jiló”, Luiz Gonzaga utiliza o jiló, fruto típico do Nordeste conhecido pelo sabor amargo, como metáfora para a intensidade da saudade. “Ai quem me dera voltar. Pros braços do meu xodó. Saudade assim faz roer. E amarga qui nem jiló. Mas ninguém pode dizer. Que me viu triste a chorar. Saudade, o meu remédio é cantar”. A canção destaca a resiliência do povo nordestino, mostrando que, mesmo diante da dor, há espaço para superação. A música oferece um alívio para a dor, sugerindo que cantar é um remédio para a saudade.
A música “Paraíba”, apresenta de forma clara as dificuldades vividas pelo povo nordestino, especialmente durante os períodos de seca. Um dos pontos centrais da canção é a expressão “Paraíba masculina, muié macho, sim sinhô”. Ele faz homenagem à Paraíba, retratada como um estado “pequenino, feminino, mas que transformou a nação inteira”. O verso “Quando a lama virou pedra e Mandacaru secou” retrata a gravidade da estiagem, mostrando que até o mandacaru, planta símbolo de resistência, não sobrevive à falta de água. A música “Paraíba” se transformou em um símbolo de orgulho e identidade regional para o Nordeste.
“ABC do Sertão”, de Luiz Gonzaga, transforma o aprendizado do alfabeto em uma celebração da identidade cultural nordestina. “Lá no meu sertão, pro caboco ler. Tem que aprender um outro ABC. O J é ji, o L é lê. O S é si, mas o R tem nome de rê. O J é ji, o L é lê. O S é si, mas o R tem nome de rê. Até o Y, lá é pissilone. O M é mê, e o N é nê. O F é fê, o G chama-se guê. Na escola é engraçado ouvir-se tanto ê”. A música destaca como até mesmo a forma de ensinar e pronunciar as letras que refletem as particularidades do sertão. Assim, “ABC do Sertão” vai além de uma simples lista de letras: é um retrato carinhoso do cotidiano, da oralidade e da riqueza cultural do sertão brasileiro.
A música “A Vida do Viajante” é uma celebração da vida nômade, mas com um tom melancólico, falando sobre a busca constante pela felicidade e as experiências acumuladas ao longo da jornada. “Minha vida é andar por esse país. Pra ver se um dia descanso feliz. Guardando as recordações das terras onde passei. Andando pelos sertões e dos amigos que lá deixei. Chuva e sol, poeira e carvão. Longe de casa, sigo o roteiro. Mais uma estação e alegria no coração”. A letra contrasta a alegria que o viajante mostra para os outros com a saudade profunda de casa e dos amigos deixados para trás. Ela usa metáforas como “chuva e sol” e “poeira e carvão” para simbolizar as diversas adversidades e belezas do caminho. A canção retrata a experiência do migrante nordestino, que se desloca para fugir da seca do sertão. Expressa o desejo de encontrar descanso e felicidade através da viagem pelo Brasil.
Em 1959, ano que eu nasci, o Rei do Baião, colocou música na letra da “Marcha da Petrobrás”, resultado de uma parceria entre Nélson Barbalho e Joaquim Augusto. A “Marcha da Petrobrás” é uma música de exaltação ao monopólio estatal do petróleo no Brasil. “Brasil, meu Brasil. Tu vais prosperar, tu vais. Vais crescer ainda mais com a Petrobras. Agora a coisa vai mudar. O sangue da terra vai jorrar. Porque o Nacional Monopólio nos deu o nosso rico Petróleo. Somos assim, do nosso grande País. Um povo forte, futuroso e bem feliz. Petroleiros conduzindo pelo mar. O ouro negro para o Brasil refinar”. A letra busca exaltar a importância do petróleo para o Brasil, promovendo a ideia de que sua exploração seria um caminho para o desenvolvimento nacional.
Em “Numa Sala de Reboco”, Luiz Gonzaga retrata o desejo intenso de aproveitar cada momento ao lado da pessoa amada. O verso repetido “Todo tempo quanto houver pra mim é pouco / Pra dançar com meu benzinho numa sala de reboco” mostra que, para o narrador, o tempo ao lado do par é sempre insuficiente. Em outro verso da música ele diz “Só fico triste quando o dia amanhece. Ai, meu Deus, se eu pudesse acabar a separação. Pra nóis viver igualado à sanguessuga. E nosso amor pede mais fuga do que essa que nos dão”. A expressão “igual a dois a sanguessugas” simboliza a intensidade e a inseparabilidade do vínculo amoroso. A canção é uma ode à simplicidade, à dança como forma de expressão amorosa e à riqueza cultural do Nordeste, onde o amor floresce em qualquer ambiente, mesmo no mais humilde.
A música “Baião”, de Luiz Gonzaga, é um marco na divulgação da cultura nordestina para todo o Brasil. Mais do que um convite para dançar, a canção apresenta o baião como símbolo da identidade do sertão. “Eu vou mostrar pra vocês. Como se dança o baião. E quem quiser aprender. É favor prestar atenção’. Ele se coloca como representante de sua região, convidando o público a conhecer e valorizar uma tradição que, até então, era restrita ao Nordeste. No último verso ele diz; “Por isso eu quero afirmar. Com toda convicção. Que sou doido pelo baião”. Ao afirmar “Que sou doido pelo baião”, Gonzaga expressa sua paixão pessoal e faz um convite acolhedor para que todos compartilhem desse sentimento.
Bem, infelizmente tenho que concluir com a música “Olho pro céu”. A lista de músicas do Rei do Baião é muito grande. “Olha Pro Céu”, de Luiz Gonzaga, retrata a forte ligação entre o romance e o clima especial das festas juninas. “Olha pro céu, meu amor. Vê como ele está lindo. Olha pra aquele balão multicor. Como no céu vai sumindo”. Esse verso simboliza tanto a celebração quanto a natureza passageira dos momentos felizes. Essa referência aos balões é típica das festas de São João e reforça o tom nostálgico da canção, sugerindo que as lembranças desses instantes são bonitas, mas também fugazes. No último verso ele canta “Foi numa noite igual a esta. Que tu me deste o coração. O céu estava assim em festa. Porque era noite de São João. Havia balões no ar. Xote, baião no salão e no terreiro o teu olhar. Que incendiou meu coração”, mostra como o ambiente festivo serve de cenário para encontros e paixões marcantes. Assim, “Olha Pro Céu” se destaca como uma homenagem à alegria, ao romantismo e à saudade das festas de São João, evocando sentimentos de pertencimento e nostalgia típicos dessa época.
Enfim, o Rei do Baião desbravou caminhos, com a mais legítima representatividade nordestina para toda uma geração da música popular brasileira que veio depois. Seu carisma, autenticidade e talento conquistaram o coração de milhões de brasileiros, que passaram a admirar as tradições do Nordeste, fazendo com que Gonzaga seja lembrado como um dos maiores ícones da música brasileira e como um símbolo de orgulho e resistência para o povo nordestino.
Como ele mesmo declarou em uma entrevista, pouco antes de sua morte: “Quero ser lembrado como o sanfoneiro que amou e cantou muito seu povo, o sertão; que cantou as aves, os animais, os padres, os cangaceiros, os retirantes, os valentes, os covardes, o amor”.
Assim podemos dizer que Gonzaga tá vivo. Não creio que morrerá, porque ele, de certa forma, foi abastecido pelo sertão e abastece o sertão. Então, nessa realimentação, os dois permanecerão vivos para sempre.
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Como todos os outros textos do Blog, brilhante!
Viana, muito interessante…viajamos no tempo lembrando desse ícone da cultura nordestina que continua presente em suas músicas e sempre será lembrado! Parabéns 👏👏👏
Parabéns, Excelente artigo, antes de uma história, uma merecida homenagem ao Rei do Baião.