Estes seus cabelos brancos, bonitos

Por José Viana
em 20/01/2022
Estes seus cabelos brancos, bonitos

Em dezembro de 1979, o cantor e compositor Roberto Carlos lançou seu vigésimo LP (Long Play). Um dos carros chefes do álbum era a música “Meu querido, meu velho, meu amigo”. Segundo o próprio Roberto Carlos essa música foi feita para homenagear seu pai. Nas primeiras estrofes, ele escreveu: “Esses seus cabelos brancos, bonitos; esse olhar cansado, profundo; me dizendo coisas num grito; me ensinando tanto do mundo. E esses passos lentos de agora; caminhando sempre comigo; já correram tanto na vida. Meu querido, meu velho, meu amigo”.

Nesta época, estava no auge de minha juventude. Tinha vinte anos de idade. Mas o tempo não para. Hoje estou quase o retrato da poesia “Retrato” de Cecília Meireles que diz: “Eu não tinha este rosto de hoje, assim calmo, assim triste, assim magro, nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo. Eu não tinha estas mãos sem força, tão paradas e frias e mortas; eu não tinha este coração que nem se mostra. Eu não dei por esta mudança, tão simples, tão certa, tão fácil. Em que espelho ficou perdida a minha face?”.

Em 1907, o jornalista Cândido Jucá escreveu no Correio da Manhã um artigo com o título “As características visíveis da velhice”, onde dizia: “Os olhares sobre a velhice ressaltam diferentes aspectos. Os fios prateados começam a aparecer no alto da cabeça. Depois alvejam nas têmporas e após a canície costuma vir a calvície. A ruga, que é o estigma da pele, não se faz esperar. Os sentidos embotam-se. A vista diminui. O ouvido endurece-se”.

Mas, o que é a velhice? As vezes, fala-se dela como do outono da vida (tempo de transformação) seguindo a analogia sugerida pelas estações e pelo andamento das fases da natureza. Basta olhar, ao longo do ano, para a mudança da paisagem nas montanhas e nas planícies, nos prados, nos vales, nos bosques, nas árvores e nas plantas. Há uma estreita semelhança entre o biorritmo do homem e os ciclos da natureza, à qual ele pertence.

O envelhecimento é um fenômeno biológico e inerente a toda espécie. No entanto, ele, também, tem uma dimensão existencial, pois modifica-se conforme a relação do indivíduo com o tempo, com o mundo e com a própria história. Na sociedade capitalista, a velhice está vinculada à ideia de produtividade. Em alguns povos a velhice é estimada e valorizada, como por exemplo na China e no Japão. Ela é sinônimo de sabedoria. Os idosos são tratados com respeito e atenção pela vasta experiência acumulada.

O surgimento da “terceira idade” pode ser considerado como uma tentativa de rompimento com as imagens negativas da velhice que predominavam no início do século XX. Os termos são importantes: a “velhice” é substituída pela “terceira idade”, e os “velhos” tornam-se “idosos”. Diferentemente da “velhice”, a “terceira idade” se caracterizaria por ser uma fase da vida em que as pessoas aproveitariam intensamente o seu tempo, na busca de realizações pessoais. O lazer, os cuidados com o corpo e a saúde, a ampliação do círculo social, parecem estar presentes nessas novas representações sociais do envelhecimento.

Em 1º de outubro de 1999, o então papa João Paulo II escreveu a Carta aos Anciãos, dentre tantas coisas importantes ele disse: “A terceira idade é uma dádiva de Deus e chegar a ela é um privilégio”. Quem teve o privilégio de viver muito, sabe que o tempo, é um mestre muito caprichoso, por isso, aprende a olhar com serenidade o turbilhão da vida.

O Brasil, que por tanto tempo foi considerado jovem, caminha rapidamente para se consolidar como o país de uma população envelhecida. Infelizmente, por falta de planejamento, o Brasil passa a ter grandes dificuldades para lidar com seus cabelos brancos. Um estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) mostrou que quase um quinto da população brasileira é composta por pessoas com 60 anos ou mais. O levantamento aponta que 40,3% dos brasileiros serão idosos daqui a aproximadamente 90 anos. Lembramos que a Organização Mundial de Saúde (OMS) considera idoso aquele indivíduo que tem 60 anos ou mais de vida.

Ficar vivo por mais tempo, o que deveria ser uma boa notícia para todos, virou um desafio econômico pessoal para os brasileiros. Na parte baixa da pirâmide, onde estão os mais pobres, começa a ser sentido o aumento no número de idosos desamparados pela família. Os albergues públicos estão lotados e a demanda por vagas entre pessoas de mais de 60 anos não para de crescer, segundo estudo do Ministério do Desenvolvimento Social. Para piorar, há também o problema do enfraquecimento dos laços familiares na nova sociedade. A família, agora, não é mais aquela tradicional que sempre destacava alguém para cuidar dos mais velhos. A oferta de cuidadores familiares já apresenta evidências de redução, dadas as mudanças na família, seja com a redução do seu tamanho ou a participação maior das mulheres no mercado de trabalho. Importante ressaltar, que se o idoso tiver alguns problemas de saúde ou doenças como Alzheimer se faz necessário, em muitos casos, a recorrer a espaços para hospedar o paciente.

Entre as alternativas não familiares para o cuidado do idoso, a mais antiga é a instituição asilar, cuja origem remonta à Grécia Antiga. No Brasil e no resto do mundo, embora os asilos constituam a modalidade mais antiga de atendimento ao idoso fora do convívio familiar, ainda não há um consenso sobre o que sejam as Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPI). Essas instituições têm como objetivo garantir a atenção integral ao idoso, garantindo condições de bem-estar físico, emocional e social.

Pesquisa feita pela GPED-ILPI (Grupo de estudos, Pesquisas e Diagnóstico – Instituição de Longa Permanência para Idosos (GPED-ILPI), vinculado à Universidade de São Paulo (USP), mostrou que houve um crescimento acentuado do número de ILPIs no Brasil na última década. Tínhamos 3548 unidades em 2010 e em 2021 passamos para 7292. Sejam públicas, privadas ou filantrópicas.  A grande maioria das instituições brasileiras são filantrópica, incluindo neste conjunto, as religiosas e leigas. Vindo em seguida as instituições privadas com fins lucrativos e por último, em menor número, as instituições públicas.

Interessante diferenciar asilo, de abrigo e de casa de repouso. A palavra asilo na maioria das vezes remete aquele espaço velho e mal cuidado onde as famílias deixavam um idoso com quem não queriam mais a convivência. Mas isso não é bem assim. Têm bons asilos como também existem os não tão bons. Muitos asilos são municipais, alguns gratuitos, outros pedem uma contribuição mensal (próprio salário do idoso), e neste caso podem não ter todas as melhores condições para o idoso. Mas para quem não tem condições financeiras de pagar outro espaço, acaba escolhendo este tipo de instituição. Por lá, podem ser contemplados além dos idosos, dependentes químicos ou órfãos.

Os abrigos costumam proporcionar boa estrutura, com profissionais e equipamentos. Também é indispensável o pagamento para o idoso ficar neste espaço. Costumam oferecer um espaço com boas condições e infraestrutura. É cobrada taxa mensal para a hospedagem.

As casas de repouso oferecem atendimento personalizado ao paciente, com equipes especializadas e à disposição para realizar o tratamento e cuidados específicos para cada idoso. Com infraestrutura completa, esse local permite a sociabilização do paciente e conta com atividades para a distração do idoso. É o espaço que mais se assemelha à casa do paciente. Também é cobrado valor pela estadia.

Atualmente muitos idosos garantem o sustento e a manutenção de sua família com o pouco de recurso que dispõe (aposentadoria, pensões e atividades remuneradas). Esse perfil é conhecido como os idosos arrimo de família. Assim, o idoso vem tornando uma figura essencial em seu meio, não exercendo apenas a função de cuidador, mas como chefe de família, responsável pela sobrevivência de seus componentes

Segundo estimativa do Valor Econômico avalizada pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), a morte de idosos (60 anos ou mais) por COVID retirou R$ 3,8 bilhões da economia.  Conforme o instituto, em 25,4 milhões de domicílios no país vivem idosos, dos quais 15,4 milhões, mais de 50% da renda vêm do idoso. “Em muitos casos, quando o idoso morre, a família entra na pobreza”, declara a economista do Ipea Ana Amélia Camarano, especializada na 3ª idade. “No Brasil, ainda se entende a Previdência Social como gasto e não como elemento estrutural do Estado de bem-estar social”.

A Previdência Social mudou a estrutura dos lares, que viam os idosos como um peso. Muitas vezes, o aposentado não é o mantenedor da casa, mas ajuda na criação ou na educação de netos. A crise econômica, responsável pelo alto nível de desemprego, explica o aumento do número de aposentados que vivem hoje como arrimo de família. À medida que o mercado de trabalho demora para se recuperar, as aposentadorias acabam ganhando espaço no orçamento familiar. A geração que hoje depende dos pais pode ter dificuldade para se aposentar. Em breve, serão eles os idosos. E sem renda.

Em um terço dos lares brasileiros, vive pelo menos um idoso. Neles, 43% dos adultos com menos de 60 anos não trabalham, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). O impacto da morte de um idoso aposentado ou pensionista, pode levar a uma queda de metade da renda familiar. Para o futuro, teremos um cenário mais difícil para quem ainda está na juventude. Temos maior informalidade hoje. Os idosos de agora viveram um momento melhor na economia e puderam se aposentar, mas vai chegar um momento em que as pessoas vão envelhecer sem aposentadoria.

Para piorar essa situação, existe um senso comum que coloca o idoso como incapaz e, por isso, é um grupo marginalizado socialmente. O Estado brasileiro valoriza quem trabalha, quem produz renda. Então, a terceira idade é associada àquela que vai quebrar a Previdência, um tema em destaque na atual crise econômica. Isso torna o idoso ainda mais exposto a abusos e violência.

Embora existam leis de proteção a esse grupo, como o Estatuto do Idoso e o artigo 230 da Constituição Federal, falta a conscientização por parte da sociedade para o respeito ao direito à autonomia e à expressão da vontade da terceira idade.

Também não podemos esquecer que as condições urbanas afetam profundamente a saúde de seus moradores, principalmente dos idosos. Muitos dos idosos nasceram em áreas rurais, mas estão envelhecendo em áreas urbanas que são precariamente equipadas para encorajá-los a continuarem ativos. A habilidade em se manter ativo ao longo da vida pode ser crucial para conservar a independência, ter acesso a serviços locais, se manter em forma e criar oportunidades importantes para a sociabilidade. Pequenas intervenções urbanas, tais como: posicionamento de faixas para pedestres, pontos de ônibus e banheiros públicos podem estimular idosos a caminharem e serem mais ativos.

Infelizmente, em um mundo em que os únicos valores são a juventude e o sucesso profissional, o declínio de ambos faz com que as pessoas não encontrem mais seu lugar neste universo e ainda se tornam vítimas de atendimento de saúde precário e de outros tipos de violência urbana e até familiar.

Segundo um ranking da organização não governamental Help Age International, o Brasil é um dos piores países da américa do Latina para se envelhecer. Ficamos apenas a frente da Venezuela e do Paraguai. No mundo, ocupamos a posição número 56 entre 96 nações referidas. Esse é mais um grande desafio dos governos do Brasil.  Nosso país precisa avançar rapidamente, nas políticas públicas de prevenção, acompanhamento e zelo dos idosos. O país envelheceu.

Enquanto muitos de nós evitamos pensar sobre os desafios de envelhecer (o que seria muito melhor do que desviar do assunto), o envelhecimento vai inevitavelmente nos confrontar. Deve, portanto, ser uma prioridade para cada um de nós.

É preciso encarar a velhice como um processo absolutamente natural, como a infância ou adolescência. Hoje, vivemos mais do que há 30, 40 anos. Então é preciso parar e pensar o que se quer construir e quais são as possibilidades para a própria vida, levando em conta esse tempo a mais que temos para viver. Alguém já disse um dia, “envelhecer é o único meio que temos de viver mais tempo”. Segundo o célebre escritor e cineasta sueco Ingmar Bergman, falecido em 2007, “envelhecer é como escalar uma grande montanha: enquanto escala, as forças diminuem, mas o olhar é mais livre, a visão mais ampla e mais serena”.

Respeitar as pessoas idosas é tratar o próprio futuro com respeito. Os idosos têm direito a esse respeito. Não seremos pessoas dignas ou um país digno se não dignificarmos nossos idosos. Segundo o Papa Francisco, “abandonar um idoso é um pecado mortal” e você pode encontrar na sua trajetória o que você perdeu, mas nunca encontrará o que você abandonou!

É importante reforçar, que a presença do grupo familiar na vida da pessoa idosa é de extrema importância, pois pode significar apoio e ajuda, contribuindo na restauração de forças para lidar com as perdas advindas do processo de envelhecimento. É preciso cuidar da fragilidade de quem cuidou da nossa. De preferência com e por amor, mas também porque é nossa obrigação. Tenho certeza se perguntarmos a maioria dos idosos se ele deseja ir para qualquer tipo de instituição, ele vai dizer que pretende ficar em casa.

Concluímos, com algumas orientações para vivermos mais e melhor, nessa fase da vida, que chamamos “terceira idade”: não se apegar às normas e “tabus”, ignorar os preconceitos, ser “autêntico”, não viver em função do que os outros pensam, valorizar você mesmo, evitar sempre que possível fazer o que não gosta, ter um “hobby” e dedicar parte do seu tempo a ele, conviver com outras pessoas, amigos e familiares, fugir do isolamento e da solidão, ter sempre algo para fazer, nunca ficar totalmente ocioso,  ter sempre um “ideal” para ser conquistado ou pelo menos mantido, o homem começa a morrer quando não tem mais ideal. Os anos enrugam a pele, a falta de atividade e de ideal enrugam o espírito.

O poeta grego Focílides advertia: “Respeita os cabelos brancos: presta ao velho sábio aquelas mesmas homenagens que tributas a teu pai”.

23 Thoughts on Estes seus cabelos brancos, bonitos
    Hélmani Rocha
    20 Jan 2022
    8:26am

    Ilustre Irmão,
    Mais um artigo primoroso. Parabéns!!!

    Ney Argolo
    20 Jan 2022
    8:37am

    Excelente Viana!!!

    Luiz Sérgio
    20 Jan 2022
    8:54am

    Excelente texto! Uma análise completa da situação atual da terceira idade no contexto brasileiro. Muito complexo!

    Luiz Sérgio
    20 Jan 2022
    8:55am

    Parabéns Viana!

    David Paulino do Nascimento
    20 Jan 2022
    8:59am

    Parabéns, Dr. Viana. Seu artigo é TOP !
    Quem tiver a oportunidade de ler este artigo, incentivo que o faça. São verdades que podem incomodar, no entanto, precisam ser discutidas no seio das famílias, pois TODOS chegarão a esse estágio da vida (se não falecerem antes, claro). Portanto, que façamos essa análise, o mais rápido possível. Isso é coisa séria!!!

    Daniel Sales Corrêa
    20 Jan 2022
    9:00am

    Viana, é para mim um privilégio estar no círculo daqueles que podem desfrutar da sua cultura.
    Sábias reflexões e informações.

    João Batista Dantas
    20 Jan 2022
    9:01am

    Meu amigo Viana. Que belo texto. Bem pensado e redigido. Como tudo na sua vida, faz muito bem e com maestria tudo que se propõe. Parabens, amigo.

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