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Educação

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29 de outubro de 2026
11 min de leitura

Professores são grandes escultores que realizam grandes transformações em pessoas de diversas idades

José Viana

Por José Viana

É natural do Rio de Janeiro. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba e Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Trabalhou 30 anos na Petróleo Brasileiro S.A. Atualmente aposentado.

Em 1998, o psicólogo, psiquiatra e educador Içami Tiba (1941–2015) lançou o livro Ensinar Aprendendo, pela Editora Gente. Reconhecido por suas obras sobre educação familiar e escolar, Tiba defendia o equilíbrio entre afeto e rigor na formação das pessoas. Nessa obra, escreveu: “Professores, existem muitos hoje em dia. Mas poucos podem ser chamados de mestres. Professores têm alunos; mestres têm discípulos que procuram quase imitá-los. O professor é aquele que exerce sua função como um computador. O mestre é um computador que tem alma. Enquanto o professor acha que já sabe tudo o que é necessário, o mestre se considera sempre um aprendiz. Mestre é aquele que ensina de modo tal que o discípulo se interessa em aprender e colocar em prática o seu saber, transmitindo-o a outros.”

Independentemente da definição, todos sabemos que a educação é a base de tudo. É o alicerce para a construção, de um país melhor, mais justo, com cidadãos conscientes de seus direitos e deveres. Em síntese, é um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento de uma sociedade.

Em alguns países, o professor é reconhecido como uma figura de grande importância social, em razão de sua contribuição para a formação das novas gerações. No Japão, por exemplo, o termo sensei é utilizado para se dirigir a professores e a outros profissionais reconhecidos por seus conhecimentos e experiência. Os educadores gozam de respeito social e são vistos como importantes agentes na formação dos cidadãos. Desde cedo, os alunos aprendem a respeitar seus professores, reconhecendo o valor daqueles que contribuem para seu desenvolvimento.

A educação ocupa lugar de destaque na sociedade japonesa, embora os professores também enfrentem desafios, como jornadas de trabalho extensas e o acúmulo de responsabilidades. Seu trabalho vai muito além das aulas: inclui planejamento, acompanhamento dos alunos, reuniões com os pais, atividades extracurriculares e outras tarefas relacionadas à vida escolar.

Infelizmente, a realidade brasileira ainda está distante do ideal de uma educação de qualidade para todos. Embora esse seja um direito garantido, sua efetivação depende de políticas públicas consistentes, investimentos adequados e valorização dos profissionais da educação. A falta de reconhecimento, as condições de trabalho inadequadas e às desigualdades educacionais continuam sendo obstáculos importantes ao desenvolvimento do país.

Se voltarmos na história, veremos que, nos séculos XV e XVI, era comum que famílias nobres contratassem preceptores para educar seus filhos em casa. O ensino abrangia áreas como música, pintura, literatura, ciências e filosofia. Posteriormente, o Iluminismo, movimento intelectual do século XVIII, contribuiu para fortalecer a defesa da educação como instrumento de transformação social e para ampliar o debate sobre a organização dos sistemas de ensino.

No Brasil, os jesuítas tiveram papel importante na implantação do ensino formal, durante o período colonial, a partir de 1549. Sua atuação estava vinculada, principalmente, à catequização e à educação religiosa, embora também envolvesse o ensino da leitura, da escrita e de outros conhecimentos. É importante lembrar que essa educação estava inserida no contexto da colonização portuguesa e não seguia o modelo iluminista, que surgiu posteriormente. Durante muito tempo, instituições religiosas desempenharam um papel relevante na educação brasileira, e o acesso ao ensino foi marcado por profundas desigualdades sociais e de gênero.

Até o século XIX, os homens predominavam em muitas atividades docentes. A partir das últimas décadas daquele século e, sobretudo, no início do século XX, o magistério passou a ser uma profissão majoritariamente feminina, especialmente na educação infantil e nos primeiros anos do ensino fundamental. Durante muito tempo, a formação para o magistério foi uma das principais opções profissionais oferecidas às mulheres. Atualmente, embora elas continuem predominando em diversos níveis de ensino, os homens também atuam na educação infantil, enquanto as mulheres ocupam espaços cada vez mais expressivos no ensino médio e superior.

A missão do professor sempre se destacou por envolver uma das realidades mais nobres da existência humana: a formação do coração e da inteligência. Nada é mais importante do que o ser humano. Santo Irineu, no século II, expressou essa valorização ao afirmar que “a glória de Deus é o homem vivo”, ideia que ressalta a dignidade da vida humana.

A missão do professor vai além de transmitir conhecimentos: envolve educar, despertar consciências e contribuir para a formação de cidadãos. Afinal, a educação tem o poder de transformar vidas e, consequentemente, a sociedade.

Ensinar é uma maneira de perpetuar conhecimentos, compartilhar experiências e deixar um legado para que as próximas gerações possam continuar aprendendo e evoluindo. A educação é, portanto, essencial não apenas para o desenvolvimento dos indivíduos, mas também para a preservação e a renovação dos costumes, dos valores e do patrimônio cultural de uma sociedade.

O ensino deve preparar o aluno para o futuro, promovendo o desenvolvimento de habilidades e a aquisição de conhecimentos sobre o mundo e sobre si mesmo. Esses aprendizados são fundamentais para sua autonomia, sua participação na sociedade e sua capacidade de compreender e transformar a realidade.

A missão do professor é, sem dúvida, nobre e essencial para a transformação do mundo. Entretanto, precisamos reconhecer que os caminhos percorridos pelos educadores são, muitas vezes, árduos.

Entre os grandes desafios da educação contemporânea, preocupa-me a violência no ambiente escolar, que pode se manifestar de diferentes formas: física, verbal, psicológica e, em determinadas situações, até armada. Essas situações comprometem a aprendizagem, prejudicam a convivência e podem levar alunos e professores a se sentirem inseguros. Quando a escola deixa de ser um ambiente de acolhimento e proteção, toda a comunidade escolar sofre suas consequências. Por isso, combater a violência exige diálogo, prevenção, apoio às famílias, políticas públicas e o compromisso de toda a sociedade.

Mas nem tudo são dificuldades. Os recursos didáticos utilizados em sala de aula também evoluíram significativamente. Lembro-me de que, nos meus anos escolares e também durante minha experiência como professor, utilizávamos o tão conhecido giz. Ele era uma ferramenta tradicional para escrever, desenhar e construir esquemas no quadro, embora seu pó pudesse causar desconforto e agravar alergias ou problemas respiratórios em pessoas suscetíveis.

Com o tempo, a lousa branca e os pincéis passaram a ser alternativas comuns, reduzindo a exposição ao pó do giz. Em algumas escolas, os projetores permitem apresentar imagens, vídeos e outros conteúdos digitais, ampliando as possibilidades de aprendizagem. Com o advento da internet, um universo de informações e conhecimentos passou a estar ao alcance de um toque.

É essencial que os professores estejam comprometidos com seu trabalho e com a formação dos jovens. A responsabilidade que carregam é enorme, pois participam diretamente do desenvolvimento intelectual, social e emocional de seus alunos. Por isso, além da competência profissional, são importantes o compromisso, a dedicação e o amor pela educação.

Ninguém nasce professor. A formação docente é construída por meio do estudo, da prática e da reflexão sobre a própria experiência. Trata-se de um processo permanente de aprendizagem e aperfeiçoamento. Ao reconhecerem que são eternos aprendizes, os professores renovam suas práticas pedagógicas e reafirmam sua importância em um mundo em constante transformação.

A célebre frase atribuída a Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, “Mestre não é quem sempre ensina, mas quem de repente aprende”, convida-nos a refletir sobre a humildade e a capacidade de aprender ao longo da vida. Essa ideia permanece especialmente atual diante dos desafios da sociedade contemporânea e dos avanços da inteligência artificial.

Ser humilde, no contexto da educação, significa reconhecer que, independentemente da quantidade de conhecimentos ou da experiência acumulada, sempre haverá novas oportunidades de aprender, rever conceitos e crescer. Assim como o rio transforma continuamente suas margens, os educadores também transformam e são transformados pelas novas gerações, pelas experiências vividas e pelas tecnologias. Sua trajetória deve ser marcada não apenas pela capacidade de ensinar, mas também pela disposição de aprender.

É natural que alguns professores encontrem dificuldades para incorporar novas tecnologias e metodologias, seja pela familiaridade com práticas tradicionais, seja pela falta de tempo, recursos ou formação adequada. Nem todas as escolas oferecem o suporte necessário ao desenvolvimento profissional contínuo. Além disso, muitos educadores enfrentam cargas de trabalho elevadas, que incluem planejamento de aulas, correção de atividades e responsabilidades administrativas. Encontrar tempo para estudar, atualizar-se e aprimorar a prática pedagógica pode ser um desafio significativo. Por isso, para que os professores adotem efetivamente uma postura de aprendizagem contínua, é indispensável que as instituições de ensino e os governos ofereçam condições adequadas, formação permanente e ambientes que valorizem o desenvolvimento profissional.

Ser professor não é ocupar uma posição definitiva de quem sabe tudo. É aceitar o desafio de aprender diariamente, reinventar-se e compreender que ensinar e aprender são processos que caminham juntos.

Retomando a definição de Içami Tiba, podemos afirmar que ser mestre vai muito além de lecionar. É ser referência, orientador e exemplo; é acompanhar o aluno em sua trajetória, inspirar sonhos e acreditar em seu potencial. O mestre transmite conhecimentos, mas também valores como respeito, responsabilidade, dedicação e dignidade. Constrói uma relação de confiança com o aluno e procura enxergar possibilidades onde outros talvez vejam apenas dificuldades.

Ao recordar minha trajetória escolar e profissional, lembro-me com gratidão dos grandes mestres que passaram pela minha vida. Agradeço por cada ensinamento e por todas as oportunidades de crescimento que me proporcionaram. Não tenho dúvida de que alguns dos melhores mestres não foram aqueles que simplesmente me deram respostas, mas os que me ensinaram a fazer perguntas. Foram eles que abriram as portas do conhecimento e estimularam em mim a busca permanente pelo saber, tornando-me um eterno aprendiz. Posso, com toda certeza, identificar-me com esta reflexão de Ariano Suassuna, escritor, dramaturgo e professor: “Eu tive sorte de, desde o começo, ter professores que me encaminharam no sentido da paixão pelo conhecimento.”

Infelizmente, o mundo mudou, e a percepção da profissão docente também. Se, em outros tempos, muitos jovens sonhavam em ser professores, hoje a carreira enfrenta desafios relacionados à valorização profissional, às condições de trabalho e às perspectivas de futuro. Também mudaram às expectativas de muitos jovens em relação à formação, à carreira e à própria vida. Independentemente dessas transformações, precisamos reconhecer a importância fundamental da educação na formação de todos os profissionais. Sem o trabalho dos professores, faltariam as bases do conhecimento e as habilidades necessárias para formar médicos, engenheiros, artistas e tantos outros profissionais. Sem educação, a capacidade de uma sociedade progredir, reduzir desigualdades e exercer plenamente a cidadania fica profundamente comprometida.

Diz-se que o professor escreve na lousa com uma das mãos e, com a outra, ajuda a humanizar seus alunos. É uma imagem que traduz a grandeza dessa profissão: enquanto compartilha conhecimentos, o educador também contribui para formar valores, despertar talentos e construir futuros.

Os professores são, ainda, como cozinheiros do conhecimento: selecionam, preparam e compartilham o alimento intelectual que nutre muitas gerações. São também escultores que, com paciência, dedicação e sensibilidade, ajudam a revelar o potencial existente em cada pessoa.

Ser professor é semear conhecimento, cultivar valores e acreditar que cada aluno pode florescer. Ser mestre é compreender que, enquanto ensina a outros, também continua aprendendo.

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Comentários 4

  1. Fernanda •

    👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

  2. Marco Morais •

    Perfeita análise e reflexão. Parabéns!

  3. Leickton Meneses •

    Adorei a leitura do texto dedicado a relatar a essência dessa classe de profissionais de transmissores de conhecimento, o professor!
    E, ainda, gostei de exemplificação da diferença entre o chamado “mestre” e o “professor”.😍

  4. JOÃO WILSON DE LUNA FREIRE •

    Boa noite Zé!
    Esse texto foi de uma clareza impar!
    Parabéns pela explanação detalhada, sobre a única profissão que forma todas as outras.
    Cito uma frase de Cora Coralina:-
    “FELIZ AQUELE QUE TRANSFERE O QUE SABE E APRENDE O QUE ENSINA.”
    SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!
    🇧🇬🇧🇬🇧🇬🇧🇬🇧🇬