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01 de fevereiro de 2026 • 10 min de leituraEu sou aquele amante à moda antiga
Por José Viana
É natural do Rio de Janeiro. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba e Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Trabalhou 30 anos na Petróleo Brasileiro S.A. Atualmente aposentado.

Vivemos em um mundo onde as mudanças sociais acontecem a todo momento. A cada dia, novas ideias, comportamentos e formas de interação surgem, transformando a maneira como as pessoas convivem em sociedade. Essas mudanças refletem não apenas o avanço da tecnologia e da comunicação, mas também a busca constante por mais justiça, igualdade e respeito às diferenças.
Se antes a informação demorava para circular, hoje ela se espalha em segundos, influenciando opiniões, aproximando culturas e, ao mesmo tempo, gerando desafios, como a propagação de fake news e a superficialidade das relações.
Como a mudança social, é a transformação da sociedade e do seu modo de organização, muitos hábitos e costumes deixam de fazer ou começam a fazer parte do cotidiano das pessoas.
Por exemplo, não podemos afirmar que o romantismo acabou ou melhor, que só existe em letras de músicas, mas com certeza que a forma de expressar o romantismo mudou com o tempo.
No passado, o romantismo era muito associado a gestos clássicos, tais como: dançar colado mostrava a intimidade e a sintonia do casal, andar de mãos dadas pelas ruas, como sinal de compromisso, guardar fotos em carteira ou dentro de livros, cartas de amor escritas à mão (muitas vezes perfumadas ou guardadas por anos), serestas e serenatas com violão embaixo da janela da pessoa amada, presentes simbólicos como flores, lenços ou retratos emoldurados, poesias e declarações em papéis, diários ou até dedicatórias em livros. Não podemos esquecer a ansiedade de esperar encontros, já que a comunicação era mais lenta.
Hoje, a vida mais acelerada e as mudanças tecnológicas, fizeram com que essas manifestações se transformassem, por exemplo: enviar mensagens de bom dia/noite pelo WhatsApp, áudios com declarações espontâneas a qualquer hora, presentes criativos e experiências (como viagens, jantares, shows juntos), postagens em redes sociais para marcar e celebrar o relacionamento, surpresas tecnológicas como vídeos, montagens de fotos ou declarações em posts, envio de fotos e emojis carinhosos em tempo real e até compartilhar localização ao chegar em casa como cuidado e demonstração de carinho.
Entendo portanto, que podemos dizer que o romantismo não acabou, ele apenas se reinventou. O essencial continua o mesmo: demonstrar amor, cuidado e presença. Só a forma de expressar é que acompanha a cultura e o tempo.
Todavia, nos meus sessenta e seis anos, prefiro o romantismo de antigamente, como muito bem cantada por Roberto Carlos: “Eu sou aquele amante à moda antiga”.
Mesmo não tendo vivido nesse tempo, podemos destacar principalmente na época que as serenatas eram um tradição urbana e romântica, feitas à noite em frente às janelas ou nas ruas tranquilas. A serenata era uma homenagem surpresa, quase sempre dirigida à donzela amada. Os seresteiros geralmente acompanhados de instrumentos como violão e cavaquinho, entoavam canções românticas e melodiosas nas calçadas, sob a janela da pessoa reverenciada. Receber uma serenata era prazer e emoção, pois reafirmava afeto entre enamorados, além do deleite com um belo repertório.
O auge da serenata no Brasil aconteceu entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, mais ou menos de 1880 até 1940.
As primeiras serenatas urbanas surgiram a partir de 1880, ocorreram especialmente no Rio de Janeiro e em cidades mineiras. Os instrumentos principais eram o violão e a flauta.
No início do século XX (1900–1920), adoção do rádio ainda não havia mudado a cultura local. A serenata era um evento social importante tendo popularidade crescente entre a classe média urbana e boêmios. Nesse período tivemos o surgimento de seresteiros famosos, músicos que se dedicavam exclusivamente à serenata.
Entre os anos de 1920–1940 tivemos o auge da serenata no Brasil ou melhor o período de maior popularidade. A consolidação do violão como instrumento principal e inclusão de pequenos grupos de cordas. As festas de bairro e serenatas em datas especiais eram comuns. Com influência direta nas músicas românticas brasileiras, como o samba-canção e as primeiras composições que depois inspirariam a bossa nova.
Infelizmente entre os anos 1950–1960, com a urbanização crescente e expansão das cidades grandes tornaram as ruas menos propícias para serenatas.
A popularidade do rádio, cinema e posteriormente televisão mudou o entretenimento noturno. A serenata passou a ser mais simbólica e rara, preservada em festas tradicionais e eventos culturais.
Bem, hoje sobrevive como tradição nostálgica, especialmente em cidades históricas como Ouro Preto, Tiradentes e São João Del-Rei.
No Brasil, serenata e seresta muitas vezes se confundem, mas têm significados diferentes. A serenata é o ato romântico de cantar à noite diante da casa de alguém, geralmente para homenagear ou conquistar. Já a seresta é mais ampla: representa a tradição musical e cultural das rodas de amigos que cantam modinhas, choros, valsas e boleros. Assim, toda serenata pode ser vista como uma forma de seresta, mas a seresta vai além da serenata individual.
Os primeiros seresteiros foram os tropeiros, que expressavam por meio do violão e dos versos a saudade do lar.
A seresta como gênero musical brasileiro, não possui um único criador. É mais um costume popular do que uma forma musical com um inventor específico.
Ela se consolidou no Brasil especialmente entre o final do século XIX e início do século XX, como uma forma popular de se referir à serenata, que já existia há mais tempo, que foi um costume boêmio que nós herdamos, como tantos outros, da Península Ibérica.
Podemos dizer que a seresta nasceu da fusão da tradição portuguesa das serenatas com a musicalidade brasileira (modinha, valsa, lundu, choro), tendo como berço principal as cidades históricas de Minas Gerais e o Rio de Janeiro.
A seresta era uma forma de música popular que se manifestava principalmente em apresentações noturnas ao ar livre, como em ruas, praças e varandas de casas. Nas serestas brasileiras não havia uma única música que fosse a mais cantada, mas sim um repertório de canções que se repetiam muito, tornando-se verdadeiros hinos seresteiros.
A seresta contemporânea é uma derivação do arrocha e não mais da seresta original. Embora o gênero tenha evoluído e se modernizado, a tradição da seresta original ainda se mantém viva em certos lugares do Brasil.
Em 2015 tive a oportunidade de conhecer uma cidade chamada Conservatória (distrito de Valença/RJ). Seu apelido é Cidade da Seresta e dos Seresteiros.
Todos os finais de semana há grupos que cantam pelas ruas e bares, atraindo turistas do Brasil inteiro. A seresta ou serenata move o turismo e cada vez mais surgem projetos fortalecendo esse traço cultural. Museus e formação de grupos de seresteiros entre os adolescentes prometem a perpetuação dessa bela prática. A mais de cem anos que os moradores saem pelas ruas de Conservatória tocando e cantando de acordo com a tradição iniciada por professores de música que viveram na vila. Os habitantes da cidade gostam tanto de música que colocam uma placa na frente de casa com o nome de sua canção preferida e seus compositores. A padaria da esquina se chama Luz Branca; a drogaria, Harmonia; o restaurante é Dó-Ré-Mi.
Não existe um único “Dia da Seresta” em todo o Brasil, mas sim diversas datas que homenageiam o gênero musical, como o Dia do Seresteiro em 23 de maio (nascimento de Sílvio Caldas) e o Dia Nacional da Seresta em 12 de setembro, uma homenagem ao nascimento do ex-presidente Juscelino Kubitschek de que veio ao mundo em 12 de setembro de 1902 na cidade mineira de Diamantina, era fascinado por esse costume artístico.
Entre os maiores seresteiros do Brasil, podemos destacar: Pixinguinha (1897–1973), mestre do choro, mas também muito presente nas serestas, com sua flauta e depois saxofone, Catulo da Paixão Cearense (1863–1946) considerado um dos grandes nomes das modinhas e serestas, poeta e compositor romântico,
Francisco Alves (1898–1952) o “Rei da Voz”, cantor que imortalizou várias canções românticas em serenatas, Mário Lago (1911–2002) que era poeta, ator e compositor de clássicos seresteiros como Amélia, Orlando Silva (1915–1978) conhecido como o “Cantor das Multidões”, voz marcante das serestas brasileiras, Vicente Celestino (1894–1968) que tinha uma voz poderosa, um dos mais lembrados em serestas com canções como O Ébrio, Silvio Caldas (1908–1998) também chamado de “Seresteiro do Brasil”, um dos maiores intérpretes e compositores do gênero, Nelson Gonçalves (1919–1998) sem sombra de dúvida dono de uma das vozes mais fortes e populares, muito ligado às serestas urbanas, Carlos Galhardo (1913–1985), outro intérprete de destaque da era de ouro da seresta.
Escrever sobre seresta ou serenata se faz necessário lembrar do violão. No Brasil, o violão se tornou um símbolo cultural, acompanhando diversos gêneros musicais. Sua presença em rodas de samba, serenatas e rodas de amigos o tornou um instrumento intimamente ligado à identidade brasileira.
A relação entre o seresteiro e o violão é de profunda complementaridade. O seresteiro encontra no violão um meio de dar vida às suas canções e o violão encontra no seresteiro um intérprete que valoriza sua beleza sonora e sua capacidade de criar momentos inesquecíveis.
Importante ressaltar que a seresta contemporânea é uma derivação do arrocha e não mais da seresta original. O arrocha é uma forma musical brasileira de ritmo romântico, sensual e arrastado, que se originou na Bahia a partir dos anos 2000. Este gênero popular tem suas raízes no bolero, seresta e música brega, misturando a “dor de cotovelo” do brega com influências do forró e do sertanejo, e caracteriza-se por letras emotivas sobre amores e desilusões.
Os “tempos áureos da seresta” se foram, mas ela sobrevive em formatos diferentes, com espaço menor e com a ajuda do público fiel de sempre. Ainda existem músicos e grupos que a cultivam, buscando manter viva essa tradição. Em alguns bairros antigos Rio de Janeiro, como Santa Teresa, ainda acontecem encontros de seresteiros.
Bem, a seresta mexe com o coração de todo mundo, inclusive o meu. Me reservo em dizer que a seresta está no DNA dos brasileiros para sempre. Até hoje, quem tem sentimento, quem tem amor no coração, com certeza se comove com uma seresta.
O perigo nos dia atuais é alguém pegar um violão, começar a tocar e cantar sob uma janela hoje em dia, por mais afinado e talentoso que seja, correr o risco de levar tiro. Sem se esquecer que a moradia em edifícios altos impossibilita essa prática tão comum em décadas antigas.
Concluo, lembrando de uma música cantada pelo saudoso Altemar Dutra denominada “O Trovador”: Sonhei que eu era um dia um trovador, dos velhos tempos que não voltam mais, cantava assim a toda hora, as mais lindas modinhas, do meu Rio de outrora. Sinhá mocinha de olhar fugaz, se encantava com meus versos de rapaz…
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Eu também prefiro o romantismo à moda antiga. E também tive a felicidade de vivendo no interior (Alagoa Grande) na época da minha infância e adolescência, ainda ter podido fazer serenata.
Boas lembranças daqueles anos dourados!
Uma viagem no tempo. O romantismo da antiguidade era mais bonito e, com certeza, gostoso de ser vivido.
Parabéns pelo texto.
Parabéns Viana por relembrar tudo isso que sempre nos f3s bem . Bom ouvir e ver as músicas mais antigas ,ver e ouvir as serenatas. Tudo a moda antiga muito melhor . Temos saudades disso tudo .
Grande Zé!
Cara, seus artigos eu comparo como degustar um excelente vinho, aos poucos nós vamos nos deliciando a ponto de querer repetir a dosagem.
Estou chegando aos 7.9 e na minha trajetória de vida, sempre fui um amante a moda antiga e um seresteiro nato.
Como não lembrar das serenatas feitas na cidade de Sapé, inclusive para minha esposa nos idos de 1970/71.
Todos os seresteiros citados por você, nós adeptos das músicas antigas, tiramos o chapéu para todos eles.
Parabéns pela brilhante explanação!!!
Aquele abraço meu amigo/irmão!
SAUDAÇÕES TRICOLORES!!!
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Boa garoto,sempre bom ler seus texto.Eu sou e sempre serei uma amante a moda antiga. Mais um vez parabéns Zé Antônio. Muito bom recordar aquele tempo. Acordei muitas vezes ouvindo serenata,na minha velha cidade de Sapé.
Que lindo texto José. Lendo é como vivermos nossos tempos de adolescência, de pegar na mão, cartinhas, tudo com muita pureza. As letras da musicas.Mas temos que nos atualizar. Vamos em frente e vamos ver aonde vamos chegar. Valeu Zé.