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02 de maio de 2026 • 11 min de leituraFAÇA AMOR, NÃO FAÇA GUERRA
Por José Viana
É natural do Rio de Janeiro. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba e Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Trabalhou 30 anos na Petróleo Brasileiro S.A. Atualmente aposentado.

O piloto de caça alemão Erich Hartmann que durante a Segunda Guerra Mundial voou em 1.404 missões de combates aéreos, disse a seguinte frase: “Guerra é um lugar onde jovens que não se conhecem e não se odeiam se matam por decisão de velhos que se conhecem, se odeiam, mas não se matam”. Essa frase traz uma reflexão forte e crítica sobre a guerra. Quem mais sofre e paga o preço é a população civil, que não tem relação direta com as causas ou decisões da guerra. As decisões de conflito geralmente são tomadas por líderes políticos mais velhos, porém quem as executa no campo de batalha frequentemente são os jovens que são usados como instrumentos de decisões que não são deles. Em eras passadas, monarcas e chefes de estado (como Alexandre, o Grande, ou Júlio César) frequentemente lideravam seus exércitos no campo de batalha.
Ressaltamos que a guerra é um conflito armado organizado, de alta intensidade e geralmente declarado entre Estados, enquanto conflito é um termo mais amplo que engloba disputas políticas, econômicas ou sociais, que podem ou não envolver violência física. Em suma, todo conflito não é necessariamente uma guerra, mas toda guerra é um tipo de conflito.
Infelizmente a história da humanidade tem sido considerada por alguns historiadores como a história das guerras. Podemos dizer que o homem é um ser beligerante. É o lobo do próprio homem. Está sempre em guerra com Deus, com seu semelhante e até consigo mesmo.
O filósofo alemão Immanuel Kant (1724–1804) em seu livro “À Paz Perpétua”, escreveu que a história da humanidade é uma sucessão interminável de guerras que faz do planeta “o grande cemitério do gênero humano”.
Desde muito antes do nascimento de Jesus Cristo, os povos já viviam conflitos, disputas e guerras. Civilizações antigas como as do Egito Antigo, da Mesopotâmia e da Grécia Antiga registraram batalhas por poder, território, riquezas e influência. Ao longo da história, muitos conflitos aconteceram por terras férteis, rotas comerciais, riquezas naturais ou influência política. Isso mostra que a ausência de paz não é algo recente, mas acompanha a humanidade desde seus primeiros passos organizados em sociedade. Então, sempre fomos tão violentos? Ou houve algum momento na história quando o mundo realmente teve paz?
Entre 1815 e 1914, o mundo viveu o chamado século da paz, a paz britânica (Pax Britannica) em cujo meio houve a “belle époque”. Século de relativa ausência de grandes conflitos armados e entre as nações europeias, situado entre as Guerras Napoleônicas e a Primeira Guerra Mundial. Repito, relativa ausência de grandes conflitos armados.
Eu que nasci no ano de 1959, infelizmente nunca vi o mundo em paz, pelo contrário tenho visto numerosos conflitos armados. O primeiro conflito armado que tive conhecimento foi a Guerra do Vietnã (1955-1975) que foi uma das maiores derrotas militares e morais na história do Estados Unidos. A guerra intensificou movimentos de contracultura, como o movimento hippie, e protestos massivos. Jovens americanos desafiaram normas sociais, cabelos compridos e barbas tornaram-se símbolos de rebeldia, e a música e o estilo de vida da época foram moldados pela rejeição à guerra. Hippies rejeitavam a hierarquia, a obediência, o autoritarismo, o capitalismo, o comunismo e criticavam a imposição de valores estéticos de beleza, o modelo de educação, de matrimônio e de família vigentes. Tinham como lemas, por exemplo, as frases “Faça amor, não faça guerra” (Make love, not war), “Paz e amor” (Peace and love). A guerra terminou oficialmente com a saída das tropas em 1973 e a queda de Saigon em 1975, deixando um legado de profundas feridas sociais e psicológicas nos EUA. Bem, uma coisa é certa, desde a Segunda Guerra Mundial, nunca houve tantos conflitos violentos no mundo como hoje.
A paz mundial é um desafio absolutamente complexo porque ela na verdade não é desejada. Ganância, poder, ideologia, religião. Grupos e nações têm interesses conflitantes, levando a disputas por recursos, poder e influência. Rancores e injustiças do passado, quando não resolvidos, podem reacender conflitos no presente. Na verdade, quem faz a guerra esquece a humanidade, não olha para a vida concreta das pessoas, mas coloca diante de tudo os interesses de poder.
A guerra alimenta a si mesma sendo o negócio mais lucrativo do século XXI. Os gastos militares globais atingiram marcos históricos. Dados de 2024 mostram que as despesas militares mundiais atingiram um recorde de R$ 12,4 trilhões. Imaginem se esse dinheiro fosse utilizado na construção e manutenção de hospitais, financiar o saneamento básico e o acesso a água potável para milhões de pessoas em países em desenvolvimento, erradicação do analfabetismo no mundo, acelerar a transição para energias limpas (solar, eólica, hidrogênio), no combate a fome, etc. Em resumo: o mundo teria recursos de sobra para resolver seus maiores problemas sociais se a prioridade fosse a preservação da vida, e não a preparação para a destruição.
O Brasil é conhecido como um país que, comparado a muitos outros, não viveu grandes guerras internacionais em seu território. Porém, isso não significa que sempre tenha vivido em paz. Ao longo da história, houve vários momentos de conflitos, revoltas e períodos de grande tensão. Conflitos políticos, revoltas populares e desigualdades sociais marcaram diferentes momentos do país. Esses episódios lembram que a paz verdadeira não é apenas ausência de guerra, mas também justiça, diálogo e respeito entre as pessoas.
Me veio na lembrança um conflito familiar ocorrido em Exu (PE), entre 1949 e 1981 entre as famílias Alencar e Sampaio. A violência foi tamanha que chegou a ser noticiada como uma “guerra de famílias” que devastou a região, marcando o cenário político e social de Exu. Uma verdadeira “tragédia sertaneja resultou em dezenas de mortes, com estimativas que frequentemente superam 50 seres humanos, em sua esmagadora maioria contra inocentes, praticados dos mais diferentes e terríveis modos – em Exu, Recife, São Luís, Rio de Janeiro e em outros lugares, além de atentados.
O jornalista estadunidense Walt Whitman falecido 1892 escreveu a seguinte reflexão poética: “O que é a paz? perguntou o silêncio. É ouvir sem precisar responder, disse a calma. Trata-se de semear harmonia onde antes só havia ruído, disse a Fé. É repousar nas profundezas da alma, disse a luz. E viver sem guerras internas, disse a consciência”. O poema sugere que a verdadeira paz é um estado de espírito que se constrói internamente, independente das circunstâncias externas. Ela define a paz não apenas como ausência de conflito, mas como um estado ativo de serenidade, aceitação, fé e equilíbrio emocional, cultivado através do silêncio, da harmonia e da consciência.
O Budismo acredita que a paz universal pode ser atingida a partir da paz interior de cada um, com base no conceito de ahimsa (não-violência). O Cristianismo entende que a paz pode ser conquistada através do amor a Deus, conforme demonstrado pela vida de Cristo. Já o Judaísmo defende um caminho para a paz através da ideia de Tikkun Olam (consertar o mundo), entendendo que judeus seriam responsáveis não apenas por seu próprio bem-estar moral, espiritual e material, mas também pelo bem-estar da sociedade como um todo.
Na realidade a História mostra que os problemas começam quando fanáticos de todos os lados se sentem no direito de guerrear em nome de seus respectivos deuses ou pensam que são Deus.
Pensei que no fim da pandemia, sairíamos melhores em todos os aspectos, principalmente no que se diz respeito a paz da humanidade. Infelizmente me enganei assim como todos aqueles que sobreviveram as duas Grandes Guerras Mundiais.
Mas na minha humilde visão, entendo que a paz começa dentro de cada um de nós e se espalha através das pequenas ações. Não há paz no mundo porque nos falta paz interior. Viver em paz consigo mesmo é um dos desafios mais complexos e profundos que enfrentamos. É um constante processo de autoconhecimento e transformação. Em casa, podemos praticar a paciência, o diálogo e o respeito, lembrando que as palavras têm poder para construir ou ferir. Conflitos nascem de palavras ditas sem cuidado ou de opiniões impostas sem diálogo. Pequenos gestos, como ceder a vez ou evitar discussões, já contribuem para um ambiente mais tranquilo. No trabalho, agir com honestidade, colaboração e compreensão ajuda a criar um ambiente mais leve e harmonioso para todos. Entre amigos, valorizar a sinceridade, a lealdade e a escuta verdadeira, fortalece os laços e evita conflitos desnecessários. Pequenas atitudes de respeito, empatia e solidariedade ajudam a fortalecer a amizade. Até mesmo no trânsito, onde muitas vezes surgem momentos de tensão, podemos escolher a calma, a gentileza e o respeito pelas outras pessoas. Construir pontes e resolver conflitos através do diálogo e da aproximação é um caminho para a paz. Viver em paz não depende apenas do mundo ao nosso redor, mas principalmente das atitudes que cultivamos no dia a dia.
A paz interna e a paz externa reforçam-se mutuamente, mas são distintas. A paz externa cria as condições para que muitas pessoas encontrem a serenidade interior; a paz interna entre muitas pessoas reduz a probabilidade de conflitos externos.
A frase “sem paz nas famílias é difícil ter paz nas ruas” é um provérbio ou ditado popular que expressa a ideia de que a harmonia e a estabilidade na sociedade dependem fundamentalmente da harmonia e da estabilidade nas unidades familiares. Precisamos assim, para a paz, começar a desenvolver a paz em nós próprios, depois em nossas famílias e a seguir em nossas comunidades. É difícil pedir a paz mundial, embora eventualmente, a nível mundial, isso seria melhor. Mas o que é mais realista é começar agora a um nível pequeno, conosco, com a família, comunidade.
Não podemos esquecer da paz que Jesus pregava. Não era apenas a ausência de conflitos, mas uma transformação profunda do coração humano. Jesus ensinou que a verdadeira paz nasce do amor, do perdão e da compaixão entre as pessoas. Declarou aos seus discípulos: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não a dou como o mundo a dá” (João 14:27). Essa paz não é a ausência de conflitos externos, mas uma paz interior que não se abala com as dificuldades.
Que possamos lembrar sempre dos ensinamentos de Jesus e buscar viver essa paz todos os dias: falando com bondade, agindo com justiça e cultivando o amor em cada atitude. Assim, pouco a pouco, o mundo se torna um lugar melhor. Mesmo que as guerras não cessem, cada pessoa pode ser um pacificador, como ensina o Evangelho: reconciliar, evitar discussões, desfazer inimizades, apaziguar brigas. Pequenos gestos que refletem o chamado de Jesus: “Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus.”
Concluímos com um texto atribuído a Motele Schlein, um menino judeu de 12 anos que se tornou um herói da resistência durante a Segunda Guerra Mundial: “Hoje tive um sonho, sonhei que o mundo estava em paz, sonhei que os velhos voltaram a frequentar as praças, e que as crianças não passavam fome, sonhei que no mundo sofrimentos e agonias não existiam, então acordando percebe que tal coisa não é impossível porque o mundo já não tem mais volta, mais se um dia isso existir eu sei que as pessoas viveriam mais feliz, apesar que muitas dessas pessoas não conseguiram viver assim, porque o sangue que corre nas suas veias, como do diabo é ruim”
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Acho super certa essa frase Erick, que já naquele epoca de várias décadas atrás, já fazia um raciocínio super lógico do que é essa estupidez chamada guerra.
Seria bem diferente, talvez, se aquele que tomasse a decisão de iniciar uma guerra, participasse da primeira linha de combate. Assim, provavelmente, seria bem mais difícil de acontecer essas tamanhas ignorância.