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05 de março de 2026 • 12 min de leituraTolerância é você dar aos outros seres humanos todo direito que você reivindica para si mesmo
Por José Viana
É natural do Rio de Janeiro. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba e Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Trabalhou 30 anos na Petróleo Brasileiro S.A. Atualmente aposentado.

Recentemente recebi através do whatsapp uma mensagem escrita por um grande amigo Sergipano; que dizia: “Hoje eu assisti na TV um vídeo onde dois vizinhos discutiam na casa de um deles e em determinado ponto começaram a trocar tapas. O vizinho visitante saiu da casa, e o dono da casa saiu do raio de visão da câmara dando a entender que foi para um quarto ou algo assim.
Em seguida, o vizinho visitante retorna com uma arma na mão e começa a atirar para dentro da casa e, em troca, uma bala se choca contra a parede próximo dele. Motivo da briga: BOLA!!!! Cada vez mais somos testemunhas de atos de intolerância e sempre entendemos que o outro é intolerante.
Acredito que é hora de começarmos todos a pensar a respeito da convivência, entre os diferentes e aceitar essas diferenças. Refletir sobre a intolerância, o que ela proporciona e o que é que devemos fazer ao enfrentar pensamentos e ações com os quais divergimos sem contudo agredir ou ofender. Deus nos fez diferentes com algum propósito. Precisamos aprender com as diferenças e não brigar por elas. Assim, todos saímos ganhando”. Essa mensagem do meu amigo sergipano, merece uma boa reflexão.
No mundo atual, as sociedades contemporâneas caracterizam-se pela pluralidade de crenças e valores e pela diversidade social expressa nas diferenças de gênero, sexualidade, idade/geração, raça, classe social e corporalidades distintas, que interagem de modo complexo. Porém, infelizmente às pessoas estão cada vez mais intolerantes por causa da influência de coisas como preconceito racial e étnico, nacionalismo, tribalismo e extremismo religioso. Não tenho dúvida, que essa intolerância é fortemente fomentada pelas redes sociais e pelos fake news.
Por isso, praticar a tolerância a cada dia exige muito de nós, pois a conturbação social e a pressão psicológica exercida sobre o homem, torna-o mais do que nunca exigente, imprudente, agressivo, preconceituoso e até inconsequente.
Historicamente vários foram os significados dados à palavra tolerância, que teve o seu sentido identificado com a caridade, a igualdade e afirmação da liberdade de crenças e de costumes do outro. É necessário compreendermos o sentido exato da palavra tolerância. Tolerância é um termo que vem do latim tolerare, que significa suportar ou aceitar.
Importante entender que o conceito de Tolerância se aplica a crenças, a ideias, ao pensamento e respetiva liberdade, às pessoas e sua forma, estilo e condições de vida, mas nada tem a ver com o juízo sobre atos. Desta forma, cada um de nós devemos tolerar, aceitar e respeitar, independentemente da sua diferença em relação a si e ao seu entendimento, a crença alheia, as ideias e o pensamento de outrem, pois a liberdade de crença e de pensamento são expressões fundamentais da dignidade humana.
Muitas vezes confundimos tolerância com conivência. Tolerar não é pactuar ou transigir com o erro, não é permitir a violação do direito ou ruptura da ordem jurídica ou mesmo atitudes de conspurcação moral. Se tal acontecesse ficaria evidenciado uma clara conduta de conivência inaceitável e transgressora. Tolerância é a habilidade de conviver, com respeito e liberdade, com valores, conceitos ou situações que, nem sempre, concordamos, portanto, há convivência, mas, não há, obrigatoriamente, conivência. Conivência é a convivência em que, mesmo não concordando com certos valores, conceitos e situações, deixamos de expressar nosso parecer desfavorável, não refutamos mesmo que só em pensamento e, não reprovando, estamos tacitamente autorizando, aceitando, gerando cumplicidade. Devemos ser tolerantes com nossos filhos quando eles erram, não podemos ser omissos e coniventes com o erro, devemos expressar nosso descontentamento e corrigir o desvio. É dever e responsabilidade de todo pai.
Ninguém vive isolado da Sociedade e todos têm de cumprir as regras sociais que viabilizam a sã convivência de todos com todos. Consequentemente, é uma simples questão de bom senso que devemos aceitar, valorizar, integrar as diferenças.
Quando o nosso igual tem uma opinião diferente ou divergente da nossa, quatro hipóteses podem existir: ou o outro está errado e nós certos, ou somos nós que estamos errados e é o outro quem está certo, ou afinal estamos ambos errados e é outra qualquer posição que está certa, ou até podemos ambos estar certos, só que em planos, tempos ou condições diferentes.
É muito fácil ser tolerante com o que não me diz respeito, com aquilo por que não me interesso, ou em relação àquilo que não me sinto minimamente responsável. Basta fechar os olhos, não emitir opinião, não escutar ou tapar o nariz e seguir em frente. Porém, é difícil entender como muitas pessoas toleraram o sofrimento dos outros, a injustiça de que outros são vítimas.
A tolerância é uma atitude fundamental para quem vive em sociedade. Uma pessoa tolerante normalmente aceita opiniões ou comportamentos diferentes daqueles estabelecidos pelo seu meio social. Ser tolerante implica na aceitação de que todo indivíduo tem a livre escolha das suas convicções, bem como enxergar que o outro tem o direito de desfrutar da mesma liberdade. Ser tolerante não significa ser bobo. Tolerância não é sinônimo de tolice.
Tolerância é a simples consequência de se reconhecer que a perfeição humana não existe e, portanto, de admitir como um fato da vida que, todos e cada um de nós temos os nossos defeitos, as nossas imperfeições, os nossos acertos e os nossos erros e é, por conseguinte, até mais do que imperativo ético, um ato de inteligência tolerar o outro com os seus defeitos, imperfeições e erros, pois só assim podemos esperar que os nossos sejam, por sua vez, tolerados.
A tolerância é uma virtude essencial na vida cristã e encontra-se presente em diversos ensinamentos bíblicos. Ser tolerante é demonstrar amor, respeito e compreensão em relação às diferenças e opiniões alheias. Através da tolerância, podemos construir relacionamentos mais fortes e criar um ambiente de aceitação e respeito mútuo. Um cristão poderá ser intransigente em sua fé, tão como um bramanista, um budista ou um maometano, porém, se todos forem tolerantes, todos defenderão o direito recíproco que a todos assiste de propagar sua fé e doutrina, sem que essa defesa indique sua aceitação.
No caso da intolerância racial, entendemos estar vinculado à submissão do negro ao branco desde a época do Brasil Colônia e perdura até os dias atuais, visto que os negros ainda buscam seu lugar na sociedade. Esta intolerância prejudica a todos, pois provoca atraso no desenvolvimento do país na medida em que esses indivíduos são humilhados e excluídos com frequência. Além disso, as religiões Candomblé e Umbanda, trazidas pelos africanos escravizados ao Brasil, também são motivo de intolerância. Isso ocorre, pois seus praticantes são tratados, pejorativamente, como “macumbeiros” e sofrem constantes agressões físicas e morais por parte de outras crenças que impõem sua religião como a única e verdadeira salvadora da humanidade.
Pela tolerância, também devemos procurar ouvir o amigos. Saber o que está acontecendo com ele, Quais são os fatos novos em sua vida, que o obrigam a desencarrilhar dos trilhos da virtude. Uns dizem que quando uma pessoa atinge idade avançada, transforma-se em sábio, pelos conhecimentos e vivência obtidos. Infelizmente, alguns realmente, ficam simplesmente velhos. Isso acontece com pessoas que atingiram a velhice, sem viver a vida, sem adentrar na arena, lutando pôr um ideal, procurando ser útil à coletividade a que pertence. Todavia, esses velhos sábios, têm o conceito de tolerância muito nítido dentro de si. Eles viveram o bastante, para se enriquecerem com inúmeros exemplos de comportamento o erro, no extrapolar o círculo da tolerância e algumas vezes, até aceitam uma pequena incursão no círculo da complacência, mas nunca admitem a entrada no círculo da conivência, que seria a degradação moral.
A tolerância também está ligada à democracia. No Brasil, há uma grande intensidade de discussões sobre a tolerância. As crises, tanto políticas quanto econômicas, costumam fortalecer grupos políticos que defendem comportamentos intolerantes. Isso porque, quando um país enfrenta uma crise, é comum que se busquem culpados – nesses momentos, surgem figuras políticas de posicionamento mais extremo com propostas simples para problemas complexos. Para ficar mais claro, vamos pegar o próprio exemplo do Holocausto. A Alemanha enfrentava uma situação econômica difícil desde que foi derrotada na Primeira Guerra Mundial. A ideologia Nazista defendia que os judeus eram culpados pela crise e, bom, o final da história todos sabemos.
Importante lembrar que a sociedade brasileira passou de uma sociedade monárquica, escravista e autoritária para um regime democrático sem romper com as estruturas de dominação e de exclusão que caracteriza a sociedade até hoje. Talvez essa seja um dos motivos que contribuíram para o grau de intolerância de muitos brasileiros.
O professor Alberto do Amaral Junior (docente em Direito pela Universidade de São Paulo), questiona: “Podem as democracias serem tolerantes com aqueles que a contestam?”. O problema é generalizado e atinge várias partes do mundo.
Há um limite para a tolerância, que é o respeito à democracia. Democracia não é fraqueza. Tolerância não é passividade. A visão polarizada de certo/errado e amigo/inimigo demonstra a falta de amadurecimento no exercício da cidadania.
Um dos ensinamentos mais marcantes sobre a importância da tolerância na vida cristã encontra-se em Colossenses 3:13: Suportem-se uns aos outros e perdoem as queixas que tiverem uns contra os outros. Perdoem como o Senhor lhes perdoou.Colossenses 3:13
O ensinamento sobre a importância da tolerância nos leva a uma reflexão sobre como a prática dessa virtude pode nos ajudar a amar até mesmo aqueles que consideramos nossos inimigos.
Em seu ministério, Jesus Cristo estava cercado de intolerância. Os judeus e os samaritanos, em especial, se odiavam (João 4:9). Os homens tratavam as mulheres como inferiores. E os líderes religiosos judaicos desprezavam o povo. (João 7:49).
Jesus Cristo era conhecido por ter um conceito bem diferente. “Este homem acolhe pecadores e come com eles”, disseram seus opositores (Lucas 15:2). Jesus era bondoso, paciente e tolerante porque sua principal motivação era o amor.
Quando somos tolerantes, estamos dispostos a aceitar as diferenças dos outros e a respeitar suas opiniões e escolhas. Quando somos tolerantes com os outros, promovemos a paz em nossos relacionamentos e comunidades. A tolerância nos permite aceitar as diferenças e encontrar pontos de conexão em meio à diversidade. Quando somos tolerantes, conseguimos enxergar além das diferenças e tratar as pessoas com bondade e compaixão, mesmo aquelas que nos magoaram. A tolerância nos permite perdoar e liberar o peso do ressentimento, abrindo espaço para o amor e a reconciliação.
Jamais devemos esquecer que a intolerância é um sentimento de ódio ou aversão a pessoas ou coisas que são diferentes de nós. Ela pode levar a conflitos, violência e guerra, enquanto a tolerância oferece uma base sólida para construir um mundo mais justo e harmonioso.
Se queremos construir um mundo mais pacífico e inclusivo, devemos seguir o exemplo de Cristo. Devemos ser tolerantes com as diferenças dos outros e devemos nos esforçar para amar e respeitar a todos.
A tolerância nos liberta do fardo do julgamento e nos permite viver em harmonia com os outros, o que contribui para nossa felicidade e bem-estar emocional. Quando aceitamos as diferenças e abraçamos a diversidade, experimentamos um sentimento de conexão com o mundo ao nosso redor.
Sábias são as palavras de Voltaire ao afirmar na sua obra “Tratado sobre a Tolerância “: “Não é preciso uma grande arte, uma eloquência menos rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar-se uns aos outros. Vou mais longe: afirmo que é preciso considerar todos os homens como nossos irmãos. O quê? O turco, meu irmão? O chinês? O judeu? O siamês? Sim, certamente; porventura não somos filhos do mesmo Pai, criaturas do mesmo Deus?” (Tratado, p. 125).
Concluímos, ratificando que a intolerância, seja de qualquer espécie, raça, religião, opção sexual, política ou cor ou qualquer tipo de preconceito deve ser combatido para, no futuro, haver uma sociedade mais igualitária e livre.
Temos sempre ter em mente, que a tolerância constitui uma dádiva preciosa e frágil, que deve ser cultuada para que se solidifique a noção de Fraternidade entre nós.
“Tolerância é você dar aos outros seres humanos todo direito que você reivindica para si mesmo” (Autor Desconhecido).
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Excelente texto, Viana!