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Reflexão

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27 de setembro de 2026
14 min de leitura

TODO PRAZER TEM UM PREÇO

José Viana

Por José Viana

É natural do Rio de Janeiro. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba e Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Trabalhou 30 anos na Petróleo Brasileiro S.A. Atualmente aposentado.

Nunca tivemos tantas formas de preencher o tempo, e talvez nunca tenhamos precisado tanto aprender a não ser dominados por elas. Redes sociais e outras tecnologias passaram a ocupar cada vez mais espaço em nossa rotina.

O desafio não está apenas naquilo que consumimos, mas na capacidade de reconhecer quando o prazer deixa de ser escolha e começa a se transformar em dependência.

Entramos em uma nova era da História. A Era dos vícios comportamentais. O pior é que substâncias e comportamentos potencialmente viciantes estão mais acessíveis do que nunca, e em que todos estamos vulneráveis ​​ao problema da dependência.

Será que podemos afirmar que vivemos em um mundo viciado? Alguns se prendem a substancias, outros, a hábitos, à alimentação, pessoas, a pensamentos, às redes sociais, às séries de televisão, ao trabalho, às compras ou até a necessidade de aprovação. Quando falamos de drogas digitais ou em alimentação, precisamos entender que ambas fazem parte de nossas vidas. Não podemos simplesmente parar de comer, assim como muitos de nós não podemos deixar de usar as mídias digitais, pois já fazem parte do nosso dia a dia. O desafio, portanto, não está necessariamente em eliminar aquilo que faz parte da nossa vida, mas em aprender a estabelecer limites e manter uma relação equilibrada com aquilo que consumimos e fazemos.

 Hoje, os vícios têm mais a ver com as coisas que fazemos do que com as coisas que colocamos em nossos corpos.  Nos últimos anos, com o avanço da tecnologia e a popularização dos jogos eletrônicos, temos observado um aumento alarmante nos casos de vício em jogos. 

Existem muitas semelhanças entre o jogo patológico (jogo de azar compulsivo) e a dependência de substâncias como álcool e drogas ilícitas. Ambos os vícios envolvem uma busca incessante por gratificação, com a ativação de circuitos de recompensa no cérebro, liberando substâncias químicas como a dopamina. A palavra “vício” é derivada de um termo em latim para “escravizado por” ou “vinculado.”

Atualmente o mais comuns vícios na sociedade envolvem o uso de substâncias químicas e comportamentos compulsivos que afetam a rotina e a saúde, tais como: drogas, álcool, cigarro (Nicotina), celular e redes sociais, medicamentos (sem prescrição), vídeo games, apostas online, etc.

Enquanto as drogas injetam substâncias químicas no organismo, os jogos virtuais, que podem ou não ser esportivas, já é considerado problema de saúde pública e tem Classificação Internacional de Doenças (CID): Transtorno do Jogo, estimulam descargas massivas de dopamina baseadas na expectativa do ganho, um transtorno classificado pela OMS como ludopatia (o vício em jogos de azar). A ludopatia provoca quadros severos de ansiedade, depressão e crises familiares, sendo comparada por especialistas a uma epidemia.

No vício em apostas (chamado de jogo patológico), o indivíduo desenvolve “tolerância”, precisando apostar valores cada vez maiores para sentir a mesma adrenalina. A abstinência se manifesta em irritabilidade, ansiedade e insônia quando a pessoa tenta parar. A dependência de apostas é um fenômeno complicado que abrange aspectos psicológicos, sociais e biológicos. O crescimento acelerado das apostas online no Brasil gerou uma crise de saúde pública e um profundo dano social, deixando sequelas financeiras e mentais.

Os jogos virtuais são um vício silencioso. O indivíduo pode estar destruindo as finanças da família pelo celular, sentado no sofá, sem que ninguém perceba de imediato. Superam as barreiras físicas do tráfico de drogas, e levam o indivíduo a se afastar de amigos e familiares, mentir sobre gastos, negligenciar o trabalho e recorrer a empréstimos ou atos ilícitos para sustentar o vício. Para piorar, elas estão disponíveis 24 horas por dia no bolso do cidadão. Milhões de CPFs negativados no país têm ligação direta com o comprometimento da renda familiar em apostas de quota fixa. Dinheiro que deveria ser usado para pagar contas básicos (como água, luz ou aluguel) e colocar comida no prato tá indo para as casas de apostas. Sem falar que a dinheirama que circula nesse mercado pode e com certeza tem sido utilizada para a lavagem de recursos do crime organizado.

Diferente das drogas, onde o usuário sabe que o efeito é químico, o apostador frequentemente desenvolve a falsa crença de que pode “vencer o sistema” usando lógica ou estratégias, o que prolonga o ciclo do vício. Enquanto o vício em substâncias costuma ter um teto físico de consumo diário, o vício em apostas digitais permite a perda de patrimônios inteiros em minutos.

O brasileiro mantém, ao longo de sua história, uma relação estreita com os jogos e as apostas. Das loterias legalizadas ao tradicional jogo do bicho, essa prática atravessa gerações, movimenta recursos financeiros e desperta discussões sobre seus impactos sociais, econômicos e culturais.

Criado em 1892 pelo Barão João Batista Viana Drummond, com o objetivo de arrecadar recursos para o Zoológico do Rio de Janeiro, o jogo do bicho rapidamente ultrapassou os limites do parque e se espalhou pelo país. O que começou como uma forma de entretenimento transformou-se em uma prática profundamente enraizada no cotidiano brasileiro. Com o passar dos anos, entretanto, o jogo do bicho também passou a ser associado a redes de contravenção, comandadas pelos chamados “banqueiros do bicho”, envolvendo estruturas hierárquicas, famílias tradicionais e, em determinados contextos, organizações criminosas. Essa trajetória revela uma contradição: uma atividade que conquistou espaço na cultura popular também se tornou objeto de preocupações relacionadas à ilegalidade, à fiscalização e à segurança pública.

Lembramos que a legislação brasileira considera jogos de azar aquelas atividades cujo resultado final depende mais de fatores aleatórios do que da habilidade ou estratégia do jogador. Um dos principais pontos de dúvida, ao discutir quais atividades são considerados jogos de azar, está justamente na diferença entre jogos baseados predominantemente na sorte e aqueles que envolvem habilidade ou estratégia. Ressaltamos que tramita no Congresso o Projeto de Lei nº 2.234/2022, originário de uma proposta apresentada pelo deputado federal Renato Vianna (MDB-SC), que prevê a regulamentação de atividades como o jogo do bicho, os cassinos e os bingos. A proposta, que ainda tramita no Senado Federal.

A primeira loteria oficial no Brasil foi criada em 1784 por ordem do vice-rei Luís de Vasconcelos e Sousa, com o objetivo de financiar obras públicas e a construção da Casa de Ópera do Rio de Janeiro. Em Minas Gerais, Vila Rica (atual Ouro Preto) também realizou sorteios no mesmo ano para erguer a Câmara de Vereadores e a Cadeia Pública. Os lucros ajudavam a financiar instituições de caridade, Santas Casas, hospitais e orfanatos para manter o controle social. Em 27 de abril de 1844, o imperador Dom Pedro II assinou decreto nº 357 que tinha como objetivo principal, regulamentar, de maneira uniforme, a extração das loterias em todo Império, diante de reclamações e irregularidades.

Em 1920, o presidente Epitácio Pessoa decidiu liberar os cassinos, mas só nas estâncias balneárias, climáticas e de águas. O imposto do jogo custearia o saneamento básico no interior do Brasil. Mas foi apenas com a chegada de Vargas ao poder, em 1930, que os cassinos prosperaram. O presidente baixou decretos estimulando a construção desses estabelecimentos. Vargas fez um jogo duplo. Por um lado, ele aprovou as leis trabalhistas, para afagar a população mais pobre, que se mudava do campo para a cidade. Por outro lado, incentivou os cassinos, para ganhar também o apoio da elite. Os cassinos não se resumiam à jogatina. Eram grandes complexos de entretenimento. Os apostadores podiam jantar no restaurante, tomar drinques no piano-bar, dançar ao som da orquestra no salão de baile e assistir a musicais no teatro.

Em 30 de abril de 1946, três meses depois de assumir a Presidência da República, o general Eurico Gaspar Dutra pegou o país de surpresa e, com um decreto-lei, ordenou o fim dos jogos de azar. Dutra argumentou que a “tradição moral, jurídica e religiosa” do brasileiro é incompatível com os jogos, que eles são “nocivos à moral e aos bons costumes”, que os “povos cultos” não os toleram e que os reprimir é um “imperativo da consciência universal”. Não se sabe precisamente por que Dutra decidiu parar o negócio dos cassinos. Há várias hipóteses, a versão mais prosaica, porém, é que os cassinos foram fechados a pedido a primeira-dama, Carmela Dutra, chamada pelos íntimos de Dona Santinha. Que ela teria aderido à cruzada da Igreja Católica contra o ambiente viciado e libidinoso dos cassinos e pressionado o marido.

Essa proibição permanece válida até hoje, com exceções pontuais estabelecidas em legislações posteriores. Por exemplo, a Loteria Esportiva (atual Loteca) que foi criada oficialmente no Brasil em 27 de maio de 1969, quando o decreto-lei foi assinado pelo presidente Artur Costa e Silva. Sendo que só em 19 de abril de 1970 aconteceu o primeiro concurso teste da loteria, restrito então ao estado da Guanabara (atual Rio de Janeiro) e em 7 de junho de 1970, ocorreu o primeiro concurso oficial de apostas em todo o país, que marcou o início do sucesso do jogo entre os brasileiros.

Ao criar a Loteria Esportiva, o governo federal trouxe a prática para a legalidade sob o monopólio do Estado, permitindo controlar as apostas, arrecadar impostos e oferecer ao povo a promessa de “do povo ficar rico da noite para o dia” com segurança jurídica.

Retornando às apostas virtuais, entendemos que o debate precisa superar a dicotomia simplista entre ser “a favor” ou “contra” as apostas. A questão é muito mais complexa.
Os jogos de azar apresentam riscos gravíssimos. Precisamos combater a ludopatia (vício em jogos) e proteger a saúde financeira e mental da população. Na minha opinião, isso é indiscutível.
Por outro lado, o mercado ilegal também apresenta graves riscos, pois escapa dos mecanismos de controle e fiscalização. Mesmo na ilegalidade no Brasil e em diversos países, as apostas nunca deixaram de existir. Impulsionadas pelo avanço da tecnologia, ganharam ainda mais força.
Muitos sites de apostas estão sediados no exterior, o que dificulta a aplicação da legislação brasileira, a tributação, a fiscalização e até mesmo a garantia dos direitos dos usuários. A proibição empurrar os apostadores para plataformas ilegais e clandestinas, que operam fora do alcance da fiscalização nacional. Afinal, proibir não significa necessariamente acabar com as apostas, especialmente em um mercado que hoje é predominantemente digital.
Para tornar a situação ainda mais complexa, as casas de apostas se tornaram importantes patrocinadoras dos clubes de futebol, inclusive do meu Fluminense. Essas empresas patrocinam equipes espalhadas por todas as regiões do país, seja por meio de acordos menores, seja por contratos milionários de patrocínio master. Também passaram a marcar presença em competições esportivas, patrocinando campeonatos estaduais e nacionais, além de estabelecer parcerias com agências de marketing, influenciadores digitais e plataformas de mídia.
Diante desse cenário, será que existe uma solução? Talvez estejamos diante daquele velho ditado popular: “Se correr, o bicho pega; se ficar, o bicho come.” Tanto a regulamentação quanto a proibição apresentam desafios e possíveis consequências negativas. De um lado, precisamos proteger a população dos riscos associados às apostas. Do outro, não podemos ignorar que a proibição pode fortalecer um mercado clandestino, ainda mais difícil de controlar.

Esses acontecimentos me fazem lembrar da Lei Seca nos Estados Unidos, que vigorou de 1920 a 1933 e proibiu a fabricação, a venda e o transporte de bebidas alcoólicas. A medida acabou favorecendo o crescimento de um gigantesco mercado clandestino, explorado pelo crime organizado. 
Foi nesse cenário que Al Capone consolidou seu império criminoso, envolvendo contrabando de bebidas alcoólicas, jogos ilegais e prostituição. Apesar de suas inúmeras atividades criminosas, acabou condenado por sonegação de impostos em 1931, recebendo uma pena de 11 anos de prisão.

A história nos deixa uma reflexão: a proibição, por si só, não elimina necessariamente uma atividade, assim como a regulamentação não garante que seus riscos desapareçam.
Talvez o verdadeiro desafio seja encontrar um equilíbrio entre a liberdade individual, a proteção da sociedade e a capacidade do Estado de fiscalizar um mercado que não conhece fronteiras.
Afinal, mais importante do que simplesmente permitir ou proibir é compreender as consequências de cada escolha.

Enfim, longe de ser apenas um entretenimento inofensivo, o mercado de jogos digitais atua como uma dependência comportamental severa, cujos impactos neurológicos e sociais assemelham-se aos das substâncias químicas tradicionais. Por isso, entendemos que os governantes do Executivo, Legislativo e Judiciário, e a sociedade em geral não podem ficar braços cruzados enquanto os ganhos suados de pais de família escorrem velozmente para os cofres dos magnatas da jogatina eletrônica.

Importante termos consciência das consequências para a sociedade. Afinal, por trás de cada aposta existe uma expectativa de ganho, mas também a possibilidade de perda.

Importante sempre lembrarmos que o vício não é uma falha de caráter ou falta de força de vontade, mas sim uma condição de saúde complexa que envolve fatores genéticos, biológicos, ambientais e psicológicos, exigindo tratamento médico e terapêutico adequado.

A Bíblia diz que, embora muitas coisas sejam permitidas, nenhuma delas deve nos governar ou controlar. Deus vê os vícios como uma forma de escravidão espiritual que domina a mente e afasta a pessoa da liberdade que Cristo oferece.  O vício rouba o domínio próprio, que é uma virtude ensinada como fruto do Espírito Santo. Comportamentos que destroem o corpo e a mente não estão de acordo com a vontade divina de liberdade. 

A ciência nos ensina que todo prazer tem um preço e que a dor que se segue é mais duradoura e mais intensa do que o prazer que lhe deu origem. Seja no sentido físico, financeiro ou emocional. Alguns pagamos com dinheiro, outros com tempo, escolhas ou consequências. Por isso, antes de buscar o prazer, vale perguntar: o preço que vou pagar amanhã compensa a alegria que sinto hoje?

Enfim, acredito que todos nós temos algum tipo de vício, e por isso não posso afirmar que também não tenha. Lembrando da música “Meu Vício é Você, faço a seguinte declaração para minha esposa: “Meu cigarro é o perfume do mato, a bebida é a água da fonte, meu perfume é a flor de laranja, jogo apenas o jogo do amor. Eu não vou lhe dizer que não tenho defeitos, mas com eles me arrumo me acerto, me ajeito. Meu problema é um segredo guardado no peito, que se chama paixão. Meu vício é você. Meu cigarro é Você! Eu a bebo, eu a fumo. Meu erro maior eu aceito, eu assumo. Por mais que eu não queira.  Eu só quero você”.

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Comentários 3

  1. Marcus Soares •

    O tema trazido à tona ė extremamente atual, muito recentemente tivemos a autorização para as Bets e tempo depois por motivos eleitoreiros a proibição para as mesmas.
    Neste imbróglio todo o povo é só um detalhe!

  2. Vera Lúcia Araújo de Oliveira •

    O que era visto com desconfiança, hoje aparece com entretenimento. Mas o que leva alguém a cair nessa armadilha, não é so o desejo de ganhar dinheiro. É a ilusão de controle, a fuga da dor. O alívio momentâneo da ansiedade. Mas não deixe que o vício domine, peça ajuda , a cura acontece quando existe acolhimento da família, grupos de apoio,paciência e conexão humana. Peça ajuda Deus para suportar as tentações. Faça como nosso amigo
    José Antônio, o seu vício é sua mulher (MAZÉ) isso é que é amor e paixão. Parabéns meu compadre.

  3. Thiago •

    Muito bem escrito. Conseguiu explicar bem a conjuntura!!! Que aula!!!