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09 de agosto de 2026 • 11 min de leituraÉ mais fácil colocar a culpa nos outros
Por José Viana
É natural do Rio de Janeiro. Formado em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal da Paraíba e Ciências Contábeis pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Trabalhou 30 anos na Petróleo Brasileiro S.A. Atualmente aposentado.

Desde o início da humanidade, o ser humano revela uma enorme dificuldade em reconhecer as próprias culpas. Com frequência, prefere terceirizá-las a se colocar humildemente diante dos próprios erros.
Como observou o dramaturgo, poeta e romancista italiano Luigi Pirandello, é próprio da natureza humana, lamentavelmente, sentir a necessidade de culpar os outros pelos nossos desastres e pelas nossas desventuras.
A culpa, como uma consequência de nossas ações ou omissões, tem sido objeto de reflexão e estudo de filósofos e antropólogos ao longo da história.
Lembrando o capítulo 3, versículos 1 a 24, do Livro do Gênesis, que narra os momentos maravilhosos que o homem e a mulher desfrutaram ao conviver com Deus no Jardim do Éden, infelizmente, essa convivência não durou muito tempo. Satanás entrou no jardim em forma de serpente para enganá-los. Dirigiu-se à mulher para tentá-la a comer o fruto da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, a única cujo fruto Deus havia ordenado que não comessem. Se o comessem, morreriam. Porém, a serpente mentiu à mulher e a convenceu a comê-lo. Para piorar ainda mais a situação, ela também deu o fruto ao seu marido, Adão, que estava com ela. Assim que perceberam o que haviam feito, Adão e sua mulher sentiram vergonha. Pegaram folhas de figueira para se cobrir, pois perceberam que estavam nus. Mais tarde, quando Deus foi passear pelo Jardim do Éden, sentiram medo e tentaram esconder-se do Senhor. Mas ninguém pode esconder-se de Deus nem ocultar o seu pecado aos olhos do Senhor. Então Deus perguntou a Adão por que ele havia desobedecido. O homem não apresentou uma boa justificativa: culpou a própria mulher. Em seguida, quando Deus perguntou à mulher por que havia desobedecido, ela, por sua vez, culpou a serpente.
Em resumo: Adão põe a culpa em Eva, enquanto Eva a põe na serpente. Assim somos nós quando não queremos assumir os nossos erros. Em vez de batermos no peito e dizer: “Por minha culpa, por minha culpa, por minha tão grande culpa”, insistimos em afirmar que a culpa é sempre do outro.
Essa passagem bíblica reforça a frase de Ana Paula Amaral (bacharel em Administração de Empresas): “É mais fácil colocar a culpa nos outros do que assumir os próprios erros.”
A primeira civilização a fazer referência ao conceito de culpa foi a grega. Quando alguém cometia um erro que resultava em uma consequência desastrosa ou trágica, esse erro era denominado hamartia, termo que designa uma falha ou equívoco que conduz à tragédia. Em todas correntes religiosas, a culpa é frequentemente associada à transgressão de princípios divinos.
O sentimento de culpa foi analisado com profundidade por Freud. Em primeiro lugar, sabe-se que o ser humano possui uma consciência moral capaz de experimentar o sentimento de culpa de maneira complexa e simbólica. Não apenas quando comete um delito ou um crime, mas também por carregar, muitas vezes, uma culpa que não está diretamente ligada a um ato específico, mas à própria existência. É como se, em determinados momentos, sentisse dificuldade em aceitar plenamente aquilo que é.
Freud distingue três formas de culpa: a culpa consciente, que o indivíduo reconhece e pode negar ou afirmar; a culpa inconsciente, relacionada ao complexo de Édipo e que permanece reprimida; e o sentimento inconsciente de culpa, que se manifesta de forma silenciosa e pode estar associado a conflitos internos profundos.
O ser humano tende, muitas vezes, a transferir a culpa para outras pessoas ou para fatores externos, buscando justificar comportamentos, atitudes ou resultados que não foram satisfatórios.
A dificuldade em assumir os próprios erros existe porque encontrar culpados tornou-se um hábito humano. Quando sofremos, procuramos alguém responsável por esse sofrimento; quando algo não dá certo, frequentemente acreditamos que alguém conspirou contra nós.
Nós, seres humanos, viemos ao mundo equipados com mecanismos naturais de defesa, como uma espécie de imunidade inata. A transferência da responsabilidade pela culpa também pode funcionar como um mecanismo de defesa, mas nem sempre devemos utilizá-lo. Colocar a culpa em terceiros proporciona uma sensação momentânea de alívio, porém impede o amadurecimento e a responsabilidade pessoal.
Embora muitas vezes não percebamos, o cérebro humano tende a procurar alguém ou algo para atribuir a responsabilidade pelo que acontece em nossa vida, seja um acontecimento de grande ou pequena importância. Se alguém falha em um exame, pode culpar o professor, acreditando que ele foi injusto. Se uma pessoa caminha por uma avenida, tropeça em uma pedra e cai, pode, após sentir constrangimento, responsabilizar a prefeitura pela falta de manutenção da calçada. A busca por um bode expiatório é, portanto, um comportamento frequente e quase instintivo. Assumir os próprios erros, ao contrário, exige humildade, autoconhecimento e coragem para reconhecer a própria responsabilidade diante da vida.
“É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”, já dizia Raul Seixas na sua música Por quem os sinos dobram: “Nunca se vence uma guerra lutando sozinho. Você sabe que a gente precisa entrar em contato. Com toda essa força contida é que vive guardada. O eco de suas palavras não repercutem em nada. É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro”. No contexto da letra, Raul Seixas canta sobre a ineficácia de tentar vencer desafios isoladamente, destacando a necessidade de buscar aliados e de se conectar com os outros. A canção critica a tendência humana de atribuir a culpa aos outros para evitar a autocrítica e a ação.
No mundo corporativo não é diferente. Culpamos a concorrência por não atingirmos as metas. Culpamos os colegas por não colaborarem. Culpamos o chefe, o chefe do chefe. Culpamos o sistema da empresa, que muitas vezes dizemos não funcionar. Culpamos as políticas internas, a cultura organizacional e até os clientes.
Nossa sociedade aprendeu a procurar culpados. Parece necessário apontar de quem é a responsabilidade. Entretanto, ainda é incipiente a discussão sobre os aprendizados que podem surgir dos erros cometidos. Preocupamo-nos muito mais em encontrar um culpado do que em compreender as lições que as situações difíceis podem nos oferecer. Mas e se, em vez de discutirmos apenas de quem é a culpa, passássemos a refletir sobre os aprendizados e a evolução que esses momentos podem nos proporcionar?
Geralmente, culpar os outros é um comportamento comum nas crianças. Isso ocorre porque seu desenvolvimento cognitivo e moral ainda está em formação, dificultando a compreensão da importância de assumir responsabilidade por suas ações. Por isso, muitas vezes elas tentam evitar a punição quando percebem que fizeram algo que não deveriam. Infelizmente, alguns adultos continuam reproduzindo esse comportamento em diferentes situações da vida.
Casamento e diferenças são como massa e molho: muitas vezes caminham juntos. As divergências podem contribuir para o crescimento do casal e fortalecer o relacionamento, desde que sejam conduzidas com respeito, diálogo e maturidade. Porém, muitas vezes, tendemos a responsabilizar nosso cônjuge por todos os infortúnios. Se os filhos apresentam dificuldades de comportamento, a culpa é atribuída ao outro. Se o dia não foi bom, novamente procuramos um responsável. Essas transferências constantes de responsabilidade podem se tornar prejudiciais ao relacionamento. Além disso, quando colocamos no outro a responsabilidade pela nossa felicidade, acabamos criando uma dependência que pode transformar o relacionamento em uma relação de cobrança e desgaste.
Relacionamentos saudáveis são construídos com comunicação aberta, respeito mútuo e responsabilidade compartilhada. Se uma pessoa é constantemente culpada pelos erros, responsabilizada por todos os conflitos e sente que sempre precisa pedir perdão, isso pode indicar um desequilíbrio na relação. O caminho mais saudável é reconhecer a própria parcela de responsabilidade e buscar, juntos, soluções para os desafios.
Algum tempo atrás, em um programa Globo Rural, falando das queimadas amazônicas, houve um foco expressivo no Mato Grosso e nos produtores de grãos e suas perdas. Foi perguntado aos produtores como o fogo chegou, a cada depoimento, ouvíamos: “Ah, veio do vizinho. Algum descuido por lá”. Fiquei um pouco confuso, mas serviu-me para resgatar a história dos outros sempre culpados e daqueles que não têm umbigos. Faz-me parecer só termos olhos para os próprios umbigos. “Nós aqui somos ótimos, quem ferra tudo são eles lá.”
“Errar é humano, culpar outra pessoa é política.” A frase é de Hubert H. Humphrey, vice-presidente dos Estados Unidos na década de 60. Se a culpa é sempre da política, a culpa também será de todo e qualquer governo antes, durante e depois do mandato. Aliás, tudo vai de mal a pior por culpa da “política” e do “jeitinho político”. Isso é se isentar do seu papel de cidadão em um país democrático, onde democracia significa “governo do povo”. Dizem alguns: “Se existe deputado/a, senador/a, governador/a, presidente, prefeito/a que são incompetentes, desonestos, ladrões do dinheiro do povo foram todos/as escolhidos de forma “soberana” pelo voto direto e secreto do povo”.
Se o povo é soberano, afinal, todo poder emana do povo em uma democracia, o exercício dessa soberania popular não deve ser substituído por favores, sacolões, benefícios oferecidos em troca de apoio, tapinhas nas costas, promessas de emprego, pequenas vantagens ou mesmo por discursos belos e inflamados. A cidadania exige consciência, participação e responsabilidade nas escolhas daqueles que irão representar a sociedade.
Será que faz o menor sentido culpar Portugal pelas nossas mazelas do presente, se o país não controla a política brasileira desde 1822? Aquilo que fizemos para que o Brasil se tornasse o que é hoje é resultado das nossas escolhas e da responsabilidade de nossa sociedade ao longo da história, assim como das gerações que nos antecederam. Não é coerente atribuir aos portugueses ou à Igreja Católica a responsabilidade por todos os nossos infortúnios. Afirmar que ambos continuam sendo responsáveis pelos problemas atuais é, mais uma vez, transferir a terceiros uma responsabilidade que também nos pertence. Afinal, o hábito faz o monge.
Conhecer a nossa história política, bem como as ideias, ideologias e os personagens centrais da cadeia de comando, é uma das maneiras mais adequadas de identificar e reconhecer os erros, para que possamos reformar aquilo que precisa ser reformado e eliminar o que deve ser eliminado.
A estratégia de culpar os outros para evitar assumir responsabilidades pelas consequências dos próprios erros nunca é uma boa escolha. No final, isso apenas conduz a relações superficiais e impede o verdadeiro crescimento pessoal.
Ao culpar terceiros ou circunstâncias externas, o indivíduo deixa de reconhecer aquilo que pode ser aprimorado em si mesmo. Deixa de olhar para dentro de si e de perceber suas próprias limitações e dificuldades. Culpar os outros pelos próprios erros, sofrimentos e carências acaba causando prejuízos significativos a si mesmo e aos relacionamentos que constrói.
É mais fácil culpar a Deus ou aos outros por nossas ações do que assumir a responsabilidade por nós mesmos. Encontrar um culpado é fácil; o desafio é reconhecer quem realmente tem responsabilidade.
Somos responsáveis pelas escolhas que fazemos e pelos caminhos que decidimos seguir. Muitas vezes, são essas escolhas que nos conduzem para o bem ou para o mal, assim como na narrativa de Adão e Eva, quando o ser humano tenta transferir a responsabilidade por seus atos. Quem insiste em culpar os outros tende a reforçar para si mesmo e para aqueles ao seu redor a ideia de que não tem controle sobre a própria vida e, consequentemente, dificulta a busca pela felicidade.
É importante lembrar que ninguém nasce com um sentimento de culpa pronto. Ele é construído ao longo da vida, a partir das relações sociais, da educação e das experiências com outras pessoas e com os seres vivos. Também está relacionado ao desejo humano de agir corretamente e alcançar a perfeição.
Culpar os outros constantemente nos impede de crescer como seres humanos. Somos responsáveis pela forma como conduzimos a nossa vida hoje. Cada escolha e cada atitude contribuíram para nos trazer até o ponto em que estamos.
“Assumir a responsabilidade pelas próprias escolhas é um dos caminhos para o crescimento. Culpar os outros apenas nos impede de evoluir.” (Diego Sukuri)
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Meu amigo Zé, o que escreveste, é a mas pura verdade, é do ser humano encontrar um culpado, quando o mesmo foi quem errou ,abraços
Parabéns! Belo texto. Este assunto sempre me tocou, observei que assumir os meus erros me permitia aprender com eles. Belo texto, que aborda os diversos cenários deste ato tão comum nos dias de hoje, pois a política do negacionismo tem ganhado muita força em nossa sociedade, onde o pobre é o culpado pela pobreza.
Meu caro amigo obrigado, felicidades!!