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23 de dezembro de 2025
10 min de leitura

O Homem de Nazaré

No ano de 1973, foi lançada em todo Brasil, à música “O Homem de Nazaré” de autoria do compositor Cláudio Fontana. A canção foi um grande sucesso na voz do cantor Antônio Marcos. A música é uma homenagem a Jesus Cristo, focando em seus ensinamentos de humildade e amor. No início da letra da música temos a seguinte parte: “Mil novecentos e setenta e três. Tanto tempo faz que ele morreu. O mundo se modificou.  Mas ninguém jamais o esqueceu. E eu, sou ligado no que ele falou.  Sou parado no que ele deixou. O mundo só será feliz.  Se a gente cultivar o amor. Hei, irmão, vamos seguir com fé.  Tudo que ensinou.  O Homem de Nazareth”.

Em outro trecho da música ele diz: “Ele era um rei. Mas foi humilde o tempo inteiro.  Ele foi filho de carpinteiro.  E nasceu em uma manjedoura. Não saiu jamais. Muito longe de sua cidade. Não cursou nenhuma faculdade. Mas na vida Ele foi doutor”.

Focando nessa parte final, a música diz que Jesus não cursou nenhuma faculdade mas na vida Ele foi “Doutor”. Este termo é derivado do grego didáskalos ((διδάσκαλος) que significa também, “mestre” ou “instrutor”.

Em latim a palavra “Mestre” (magister) significa aquele que concluiu o curso de pós graduação ” strictu sensu” de mestrado, defendendo uma dissertação aprovada perante banca examinadora composta de doutores.

Em resumo, o título de mestre é um grau acadêmico de pós-graduação stricto sensu e é comum em uma ampla gama de profissões, especialmente naquelas que envolvem ensino superior, pesquisa científica e posições de alta qualificação no mercado de trabalho. É um requisito comum ou um diferencial importante para lecionar em faculdades e universidades.

Em sentido amplo, essa palavra evoluiu para indicar alguém que domina profundamente uma arte, profissão ou ciência, ou que tem a capacidade de ensinar. Exemplos notáveis incluem: Mestre de Obras, Mestre-Mecânica, Mestre em artes marciais, Mestre-Cuca, Mestre-Sala, etc. De forma geral, “mestre” pode ser usado para se referir a qualquer pessoa que seja uma autoridade ou perita em sua ciência, arte ou atividade, no sentido de professor ou instrutor.

Na Bíblia, “mestre” (ou “rab”) refere-se a alguém com autoridade em ensino, que guia e instrui outros, especialmente em assuntos espirituais e religiosos. Nela encontramos abundantemente Jesus sendo chamado de Rabi e Senhor, evidenciando que o povo o respeitava como mestre. Na tradição judaica, os rabinos eram os mestres religiosos responsáveis por ensinar a lei de Moisés e interpretar as Escrituras.

Provavelmente a maioria das pessoas viam Jesus, mais como mestre do que como Messias. Fica claro que Jesus foi amplamente reconhecido e chamado de “Mestre” pelos que o rodeavam, tanto por sua sabedoria quanto por seu papel de líder espiritual. Foi reconhecido como mestre até pelos escribas e fariseus como podemos ver nessa passagem do evangelho Marcos 12:14: “Mestre, sabemos que és sincero e que, porque não olhas à aparência dos homens, mas ensinas o caminho de Deus seguindo a verdade; é permitido que se pague o imposto a César, ou não? Devemos, ou não pagá-lo?

Importante lembrar que Jesus Cristo não frequentou os bancos de uma escola, nem cresceu aos pés dos intelectuais da época, dos escribas e fariseus, mas frequentou a escola da existência, a escola da vida. Nessa escola, conheceu profundamente o pensamento, as limitações e as crises da existência humana.

Ele não tinha para si “uma” escola ou “um” púlpito, onde ensinava, Ele fazia isso junto nas Sinagogas, à beira do mar, em embarcações, em montes, pelos caminhos por onde andava. Percorria ensinando em várias cidades e as multidões sempre o acompanhavam, andando como ovelhas atrás de seu pastor, ao final de tarde. Todas as referências que podemos verificar mostram Jesus ensinando em vários lugares, sendo constantemente, chamado de “Mestre” ou “Rabino.

Por onde passava, atuava como mestre e iniciava sua escola. Nela não havia mesa, carteira, lousa, giz, computador ou técnica pedagógica. Então que práticas pedagógica Jesus utilizava para conseguir prender a atenção de multidões? Sua técnica eram suas próprias palavras, seus gestos e seus pensamentos. Sua pedagogia era sua história e a maneira como abria as janelas da inteligência dos seus discípulos.

Na verdade, Jesus sabia que tinha que levar o seu ensino para todos quantos pudesse alcançar, mas que no momento sozinho era, humanamente, impossível, então, Ele começou a doutrinar os seus discípulos na arte da oratória e da comunicação e de como transmitir com amor, utilizando-se somente deste recurso. Para realizar o seu ensinamento com extrema qualidade e perfeição, seu segredo era a prática das suas palavras, pois seu ensino falava para a experiência do coração, onde levava o homem a edificação da razão. A atuação de Jesus como educador, foi notória para todos que estavam a sua volta na época.

Ele não só ensinava, mas também demonstrava com sua vida o que pregava, incluindo humildade e serviço. Destacou por sua capacidade de ensinar com clareza, simplicidade e autoridade, usando parábolas e histórias para transmitir verdades espirituais complexas. 

Ele compreendia a forma de pensar das pessoas. Ele foi um dos maiores professores da história porque sabia que cada pessoa só pode compreender as coisas a partir da sua perspectiva pessoal. Por isso ele ensinava por meio de parábolas. “E não lhes falava nada a não ser em parábolas; a sós, porém, explicava tudo a seus discípulos.” (Marcos 4:34). A parábola é uma história que nos ajuda a compreender a realidade. Podemos extrair dela as verdades que formos capazes de entender e aplicá-las em nossas vidas, à medida que crescemos e evoluímos, podemos rever as parábolas para descobrir novos significados que nos guiem em nossos caminhos.

Alguns dos discípulos do mestre de Nazaré tinham um comportamento pior do que muitos alunos rebeldes da atualidade, mas ele os amava independentemente dos seus erros. O semeador da Galileia estava preocupado com o desafio de transformá-los. Ele era tão cativante que despertou a sede do saber naqueles jovens, em cujas mentes não havia mais do que peixes, aventura no mar, impostos e preocupação com a sobrevivência.

Quando Jesus falava, todos ouviam e tremiam. Ficavam atônitos, e o coração deles derretia, porque ele falava com autoridade. “Chegando à sua cidade, começou a ensinar o povo na sinagoga. Todos ficaram admirados e perguntavam: De onde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes milagrosos?”. Mateus (13, 54).

Ao analisarmos os evangelhos, percebemos que Jesus conhecia profundamente as Escrituras Sagradas. Fazia citações de memória. Jesus compreendia profundamente a natureza humana. Interessava-se mais pelo ser humano do que pelos credos, cerimônias, ritos e organizações, e sempre buscava fazer algo para ajudar as pessoas. Atitudes como essas, sempre caracterizaram os grandes mestres que passaram por este mundo.

Jesus sabia que seu ensino transformava vidas. Não admira que tantos o seguissem, porque seus ensinamentos mudavam vidas. Ele conclamava as pessoas a um compromisso radical e a tomar atitudes drásticas. Depois de ouvi-lo, as pessoas nunca mais seriam as mesmas.

Tinha grande paciência para educar, mas não era um mestre passivo, e sim provocador. Não apreciava uma plateia passiva de alunos. Por isso, gostava de instigar e provocar continuamente a inteligência deles, e, para isso, aproveitava todas às oportunidades.

Embora fosse eloquente, expunha e não impunha suas ideias. Não persuadia e nem procurava convencer as pessoas a crer nas suas palavras. Não as pressionava para que o seguissem, apenas as convidava. Ele era tão sofisticado em sua inteligência que fazia psiquiatria e psicologia preventiva quando essas nem ensaiavam existir.

A intrepidez de Cristo era tão impressionante que ele se colocava acima das leis físico-químicas. Chegou a expressar que “os céus e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão”

O mestre de Nazaré era um maestro da vida. Ele usava seus momentos de silêncio, suas parábolas, suas reações para estimular seus incultos discípulos a se tornarem um grupo de pensadores, capazes de tocar juntos a mais bela sinfonia de vida.

Era um agradável contador de histórias. Todos sentiam o privilégio de estar ao lado dele. Paciente e carismático na arte de ensinar. Jesus também foi visto como um mestre revolucionário, que questionava as normas e tradições estabelecidas da sociedade da época.

Tinha uma característica que se destaca claramente em todas as suas biografias, mas que muitos não conseguem enxergar. Era tão sociável que participava continuamente de festas. Participou da festa em Caná da Galileia, da festa da Páscoa, do tabernáculo e muitas outras.

Há mais de dois mil anos Ele nos deu um exemplo, uma direção a seguir, uma posição a ser tomada. Os ensinamentos de Cristo se encontram não apenas em Suas parábolas e em Seus sermões, mas também no exemplo pessoal que Ele nos deu durante Sua vida, um exemplo de obediência, humildade e amor.

Para ele, o conhecimento devia se traduzir sempre nos atos e não nos discursos racionais. Foi isso que ele quis dizer quando falou: “A sabedoria é demonstrada pelas suas ações.” (Mateus 11:19).

Na escola de Cristo não há reis, políticos, intelectuais, iletrados, moralistas e imorais. Todos são apenas o que sempre foram, ou seja, seres humanos. Ninguém está um milímetro acima ou abaixo de ninguém. Todos possuem uma relação fraternal de igualdade.

Jesus conseguia ensinar desde o mais simples dos homens até o mais culto e estudado. Escribas, fariseus, autoridades judaicas e romanas, homens e mulheres de alta posição, mendigos e as mais tenras criaturas eram alcançadas por ele, em meio a uma multidão eclética e diversificada. Perturbou profundamente a inteligência dos homens mais cultos de sua época. Os escribas e fariseus, que eram intérpretes e mestres da lei, que possuíam uma cultura milenar rica, ficaram chocados com seus pensamentos.

Ele veio ao mundo para revelar o amor de Deus e ensinar como viver de acordo com Sua vontade. Nos chamou a amar, perdoar, servir com humildade, orar com fé, compartilhar o evangelho e confiar na salvação que Ele oferece.

A vida de Jesus é um modelo perfeito a ser seguido, e sua mensagem de amor, perdão e esperança continua relevante e poderosa. Ninguém tem dúvida Jesus sempre será o Maior Mestre desse mundo de Deus. Ou temos?

Concluímos lembrando do refrão da música “O Homem de Nazaré”:  Hei, irmão, vamos seguir com fé.  Tudo que ensinou.  O Homem de Nazaré.

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30 de outubro de 2025
11 min de leitura

Quem nunca errou que atire a primeira pedra

Acredito que a maioria das pessoas tenham escutado a expressão “Quem nunca errou que atire a primeira pedra. Por exemplo, quem nunca errou numa discussão familiar, com amigos, no trabalho, no transito, numa decisão, ou se exaltou e até julgou erroneamente o outro. Quem nunca calou para encobrir um misero erro, ou não se omitiu internamente, entre pensamentos. Quem nunca errou no amor?

Em nossa língua portuguesa, há um provérbio muito conhecido, que sofre pequenas variações a depender do local onde ele é pronunciado: “Quem tem telhado de vidro, não joga pedra no do vizinho!”. A origem dessa frase da sabedoria popular se relaciona com o desafio dirigido por Jesus aos fariseus e aos mestres da Lei no evangelho de hoje: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra.” (João 8,7). “Ter teto de vidro” significa que todos têm uma fragilidade pessoal ou um “calcanhar de Aquiles”.

Um autor desconhecido escreveu: “Quem nunca errou ou pecou que atire a primeira pedra. Não sou a primeiro a errar, nem a último. A vida não é feita de perfeição e sim de erros.”.

Ninguém é perfeito, somos todos perfectíveis. “Perfeito”, do latim perfectus, significa “completo”, “acabado”. Ora bem, ao contrário dos bens materiais, esses sim acabados e, eventualmente, com algum defeito, nós viemos ao mundo com particularidades e para nos irmos aperfeiçoando.

Deus considera perfeita toda pessoa que se submete a Ele plenamente, adorando-o e servindo-o de todo o coração. Logicamente, tal pessoa é perfeita na esfera finita, assim como Deus o é na esfera infinita. Sabemos que somente Deus é perfeito! Nós humanos podemos nos esforçar ao máximo, que nunca conseguiremos chegar no nível da perfeição divina.

Muitos de nós levam a vida presumindo que estão basicamente certos, basicamente o tempo todo, sobre basicamente tudo: sobre nossas convicções políticas e intelectuais, nossas crenças morais e religiosas, nossa avaliação das outras pessoas, nossas lembranças, nossas atitudes, nosso entendimento dos fatos. É como considerássemos que nossos pensamentos e ações estão sempre certos e que admitíssemos que nunca estamos errado ou de uma forma geral não cometêssemos erros.

Será que alguém sobre esse mundo de Deus possa dizer que nunca errou? Na verdade, sabemos que ninguém está imune a errar – pelo contrário, esse ato faz parte da natureza humana. Existe um ditado popular clássico que diz que “errar é humano”. Essa é uma verdade que independe de latitude, nacionalidade, etnia ou grupo socioeconômico.

Ninguém gosta de errar, mas todo mundo erra. Isto é uma peculiaridade do ser humano. Este ser tão distante da perfeição. E nós somos humanos e cometemos muitos erros. O homem é um ser falível por natureza. O erro diz respeito a uma falha estrutural da constituição humana.

O crescimento, o desenvolvimento, a aprendizagem se fazem muito mais através da análise de nossos erros do que pelo louvor de nossos acertos.

Como não nascemos prontos e acabados, o jogo de tentativas e erros que experimentamos desde muito cedo na vida é a base para o conhecimento de si e do mundo. Podemos até dizer que errar faz parte do processo de amadurecimento.

Quando éramos criança, estávamos fabulosamente errando, a respeito das coisas o tempo todo. Em grande parte, isso se dava porque sofríamos de um grave déficit de informações. Não apenas sobre o seu corpo, mas sobre tudo: pessoas, objetos, idioma, cultura, política, as leis que regem o mundo físico, nossa origem, a identidade de seus pais biológicos ou como (ou até que) um membro da família morreu. Aliado ao problema das informações insuficientes está o problema de más informações. As crianças acreditam em coisas como Papai Noel e a fada dos dentes, não porque sejam particularmente crédulas, mas pelas mesmas razões que o restante de nós acredita em suas crenças.

Os adultos tentam a todo custo evitar que seus filhos errem, sofram, e enfrentem dificuldades, frustrações e desilusões. Porém, é por meio do exercício desses impasses que a criança e o jovem desenvolverão recursos para perseverar diante dos obstáculos, e criarão resistência para lidar com a adversidade. Caso contrário, se sentirão despreparados para os desafios da vida e hesitarão em ter o prazer de se lançarem em novas vivências e descobertas.

Todos nos lembramos da nossa adolescência. Com certeza, não ouvir nossos pais ou os mais velhos, tenha sido um dos piores e mais comuns erros da nossa adolescência. Os pais, em sua maioria, sempre querem que seus filhos se deem bem na vida e não repitam os erros que eles cometeram. Muito de nós não ouvíamos nossos pais, mas tomávamos decisões de acordo com os nossos amigos aconselhavam ou melhor exemplificavam com atitudes.

Mil e duzentos anos antes de René Descartes ter escrito seu famoso “penso, logo existo”. O filósofo e teólogo (e, eventualmente, santo) Agostinho escreveu “fallor ergo sum”: erro, logo existo. Essa frase de Santo Agostinho, me fez lembrar de uma cirurgia que um amigo foi submetido de hérnia ignal. Quando o cirurgião concluiu seu trabalho, ele foi levada a uma sala de recuperação, ainda inconsciente. Ao acordar, ele olhou para si mesma, ergueu os olhos para o médico e perguntou por que o lado errado do seu corpo estava com ataduras. O médico deu uma desculpa esfarrapada. Dias depois teve que se submeter a uma nova cirurgia, agora do outro lado. Um pequeno erro médico.

Bem, no caso o final foi feliz (em tese) mas isto, na minha opinião, evidencia que mesmo profissões que tenham a finalidade de tratar da cura do nosso corpo, são propensas ao erro de diagnósticos, tratamento ou cirurgias.

Quando erramos, de qualquer modo, normalmente é típico reagirmos como não tivessem acontecido: nós os negamos, nos mantemos na defensiva em relação a eles. Temos um instinto natural em procurar justificativas, encontrar culpados, se proteger de algo que acabou cometendo, mesmo que sem intenção. Ter uma atitude defensiva é um dos piores comportamentos que podemos assumir quando erramos.

O reconhecimento de nossos erros pode ser chocante, confuso, engraçado, embaraçoso, traumático, agradável, esclarecedor e transformador da vida, às vezes para o bem e às vezes para o mal. porém, o mais importante é ser capaz de assumir o erro, aprender com ele e procurar não deixar que aconteça de novo. Reconhecer os erros também nos torna uma pessoa mais resiliente, e faz com que passemos a enfrentar os desafios da vida com alegria e disposição.

No início desse artigo afirmei que muitos de nós levamos a vida presumindo que estamos basicamente certos. Para citar apenas os exemplos mais óbvios, todo o evangelismo religioso e uma boa parte do ativismo político (especialmente ativismo arraigado) têm como premissa a convicção de que se pode mudar as crenças das pessoas. Quando outras pessoas rejeitam nossas crenças, achamos que estão erradas. Quando rejeitamos as crenças delas, achamos que nós é que possuímos bom julgamento, ou melhor estamos certos.   Os fanáticos têm em comum a absoluta convicção de que estão certos.

O que nunca podemos esquecer, que erros podem nos custar tempo e dinheiro, sabotar nossa autoconfiança e minar a confiança e estima que as demais pessoas têm por nós. Eles podem nos levar ao pronto-socorro, ou à cadeia, ou a uma vida inteira de terapia. Eles podem nos magoar e humilhar; pior, podem magoar e humilhar outras pessoas. Em suma, até o ponto em que pudermos preveni-los, é o que provavelmente devemos fazer.

O primeiro passo para aprender com os erros é tirar a imagem negativa que nos é imposta desde o começo da vida, onde errar é ruim. Claro que existem penalizações, consequências pelo erro, mas tornar essa experiência apenas algo depreciativo impede que avancemos, enxergando esse ato como um passo para o crescimento e o aprendizado.

Em nossa caminhada no “erro”, precisamos lembrar que erramos rotineiramente em relação ao amor, basta ver a estatística crescente de divórcios. Será que podemos dizer que o amor é erro, ou ao menos que tem a probabilidade de amor como sendo cego — o que significa que nos torna cegos, incapazes de perceber a verdade sobre quem escolhemos para caminhar juntos?

O amor não começa com o coração (nem aponta para o sul). Começa do pescoço para cima, com uma busca de uma comunhão de consciência.

Uma grande paixão inicial. Ao passar do namoro para caminhada do casamento, alguns casais chegam a conclusão de que sua alma gêmea foi apenas ilusão.

Na verdade, durante o encantamento amoroso há uma idealização sobre a “perfeição” dos parceiros e consequentemente das benesses da vida em comum. A partir do casamento, começam os incômodos e críticas em relação às manias, defeitos, hábitos que até então eram atenuados pela separação de casas. Muitos, quando se separam, gostam de culpar as dificuldades da vida a dois. Na verdade, deveriam se auto responsabilizar por não casarem com os “pés no mundo real” e sim fantasiarem, no próprio imaginário, uma ilusão de prazer permanente. Bem, a longevidade das relações está alicerçada nas afinidades, na lealdade e no compromisso de ambos em vencer as dificuldades.

Quando erramos de modo colossal em relação ao amor, isso se parece com algo que nunca vivenciamos. Estruturalmente, esses erros são semelhantes aos erros sobre qualquer outra crença importante.

Quer seja na vida religiosa, política, profissional, na familiar, podemos implementar um sistema para prevenir erros, mas não conseguiremos prevenir todos. Todavia, podemos criar ambientes abertos e transparentes em vez de culturas de segredo e ocultação. Cultivar a habilidade de ouvir mais e respeitar opiniões, mesmos que sejam contrárias as nossas ideologias. 

Não, não somos perfeitos. Vivemos, erramos, falhamos, tomamos direções e caminhos errados, nos decepcionamos, mas no meio disso tudo, o importante é saber que podemos corrigir, retomar, buscar, crescer e sermos melhores do que antes. Na vida é muito difícil sermos perfeitos, pelo menos sejamos  justos e façamos nossas escolhas com imparcialidade, livres e com o coração.

O único homem que nunca comete erros é aquele que nunca faz coisa alguma. Existem pessoas que simplesmente não se arriscam, essas nunca vão acertar. Aquelas que, embora também tenham medo de errar, mas se arriscam mesmo assim, têm chances de acertar.

Segundo Bill Gates todas as empresas precisam de gente que erra, que não tem medo de errar e que aprendem com o erro. Esse pensamento se encaixa em várias áreas da nossa vida.

Errar é vaguear e vaguear é a maneira como descobrimos o mundo; e, perdidos em pensamentos é também a maneira como descobrimos nós mesmos. Acertar pode ser gratificante, mas no final é estático, uma mera demonstração. Errar é difícil e humilhante e, às vezes, até perigoso, mas, ao final, é uma jornada é uma história. Todavia não podemos esquecer de colocar em nossa balança o ensinamento do matemático francês Paul Pierre Lévy, que disse:  “Nossa visão é a de que se você não reconhece que erros ocorreram, nunca eliminará a probabilidade de que voltem a ocorrer.

Sábio é o ser humano que tem coragem de ir diante do espelho da sua alma para reconhecer seus erros e fracassos e utilizá-los para plantar as mais belas sementes no terreno de sua inteligência (escritor Augusto Cury).

Historia

Em

30 de setembro de 2025
13 min de leitura

Todo nordestino é brasileiro mas nem todo brasileiro é nordestino

Já se passaram sessenta e três anos desde o dia em que pisei no solo Nordestino vindo da cidade do Rio de Janeiro. Para mim, que estava com três anos, era indiferente essa mudança de habitar mas para minha mãe, que era carioca da gema, não deve ter sido fácil os primeiros passos.  Meu pai que era Cearense e morou alguns anos na Paraíba, possivelmente não deve ter sentido muito. Inicialmente fomos morar em João Pessoa.

No início da década de 1960, João Pessoa era uma cidade de porte médio com características marcadamente provincianas. O centro da cidade concentrava grande parte das atividades políticas, comerciais e culturais. Áreas como a Praça João Pessoa, a Lagoa (Parque Solon de Lucena), e a Praça Antenor Navarro eram pontos centrais da vida urbana. A expansão urbana era limitada. Bairros como Tambaú e Cabo Branco ainda estavam em fase inicial de desenvolvimento e eram mais afastados do cotidiano da maioria da população.

Nossa primeira morada em João Pessoa ficava localizada no Bairro de Jaguaribe, na Rua Primeiro de Maio. Nos anos 60, o Bairro de Jaguaribe era um dos bairros mais tradicionais da cidade, com forte presença de famílias de classe média e classe trabalhadora. O nome da Rua Primeiro de Maio é uma homenagem ao Dia do Trabalhador.  A rua ainda tinha traços de cidade pequena: calçamento em paralelepípedo, calçadas largas, casas térreas com fachadas simples, muros baixos, e árvores nas calçadas.

Bem, a partir daí começou minha caminhada em solo Paraibano. Fomos morar na cidade de Umbuzeiro, Solânea, Monteiro, Sapé e novamente em João Pessoa. Depois de ter começado minha vida de trabalhador, morei novamente em Sapé e depois fui trabalhar em Sumé. Só que em fevereiro de 1987, finquei residência no Estado do Rio Grande do Norte.

A história nos mostra que no início da década de 1960, o Nordeste do Brasil vivia uma situação bastante difícil, marcada por profundas desigualdades sociais, econômicas e estruturais. A maioria da população nordestina vivia em condições precárias, com baixa renda, pouco acesso à saúde, educação e saneamento básico. A estrutura fundiária era altamente concentrada. Os latifundiários dominavam vastas extensões de terra, enquanto os trabalhadores rurais viviam em regimes quase de servidão, como os “moradores” e “meieiros”. Muitas pessoas começaram a migrar para o Sudeste, especialmente para São Paulo e Rio de Janeiro, em busca de melhores condições de vida. Esse movimento ficou conhecido como parte do êxodo nordestino. Foi nesse período que começaram a surgir no Nordeste as Ligas Camponesas.

As Ligas Camponesas foram organizações de trabalhadores rurais, principalmente assalariados e pequenos arrendatários, que surgiram com o objetivo de lutar por melhores condições de vida no campo, como: salários dignos, fim da exploração por parte dos grandes fazendeiros (latifundiários), acesso à terra (reforma agrária), educação e saúde no meio rural.

Apesar das primeiras ligas terem surgidas na década de 1950, na zona da mata de Pernambuco, uma região dominada por engenhos de cana-de-açúcar, elas começaram ter força no Estado da Paraíba no início da década no município de Sapé e no Brejo paraibano.

Mesmo com pouca idade, me lembro quando em 1964 quando estávamos viajando de ônibus de Umbuzeiro para João Pessoa, fomos parado na estrada por uma galera da liga camponesa da região. Todos os passageiros foram obrigados a descerem do ônibus mas depois deixaram que continuássemos a viagem.

No movimento militar de 1964 as Ligas Camponesas foram consideradas comunistas e subversivas. Seus líderes foram perseguidos, presos ou mortos. A repressão foi brutal, com assassinatos de camponeses e destruição de suas organizações.

Na verdade, desafios sempre fizeram parte da vida do nordestino. Porém, apesar das características climáticas da região, preconceitos e julgamentos infundados, condições socioeconômicas frequentemente desfavoráveis, falta de políticas públicas adequadas para desenvolvimento sustentável, o nordestino nunca perde a esperança e a fé e luta por dias melhores. São conhecidos por sua capacidade de superar obstáculos e de se reinventar.

A figura do nordestino começou a ser formada pela produção literária com personagens como: o cangaceiro, o jagunço, o coronel, o flagelado, o retirante, o beato, o romeiro. Estereótipos que ligam o nordestino com elementos de uma sociedade rural, atrasada, pobre, rústica, de relações sociais violentas e discriminatórias.

O modo de falar, os sotaques e as expressões regionais nordestinas são frequentemente alvo de chacota, mesmo sendo parte fundamental da riqueza cultural brasileira. Tenho certeza, quando o oxente e o bater um baba do baiano, o vote e o a migué do sergipano, bregueço e o gastura do cearense, o visse e o abestalhado do pernambucano, abilobado e o arribar do paraibano, o mangar e o peidado do alagoano, o triscar e o vai pra caxaprego do maranhense, moido e o ingembrado do piauiense, o eita píula e o bexiga taboca do potiguar forem vistos como riqueza cultural, o preconceito linguístico não terá mais vez.

Infelizmente com o aumento do uso das redes sociais, a discriminação ficou mais visível. Em período de eleições, por exemplo, nordestinos frequentemente são atacados por suas escolhas políticas, Como se fossem menos capazes de decidir por si mesmos. Dói o coração, a alma, a mente e o espírito, quando se ouve, se assiste, ataques ao povo, as culturas, aos sonhos, as ideias, as expressões, as esperanças e os sentimentos do povo do Nordeste do Brasil. Tais ataques partem de seres humanos ignorantes, que não conhecem e não vivem as belezas da vida.

A partir da década de 1930, mas principalmente entre as décadas de 1950 e 1980, milhões de nordestinos migraram para São Paulo, Rio de Janeiro e outros estados do Sul e Sudeste do pais, em busca de trabalho e melhores condições de vida. Foi justamente os braços fortes dos nordestinos que ajudaram a erguer prédios, construção dos metrôs, pontes, viadutos e as grandes obras públicas nos Grandes Centros. Cada tijolo, cada calçada, cada fundação tem ali um pouco de Pernambuco, um pedaço da Paraíba, o sotaque do Ceará, o suor do Maranhão. Não tem como olhar para esses Grandes Centros e não enxergar a mão dos nordestinos. Mas, nem tudo foram flores. Muitos passaram a viver em favelas, cortiços e em condições precárias, enfrentando o preconceito, xenofobia e exclusão social. Foram chamados de “retirantes”, “pau-de-arara”, de “cabeças-chatas”, de “bicho do mato”, “terra seca”. Em São Paulo, por ter recebido fortes migrações da Bahia, todos os nordestinos da região passaram a ser taxados pejorativamente como “baianos” e no Rio de Janeiro, passaram a ser chamados de “paraíbas”. O preconceito era duro, mas não mais do que a vida que já conheciam.

Apesar de todo esse preconceito, em 08 de outubro de 2009, foi criada em São Paulo a data para celebrar o Dia do Nordestino, em homenagem ao centenário poeta e repentista cearense Patativa do Assaré. A lei 14.952/09 que instituiu a data em São Paulo, tinha como objetivo homenagear os nordestinos que vivem e contribuíram para a cidade. A data se espalhou por todo o Brasil, tornando-se um dia para celebrar a rica cultura e diversidade da região Nordeste.

Celebrar o Dia do Nordestino é comemorar a cultura de um povo forte e trabalhador, que, apesar das dificuldades, está sempre pronto para enfrentar os desafios com sabedoria e criatividade. Povo arretado, que não foge da luta, que respeita uma tradição e que vive numa região de mil encantos e paisagens.

Viver no Nordeste é habitar um lugar de tradições vivas, cores vibrantes, sotaques, ritmos contagiantes e sabores marcantes, onde a festa é parte do dia‑a‑dia e a história é contada em versos, danças e rituais.

Podemos afirmar que a região Nordeste do Brasil é uma terra abençoada por Deus. As praias nordestinas estão, sem dúvidas, entre as mais belas do Brasil e do mundo.

Aqui a riqueza humana é visível. Povo bom, acolhedor, resistente, sábio, seguem construindo uma cultura repleta de beleza. É a esperança que vence o medo em terras nordestinas.

Existem várias lendas, mitos, encantamentos, folclore, que fazem do Nordeste um lugar mágico no qual a utopia, os sonhos, as fantasias, a imaginação e as belezas da mente humana transformam o mundo em um lugar bom para ser vivido.

O jeito de falar, a oralidade, o modo de se comunicar, as expressões, os gestos, os olhares, de homens e mulheres do Nordeste brasileiro, são sinais de uma singularidade única. Singularidade esta que encanta o mundo.

A cultura do Nordeste apresenta características próprias herdadas da interação da cultura dos colonizadores portugueses, dos negros e dos índios.

As manifestações artísticas do nordestino são ricas e diversificadas, refletindo a história, a cultura e a identidade da região. Elas incluem diversas formas de expressão, como festas populares, danças, músicas, literatura, artesanato e culinária

A sua culinária é saborosa e variada. Será que existe um Nordestino que não gosta de um cuscuz com carne de sol, buchada de bode, feijão-verde, baião de dois, tapioca, acarajé, bobó de camarão, moqueca de peixe, sarapatel, sururu, macaxeira (aipim), pamonha e a canjica?  Como diz a música “É de Dar Água na Boca” composta por Nando Cordel e Amelinha.

Assim como a culinária, não podemos esquecer da enorme diversidade de frutas, como araçá, seriguela, manga, graviola, cajá, umbu, macaúba e buriti.

É uma terra de músicas e ritmos diferenciados como o forró (xaxado, baião, xote), frevo, maracatu, o brega. Falar sobre frevo, imediatamente nos faz lembrar do pernambucano porque o frevo é uma manifestação cultural enraizada em Pernambuco. O frevo domina o carnaval em Recife e Olinda, com suas orquestras de metais, multidões nas ruas e blocos como o famoso Galo da Madrugada.

Também existem os repentistas que são os cantadores que divulgam a poesia popular da cultura do Nordeste. Que criam músicas e vão pelas ruas cantando e tocando sobre sentimentos e costumes, sempre com o uso de gírias e expressões típicas.

Temos que exaltar a força da literatura nordestina pela sua autenticidade, resistência e na forma como expressa os sentimentos do povo nordestino com relação a seca, as desigualdades sociais, a fé, e a luta pela sobrevivência.

O Nordeste é o berço de Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Nelson Rodrigues, Graciliano Ramos, Ferreira Gullar, Gonçalves Dias, José de Alencar, Manuel Bandeira e Ariano Suassuna entre outros.

Não podemos esquecer da Literatura de Cordel. Ela combina poesia popular, oralidade, tradição regional e expressão artística de um jeito muito próprio. O cordel fala de causos do sertão, personagens populares, lendas, religião, política, amor, tragédias e até fatos do cotidiano. Tudo com o olhar crítico, bem-humorado ou poético do povo nordestino.

Como não falar do artesanato. O artesanato é uma importante fonte de renda e de manifestação cultural do Nordeste. Estamos falando redes de tear, rendas, crivo, artigos de couro, cerâmica, objetos de madeira, argila e frasco com imagens feitas de areia colorida.

Neste momento tenho que destacar as mulheres rendeiras. Me faz lembrar da música “Mulher rendeira” que tem origem popular e anônima, mas ficou nacionalmente conhecida através da figura de Lampião, o famoso líder do cangaço, onde dizia: “Olê, mulher rendeira. Olê, mulher renda. Tu me ensina a fazer renda. Que eu te ensino a namorar”. Elas representam não só uma tradição artesanal passada de geração em geração, mas também a força e resistência da mulher nordestina, que transforma fios e paciência em verdadeiras obras de arte. A renda de bilro, a renda renascença, a labirinto e outras técnicas são passadas de mãe para filha, garantindo a continuidade de um patrimônio imaterial brasileiro.

Em fim quero muito agradecer a Deus por me ter conduzido a vir morar neste querido Nordeste. Essa terra que me adotou e que eu tenho muito orgulho. Viver no Nordeste é dançar com o vento do sertão, sorrir com o calor do sol e se encantar com cada verso do coração.

Mesmo sabendo que não sou poeta nem cantador me arrisco a utilizar de algumas expressões do nordestino em um texto de humor:

“Eita píula. Tá com a moléstia. Esse galego boca de suvela que é um fi duma égua está voltando. Além de fuleiro gosta de mangar de todo mundo. Às vezes parece um abestalhado mas na verdade é muito de um cabra safado. Um afolozado. Mora onde o cão perdeu as botas, no quinto dos infernos. Na baixa da égua. Mas não deixa de vir aqui malamanhado para fazer marmotagem quando esta brocado ou chei dos pau. Sempre cria o maior balaio de gato. Só vem fazer pantim. Além de tudo é buliçoso.  Quero que ele vá para pra caixa prego. Dizem que ele é amancebado com uma catraia. Era uma biscaiteira. Ele tirou ela do beréu quando ela embuchou dele. O pior que menino que nasceu é cagado e cuspido a ele. Pense numa mulher cambão. As pernas são dois cambitos e um cu de novelo. Daqui algum tempo vai lhe colocar um chapéu de touro. Mas, apesar peidado, o filho do cabrunco é um cara arretado principalmente quando batemos um baba. Arenga o tempo todo. E é arrochado mesmo sendo batoré. Uma vez levou um murro que quebrou o pau da venta. Dessa vez ele se lascou. Na hora da briga peguei o beco. Bem, quem gaba o sapo é jia. Ó paí”.

Concluo lembrando de uma frase do poeta Guibson Medeiros; “Todo nordestino é brasileiro.  Mas nem todo brasileiro é nordestino”

Conduta

Em

26 de abril de 2025
10 min de leitura

A CONFIANÇA É COMO UM CRISTAL

Da mesma forma que existem os “Causos” que são narrativas populares em que une os costumes do povo e o prazer de contar história temos também piadas que são narrativas breve e direta que tem como objetivo provocar o riso em quem a ouve.  No caso das piadas só se deve ter cuidado para não serem preconceituosas, racistas, homofóbicas, machistas etc. Piadas de judeu, turco, árabe, português, baiano, mineiro, paulista, carioca, etc., sempre correm esse risco. Mas tem muito português que gosta de contar piada de português, assim como tem muito judeu que conta piada de judeu, tem muito mineiro que se diverte com as piadas de mineiro, bem como turco que gosta contar piada de turco. Eu tinha um Tio, que era português, que gostava de contar piadas de português.

Há muito tempo atrás escutei uma piada sobre turco, meio inocente mas com um ensinamento interessante. Pois bem, um turco (que um povo quase sempre muito desconfiado), desejava ensinar ao filho, desde pequeno, que ele também deveria desconfiar de tudo e de todo o mundo, especialmente quando o assunto fosse emprestar dinheiro pros outros, ou vender fiado na “lujinha”. Arranjou um jeito bem traumático de ensinar ao filho que ele não deveria confiar em ninguém, de modo que o menino nunca mais esquecesse a lição. Assim, colocou o filho sobre a mesa e disse: – Bula, vilhinho, bula golinho babai, bula. O menino hesitou. O pai insistiu. E quando, depois de alguma insistência, o garotinho finalmente venceu o medo e pulou na direção do colo do pai, o turco tirou o corpo e pumba! – deixou a criança se estatelar no chão. Era para o próprio bem do filho; para não ter problemas no futuro. Diante do choro inconsolável do menino, o turco ensinou-lhe a lição: Isso é pra você aprender a não confiar em ninguém, ninguém, viu?

Apesar de ser uma piada, entendemos que a confiança é a base de todos os tipos de relacionamentos humanos, incluindo familiares, amorosos, de amizade, sociedade e, até mesmo, profissionais.

Confiança é um daqueles termos que todos sabem o que é, mas raramente conseguem descrever com palavras. Para alguns, trata-se de um sentimento, um ato de amizade, algo intrínseco a cada pessoa. Para outros, seria um processo racional de prever o comportamento da outra pessoa. Seja qual for a sua compreensão, sabemos que a confiança é algo que todos nós queremos dar e receber. Mas que as circunstâncias da vida acabam nos demonstrando que devemos ter cautela.

No início do nosso desenvolvimento, confiamos em nossos pais amplamente e dependemos dessa crença para nos desenvolver e aproveitar todas as oportunidades que o mundo nos oferece. É uma confiança infantil, que por vezes chamamos até de ingenuidade.

Imaginemos a redução na confiança dos pais quando as crianças passaram a duvidar da existência do Papai Noel. É como se sentissem traídos pelos pais, pois aqueles que o ensinaram a não mentir estavam mentindo. Os pais são espelhos para os filhos, a fonte de maior confiança e autoridade. Porém, na adolescência, é normal que haja uma sensação de liberdade e de descoberta mais aflorada, fazendo com que eles se tornem mais questionadores.

Essa descoberta, me fez lembrar da música Traumas de Roberto Carlos: “Meu pai um dia me falou pra que eu nunca mentisse mas ele também se esqueceu, de me dizer a verdade. Da realidade do mundo que eu ia saber. Dos traumas que a gente só sente, depois de crescer”.

Será que podemos confiar em alguém que já mentiu antes para nós? Bem, o que tenho certeza que a mentira abala um dos pilares mais importantes dos relacionamentos: a confiança!

A confiança, é um pilar fundamental em todas as relações humanas, sejam elas pessoais, amorosas ou profissionais. Ela é vital em relações amorosas. Sem ela, a base do relacionamento fica comprometida. A falta de confiança pode levar à desconfiança constante, ciúmes, inseguranças e, eventualmente, à ruptura do relacionamento. A confiança sustenta a fidelidade e a lealdade, essenciais para a longevidade do relacionamento. Sentir-se seguro e apoiado pelo parceiro é um dos maiores benefícios de um relacionamento baseado na confiança.

A confiança é essencial para relações saudáveis e produtivas, tanto pessoais quanto profissionais. Construí-la exige esforço, comunicação e consistência, mas os benefícios são imensuráveis. Quando perdemos a confiança, a mais pura verdade vira mentira saída da boca de quem não merece uma gota de credibilidade.

Na vida profissional, é comum ouvirmos frases do tipo “ninguém é confiável”, “você não deve confiar em ninguém”, “mantenha sempre um pé atrás com qualquer pessoa”, “não seja ingênuo”, “não seja bobo”, “fique esperto”, dentre muitas outras. Isto acontece mas o importante que tenhamos em mente que todas as pessoas com quem nos relacionamos no ambiente de trabalho ou na vida cotidiana, merecem, em menor ou maior grau, a nossa confiança.

Funcionários que confiam na liderança da empresa tendem a ser mais leais e a permanecer por mais tempo na organização.  Um ambiente de confiança encoraja a criatividade e a inovação, pois os funcionários se sentem seguros para propor novas ideias sem medo de críticas.

O importante é reconhecer os limites da confiança que você deposita em cada pessoa, de acordo com o contexto, é parte essencial para a construção de uma confiança autêntica. A capacidade e a disposição de confiar estão entre as mais importantes virtudes humanas. A base da confiança é a comunicação transparente. Falar a verdade, mesmo que seja difícil, cria um ambiente de segurança e autenticidade.

Dificilmente as pessoas confiarão em alguém que não cumpre suas promessas. Indivíduos assim são vistos com descrença pelos demais, pois sabem que são grandes as chances de que o que eles prometem não se concretize. E dificilmente alguém vai confiar numa pessoa que não guarda os segredos que lhe confiarem e evite manter segredos das pessoas próximas.

Por muito tempo, a confiança e a verdade foram interligadas, onde pessoas que parecem mais confiantes em sua fala transparecem a verdade nos outros. É comum ouvir que, durante um discurso, a confiança é chave para que o público confie em você e associe suas palavras com a verdade.

Hoje em dia, temos ferramentas nos meios de comunicação, que fazem a difusão de não verdades que atraem milhões de pessoas. Estou falando das fakenews que se tornaram um fenômeno global de grandes proporções e dados alarmantes. Será que podemos confiar em pessoas que divulgam fakenews, principalmente por cunhos de ideologias política ou religiosas?

Na verdade estou me referindo as pessoas que mesmo tendo conhecimento que uma “notícia” não é verdadeira, porém interessadas no resultado, fazem a divulgação sabendo que a disseminação pode interferir negativamente no em vários setores da sociedade, como política, saúde e segurança.

As fake news chamam tanto a atenção que acabam viralizando por conta de um fenômeno sociológico conhecido como pós-verdade. Segundo o conceito de pós-verdade, cada indivíduo tem uma tendência maior a acreditar na informação que lhe agrada, ou esteja mais relacionada com seus direcionamentos morais e crenças. Assim, esse indivíduo passa a excluir as possibilidades de crítica e análise para confiar cegamente na informação recebida, apenas porque ela concorda com suas crenças.

Assim, para que o erro não acabe se tornando um grande pesadelo, é importante que haja um esforço coletivo e contínuo de análise das informações. É fundamental saber filtrar as mensagens recebidas, analisar com calma o tipo de fonte, o que o conteúdo propõe e quem escreveu.

Não podemos esquecer, que o pior efeito da mentira, é perder a confiança em quem você acreditava. Nas relações onde a confiança foi quebrada, as verdades viram dúvidas.

Conta uma parábola de origem judaica que a Mentira e a Verdade, em um dia de sol, saíram a caminhar no campo. E resolveram banhar-se nas águas de um rio que se apresentava muito convidativo. Cada uma tirou a sua roupa e caíram na água. Mas, a um dado momento a Mentira aproveitou-se da distração da Verdade, saiu da água e vestiu as roupas da Verdade. Quando esta saiu da água, negou-se a usar as vestes da Mentira. Saiu nua a perseguir a Mentira. As pessoas que as viam passar acolhiam a Mentira com as vestes da Verdade, mas proferiam impropérios e condenações contra a atitude despudorada da Verdade. Moral da parábola: as pessoas estão mais dispostas a aprovar a Mentira com vestes de Verdade do que enfrentar a Verdade nua e crua.

Diz o Evangelho: “a verdade liberta”. O mundo da aparência traz consigo o peso da escravidão.

Importante ressaltar que a confiança está intimamente associada ao caráter porque o caráter de uma pessoa reflete seus valores, princípios e a consistência com que age em conformidade com esses valores.  O caráter de uma pessoa determina suas ações e atitudes em diversas situações, influenciando diretamente a percepção de confiança. Pessoas de bom caráter são responsáveis e confiáveis. Elas assumem a responsabilidade por suas ações e estão dispostas a admitir erros e corrigi-los. Agem de maneira consistente com suas palavras. Essa congruência entre o que se diz e o que se faz é fundamental para estabelecer e manter a confiança. Se alguém promete algo e cumpre, ou age de acordo com suas declarações, isso demonstra integridade, que é uma componente central do caráter.

Lembramos que caráter não se compra, confiança e respeito se conquistam. Caráter, ao ter, nunca perde. A confiança, quando perdida, nunca se terá de volta.

Na verdade, a confiança é como um cristal, uma vez quebrado, nunca mais volta a ser o mesmo. Você pode juntar os cacos e tentar colar, mas as marcas serão evidentes (Priscilla Rodighiero). A quebra de confiança é uma ferida profunda nas relações, e a reconstrução dessa confiança exige tempo, esforço e comprometimento de ambas as partes envolvidas. 

Para mim, uma relação de confiança não se baseia em dar ao outro garantias ou previsibilidade. Para mim, uma relação de confiança se baseia na Verdade – mesmo que isso gere frustração. 

De qualquer forma não podemos esquecer que um indivíduo que não confia em ninguém leva uma vida vazia, sem amizades verdadeiras, pessoas com quem compartilhar seus medos, angústias e, até mesmo, as alegrias. Só recebemos aquilo que oferecemos aos outros, portanto, se deseja confiança, a ofereça.

“A verdade alivia mais do que machuca. E estará sempre acima de qualquer falsidade como o óleo sobre a água (Miguel de Cervantes)”.