Tempo bom, não volta mais. Saudade… de outros tempos iguais!

Por José Viana
em 06/12/2021
Tempo bom, não volta mais. Saudade… de outros tempos iguais!
1970, 1991, 2008 Analfabetismo, evasão, baixo nível. Fonte: Veja

De vez enquanto, numa roda de amigos, escuto alguém pronunciar as seguintes afirmações: “antigamente as coisas eram melhores”, “as músicas tinham mais poesia”, “as pessoas eram mais românticas”, “a vida era mais fácil”, “as pessoas se olhavam nos olhos”, “brincávamos na rua, não havia essa violência de hoje em dia”, “era melhor a educação escolar e a saúde pública”, “eu era feliz e não sabia”, etc.

Elas são expressões de nostalgia. Muitas pessoas fazem confusão entre nostalgia e saudade, mas segundo Carolina Falcão, professora de psicologia da PUCRS (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), não são sentimentos iguais. “Somos sujeitos atravessados por saudades, já que ao longo da vida vamos deixando experiências, pessoas e prazeres para trás”. A diferença dos nostálgicos, ela diz, “é que além de sentirem saudade, entendem que o que tinham ou viviam no passado era melhor do que o que têm e vivem hoje”.

O mais engraçado, é gente que talvez nem viveu esse passado, fica superestimando algo que nem sabe como realmente funcionava.

Por exemplo, em 2013 a Banda Paulo Mesquita & Os Brancos fizeram uma música com o título “Em Meu Tempo Era Melhor”. Nas duas primeiras estrofes ele escreveram: Os antigos me diziam “Em meu tempo era melhor”. Atuais dizem “Hoje nada presta”. Os jovens falam alto que seu tempo é melhor. Atuais dizem “Hoje é o que resta”.

No final dos anos 60, o humorista Lilico (Olivio Henrique da Silva Fortes), estreou no programa “A Praça da Alegria”, onde lançou seu personagem mais famoso: o homem do bumbo. Lilico entrava em cena cantando ‘Tempo bom, não volta mais, saudade de outros tempos iguais’. Por que será que nessa época da nossa história ela já dizia esse bordão?

A falta de informação de antigamente se transformou no excesso de informação e informações falsas que aparecem o tempo inteiro a nossa frente. Muitas pessoas, quando dizem ‘antigamente’ apenas se referem à sua infância e/ou juventude e não, de fato, ao passado longínquo.

Por que as pessoas sempre acham que as coisas antigas são sempre melhores que as coisas atuais? Talvez a solução para descobrir se realmente elas estão certas é colocar duas pessoas numa máquina para voltar ao passado, assim como ocorrido no filme “Túnel do Tempo”. O ideal que uma das pessoas tenham nascido na década de 60 e outra na década de noventa.

Como essa máquina ainda não existe, vamos passear um pouco nas décadas de 50, 60, 70 e 80 para conhecer os fatos marcantes.

Os anos 50, década de 50 ou “Anos Dourados” ficou conhecido como a época das transições. É uma década de revoluções tecnológicas com evidentes implicações sociais, especialmente quando consideramos o ponto de vista comunicacional. O rádio cresceu no início dos anos 50, tendo ocorrido um aumento da publicidade. As populares radionovelas, por exemplo, tinham como complemento propagandas de produtos de limpeza e toalete.  Houve um aumento da tiragem dos jornais e revistas, e popularizaram-se as fotonovelas, lançadas no início da década. Em setembro de 1950, é inaugurada a TV Tupi, sendo este o primeiro canal de televisão da América Latina.

As mudanças que aconteceram na moda, música, fotografia, cultura, arquitetura e na arte em geral, influenciam até os dias atuais.

A moda dos anos 50 foi marcada pela sofisticação e luxo. As mulheres se mostravam cada vez mais femininas e delicadas, e por vezes excêntricas. Metros e metros de tecido eram gastos para confeccionar um vestido. As saias e os vestidos alcançavam um comprimento abaixo do joelho e marcavam a cintura. O uso da luva também foi característico. O penteado era composto por um coque ou rabo de cavalo. Já os homens foram influenciados pelo estilo da moda colegial, inspirada no sportswear. Usavam calça, cintos e topetes bem definidos.

Com muito rock e um estilo dançante, Elvis Presley começa a fazer sucesso em 1956. O estilo musical brasileiro Bossa Nova começa a fazer sucesso. Os maiores representantes deste movimento foram: Tom Jobim, Vinícius de Morais e João Gilberto. No final da década de 1950, é formada a banda de rock Beatles.

Houve um aumento da população urbana, sendo que 24% da população rural migraram para as cidades na década de 1950. Este processo ocorreu, devido ao aumento da intensificação das indústrias brasileiras.

Nos anos 1950 cerca de 50% dos brasileiros eram analfabetos, mesmo assim começou a ter um aumento em escala da escolarização, sendo que na década subsequente o número de analfabetismo cai para 39%.

Há violência tinha outra cara. Os jornais noticiavam, por exemplo, jovens que estavam tendo aulas sobre como assaltar turistas no Aeroporto Santos Dumont. Foram presos quando aprendiam a dizer “Hands up”, ou seja, mãos ao alto. Ou então, a prisão de uma quadrilha que dopava cavalos no Jockey para ganhar as apostas.

No fim dos anos 50, a revista “Cruzeiro”, importante publicação da época, estampava na capa a manchete: “O Rio enfrenta o crime noite e dia”. A reportagem dizia que se matava mais no Rio em um mês do que em Londres no ano todo. O tráfico de drogas ainda não era um desafio para a segurança pública. O tráfico era localizado. Havia pequenas bocas de fumo nas favelas, geralmente gerenciadas por senhoras, moradoras que atendiam ao consumidor típico. Na época era o chamado maconheiro e era geralmente o malandro, ou o artista, ou um marginal já nesse sentido que se dava ao bandido dos anos 60. Mas, mesmo em menor escala, a violência, na época, já era uma preocupação.

Consolidava-se a chamada sociedade urbano-industrial, sustentada por uma política desenvolvimentista que se aprofundaria ao longo da década.

Os anos 50 também trouxe mudanças no papel da mulher na sociedade, passando a desempenhar funções de esposa, mãe e dona de casa mais consciente e ativa. 

A década de 1960 pode ser dividida em duas etapas. A primeira, de 1960 a 1965, marcada por um sabor de inocência e até de lirismo nas manifestações sócio-culturais, e no âmbito da política é evidente o idealismo e o entusiasmo no espírito de luta do povo. A segunda, de 1966 a 1968 (porque 1969 já apresenta o estado de espírito que definiria os anos 70), em um tom mais ácido, revela as experiências com drogas, a perda da inocência, a revolução sexual e os protestos juvenis contra a ameaça de endurecimento dos governos.

Na política, os anos 60 no Brasil não foram anos de orgulho. Foi uma época de revoluções, lutas, repressões e censura. No ano de 68 o Ato Constitucional Nº5 é decretado. Com este ato, considerado um dos mais repressivos da ditadura militar, juízes foram aposentados, o habeas corpus foi cancelado, manifestações políticas foram proibidas, a censura aumentou e a violência da polícia e do exército também.

Antes do regime militar, as forças militares serviam para proteger o Estado. O policiamento de rua era feito por corporações não militarizadas. Ela era utilizada em momentos específicos, como em manifestações e greves. As ações do cotidiano eram feitas por forças menores e civis. O governo do regime militar foi quem passou essa atividade de policiamento ostensivo à Força Pública. A partir daquele momento, os militares estavam responsáveis pela atividade de policiamento. O governo militar extinguiu a guarda civil, os membros foram incorporados à Força Pública e isso deu origem à PM.

Pra molecada que não sabe, o slogan ‘Brasil, ame-o ou deixe-o’ era usado pelos militares para justificar a repressão aos movimentos sociais contrários a ditadura.

Nesta época teve início uma grande revolução comportamental como a Segunda Onda do feminismo. O surgimento da pílula anticoncepcional, no início da década, foi responsável por um comportamento sexual feminino mais liberal. Surgem movimentos de comportamento como os hippies, que pregava a paz e o amor, através do poder da flor [flower power], do negro [black power], do gay [gay power] e da liberação da mulher [women’s lib]. Faziam parte desse novo comportamento, cabelos longos, roupas coloridas, misticismo oriental, música e drogas.

O Rock and Roll ganha crescente popularidade no mundo, associando-se ao final da década à rebeldia política.

A moda masculina, por sua vez, foi muito influenciada, nos início da década, pelas roupas que os quatro garotos de Liverpool usavam, especialmente os paletós sem colarinho de Pierre Cardin e o cabelo de franjão. O unissex ganhou força com os jeans e as camisas sem gola. Pela primeira vez, a mulher ousava se vestir com roupas tradicionalmente masculinas, como o smoking. As moças bem comportadas já começavam a abandonar as saias rodadas e atacavam de calças cigarette, num prenúncio de liberdade. A minissaia, entretanto, é a principal marca da década de 60. Nas praias, um modelo muito usado nos anos 60 era o chamado “engana-mamãe”, que de frente parecia um maiô, com uma espécie de tira no meio ligando as duas partes, e, por trás, um perfeito biquíni.

No Brasil, a Jovem Guarda fazia sucesso na televisão e ditava moda. Wanderléa de minissaia, Roberto Carlos, de roupas coloridas e como na música, usava botinha sem meia e cabelo na testa. A palavra de ordem era “quero que vá tudo pro inferno”.

Surge o Tropicalismo. Movimento cultural que misturava influências do pop, rock e cultura brasileira. As letras criticavam a ditadura e muitos dos representantes desse movimento foram presos e exilados.

Os anos de 1967-1968 tornam-se o auge dos festivais da canção, no Brasil, que eram uma forma alternativa de expressão político-ideológica da juventude, diante da repressão do regime militar. Em 1968, Geraldo Vandré lança a histórica música “Pra não dizer que não falei das flores”, sendo logo depois censurada pelo AI-5.

No Brasil, a TV Tupi faz a primeira transmissão experimental a cores no dia 1 de maio de 1963. No entanto, quase ninguém pode ver a transmissão colorida. Não havia produção de aparelhos receptores de transmissão a cores, e a importação custava caro. Isso fez com que a implantação da TV a cores fosse adiada por cerca de uma década. Em 26 de abril de 1965 é inaugurada a Rede Globo de Televisão no Rio de Janeiro.

A década de 1970 foi marcada por um abalo das ideias dos ícones existentes nos anos 60, levando ao surgimento de diversas manifestações mais desregradas, como festivais de rock ao ar livre, pregando amor, drogas e vida alternativa. Os jovens eram embalados pelo lema sexo, drogas e Rock and Roll. Toda a sua busca por êxtase em métodos físicos e químicos eram incansáveis. Muitos cantores tiveram mortes prematuras devido ao excesso de drogas.

Foi neste período que o regime militar no Brasil atingiu seu auge popular, graças ao ‘milagre econômico’, coincidindo com o momento que aplicava censura em todos os meios de comunicação, torturava e exilava. Muitos jovens idealistas levaram a cabo sua luta política por meio do combate armado, na clandestinidade, para combater o regime militar.

Na Economia, as crises do petróleo foram os eventos econômicos que mais marcaram e desestabilizaram os países durante os anos 70. Triplicou o preço do barril de petróleo, elevando, o que provocou uma escassez de combustíveis no mercado mundial, inclusive levando os EUA a entrarem em recessão. O Brasil não passou impune pelas crises que se sucederam, pois queimara suas reservas oriundas do “milagre econômico”. O aumento dos preços dos combustíveis descontrolou o índice de inflação do País.

A década de 70 é também conhecida como a década da discoteca, devido ao surgimento da dance music. Surgia também o movimento punk com suas calças rasgadas, rebites, alfinetes, jaquetas de couro e cabelos com cortes e cores diferenciadas.

Uma das fortes heranças da moda dos Anos 70 foi a calça boca de sino (estampadas). Cabelos longos e barba longa fizeram parte do estilo da população da década de 1970.

Os biquínis começaram a ganhar popularidade entre os anos 60 e 70. E ele não parou por ai, com mais e mais avanços, a peça se tornou cada vez mais ousada.

Na esfera musical, deve-se destacar o surgimento uma nova geração, com Belchior, Gonzaguinha, Djavan e Ivan Lins, todos influenciados pelos festivais da década anterior.

Nos esportes destacamos o tricampeonato mundial do Brasil no Futebol (21 de junho de 1970) e a conquista do campeonato mundial de Formula 1 pelo piloto Emerson Fittipaldi.

Dentro da estrutura da família nos anos 70, a educação dada aos filhos seguia a estrutura que o Brasil teve desde sempre, o homem como centro. Os meninos eram educados para serem futuros chefes de família e as meninas para a serem donas de casa.

Quanto a saúde, os serviços de saúde no Brasil atendiam basicamente às necessidades dos grupos sociais de maior poder aquisitivo. As pessoas que não tinham carteira assinada não tinham acesso a consultas, exames, cirurgias. Mas, na verdade, as coisas eram um pouco mais complexas. Isso porque embora a classe média tivesse carteira assinada e pudesse usar a medicina previdenciária, ela pagava. “Era totalmente natural”, diz a pesquisadora Ligia Bahia, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). “A classe média nunca foi atendida pelo setor público. Ela pagava consulta particular, pagava os procedimentos, que eram muito mais baratos. As pessoas pagavam parto, cirurgia”.

A situação da saúde no Brasil na década de 70 foi muito bem colocada pelo professor de filosofia Eurivaldo Tavares no seu livro “Subsídios para o Estudo de Problemas Brasileiros” em 1979: “Infelizmente temos que constatar o baixo nível sanitário de nossa população, em geral. Pelo elevado índice de doenças infecciosas parasíticas e pelo alarmante índice de mortalidade infantil.  A esses problemas, junta-se um enorme déficit de médicos, de enfermeiras e de leitos hospitalares, além do alto custo da medicina e produtos farmacêuticos”.

Os anos 80 foram uma época de muitas mudanças. Uma das décadas mais importantes do século XX. Foi palco de complexos acontecimentos tão acelerados em seus movimentos contínuos de violências, esvaziamentos, sentidos desconhecidos, que se for contada com rigor apresentará expressões velozes de um século em dez anos. Década de importantes movimentos na política e na sociedade. Tecnologias que hoje são tão naturais começavam a dar seus primeiros passos. Transição de um tempo lento para um tempo acelerado.

A moda nos anos 80 foi marcada pelos excessos. As misturas de estampas, a cintura alta, maquiagem carregada, bandanas, croppeds e a inesquecível pochete eram marcas registradas do estilo da época. Os cortes de cabelo mais comuns eram o blunt cut e pixie. Os cabelos com bastante volume e tamanhos variados eram moda entre os jovens.

Durante os anos 80 surgiram os biquínis, como o provocante enroladinho, o asa-delta e o de lacinho nas laterais, além do sutiã cortininha. E quando o biquíni já não podia ser menor, surgiu o imbatível fio-dental, ainda o preferido entre as mais jovens.

Diversos cantores e bandas nacionais fizeram sucesso nos anos 80, tais como: Ney Matogrosso, Blitz, Paralamas do Sucesso, Titãs, Roberto Carlos, RPM, Cazuza, Engenheiros do Havai, Biquine Cavadão, Ultraje a Rigor, Barão Vermelho, Leo Jaime, Legião Urbana, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil.

A população brasileira, se comparada à década de 1960, praticamente dobrou. Passou de cerca de 70 milhões para quase 120 milhões. Na educação, o número de analfabetos caiu de 43% da população em 1960 para 33,6% em 1980.

Entre os diversos ensinamentos da década de 1980 esteve presente o tema do endividamento familiar. Os salários eram corroídos pela inflação e pelos respectivos planos econômicos que, para conter os danos, eram severos com os trabalhadores.

A geração 80 cresceu e começou a se preocupar com o emprego, o consumo e o estudo. O primeiro, com mais centralidade do que os outros dois. Eu sou testemunha viva dessa falta de empregos. Foi justamente no início dos anos 80 que terminei meu curso universitário. Oportunidades de emprego era no Iraque para trabalhar em Campos de Petróleo ou fazer concurso para Petrobras, Banco do Brasil ou Caixa Econômica.

As escolas técnicas exerciam fascínio e produziam possibilidades reais sobre o futuro explicitamente incerto.

Ser adolescente nos anos 80 também não era tarefa fácil. As câmeras fotográficas não eram digitais. Você tirava a foto e esperava o filme acabar para revelar todas e saber se alguma ficou boa. Celular também ainda não existia. Só telefone. Pra piorar, a maioria das casas tinha só um telefone, de uso comum, ou seja, conversar com amigos e amigas, a família toda ouvia a conversa.

Nos anos 80, a internet ainda era discada, os programas simples e os fóruns e bate-papos online já eram moda. Já as contas poderiam ser uma surpresa. E ainda reclamam quando a internet cai hoje em dia.

Para ouvir o seu ídolo era preciso ter um toca-discos e comprar um vinil, ou apostar no acessório mais moderno de todos: um toca-fitas.

As comunicações era feitas através de cartas enviadas pelos correio e sem notificação de recebimento. Uma carta chegar ao destinatário e voltar com a resposta, passavam-se no mínimo uns 10 ou 15 dias. Pelo menos não tínhamos as fakenews.

As baladas de hoje eram os “assustados” de anos atrás, que aconteciam nas garagens de algum amigo. Para os que já podiam consumir bebida alcoólica, não podia faltar o velho Rum Montilla com Coca-Cola. Não havia convite impresso. Bastava dizer: “vai ter um assustado na casa de fulano. Bora?” E lá ia a turma toda, pouco importando se o dono da festa era conhecido ou não.

Os álbuns de figurinha foram uma febre dessa década, reunindo principalmente crianças e jovens com o objetivo de completar todas as figurinhas.

Os anos 1980 foram de despedidas das cadeiras na rua, portas abertas, puladas de muros, escritas no chão e muito convívio em diversos espaços do bairro. As ruas ainda eram o palco do verbo conviver, transitar, dialogar. Mas existia também a presença real de nomináveis fantasmas que reiteravam suas presenças para nos tirar das ruas.

Assim como nas ruas e nas casas, algo foi mudando na escola. Em meio à rigidez dos hinos, à uniformização dos corpos e dos saberes. Abriam-se as portas para a poesia, a prosa e o verso presentes no verbo.

A geração nascida entre as duas primeiras décadas de ditadura cresceu. Da infância à juventude nossa geração vivenciou mudanças substantivas sem conseguir ver os bastidores que compunham o palco da aparente ordem e progresso. A impressão que eu tenho, que essa geração sobreviveu a todo esse autoritarismo, mas não necessariamente nada aprendeu.

O envelhecer é um processo bastante desafiador porque envolve uma reconfiguração da vida diante de perdas que são contundentes e inerentes este momento do ciclo vital. Muitas vezes, esse passado fica idealizado como um tempo no qual existia muita felicidade. Numa oposição muito desleal com o presente que, certamente, impõe frustrações. Esse olhar distorcido atrapalha algumas pessoas de verem a época lembrada exatamente como ela era. Os aspectos bons são valorizados e os maus simplesmente desaparecem.

Acredito que nunca tenha havido épocas melhores ou piores do que a atual. Há pontos negativos e pontos positivos. Sempre há uma espécie de equilíbrio entre coisas boas e ruins. É apenas uma opinião pessoal de quem começou sua vida no fim da década de 50.

A grande maioria das coisas que dizem que eram melhores ou que hoje estão perdidas, na verdade só mudaram. Muita coisa evoluiu do que existia no passado, e outras são simplesmente diferentes. Muitos problemas novos surgiram, mas isso não quer dizer que sejam problemas maiores ou piores que os antigos.

A expectativa de vida hoje é bem mais longa do que foi na história, por causa da melhor alimentação, dos cuidados médicos, do progresso da Medicina e do saneamento básico. Quantas doenças hoje erradicadas mesmo nos países mais pobres e que, no passado, faziam milhares, até milhões de vítimas. Milhões de pessoas vivem graças ao surgimento de vacinas, antibióticos e práticas de higiene básica. Podemos considerar também, à maior oferta de alimentos, de atendimento médico (mesmo em condições que, hoje em dia, possamos considerar ruins) e a uma maior consciência em relação à própria saúde.

Durante muito tempo, as mães eram as grandes e principais responsáveis pela saúde e educação dos filhos. Por conta de uma relação cultural, não era conveniente que as mulheres participassem do mercado de trabalho, dessa forma, o tempo para se dedicarem à educação dos filhos era maior. Com a inserção das mulheres no mercado de trabalho, a educação das crianças passou a ser da responsabilidade de toda a família.

Antigamente, era difícil o acesso à educação por parte de famílias pobres. Essas famílias que dependiam do ensino público, esperavam em filas enormes para conseguir efetuar a matricula de seus filhos. Atualmente, sobram vagas para o ensino básico.

Imaginem quem habitava, por exemplo, no meio da Caatinga. Sendo trabalhador ou dono de terra, o acesso aos serviços ficava longe, tinha que mandar os filhos para estudar na capital. Se havia um problema de doença, não tinha serviço de saúde disponível. Energia elétrica nem pensar.

Quanto a saúde, na década de 90 tivemos a regulamentação do Sistema Único de Saúde (SUS). Único sistema público de saúde do mundo que atende uma população com mais de 200 milhões de pessoas gratuitamente, universal (para todos). Atualmente, 75% dos brasileiros dependem exclusivamente do SUS, o restante da população utiliza a saúde privada. Antes da implantação do SUS, o INAMPS (Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social) só atendia as pessoas que tinham carteira assinada e contribuíam para a Previdência. Mas, como tudo no Brasil, o SUS ainda sofre desafios do mau gerenciamento e a insuficiência de investimentos financeiros.

Hoje, as estradas são melhores, há novas escolas rurais e urbanas, há postos de saúde espalhados pelo território. Infelizmente, a qualidade dos serviços ainda deixa muito a desejar. Novos problemas surgem. Temos cidades grandes, com novos tipos de problemas de deslocamento e de infraestrutura urbana.

Tudo bem, as crianças não brincam mais na rua de pular elástico, brincar de barbante com os dedos, andar de carrinho de rolimã, trocar figurinhas, etc. Mas possuem outras diversões que são do seu tempo. Não temos mais os orelhões alimentados por fichas de latão ou cobre usadas para fazer contato com os bares da cidade em busca dos fujões, mas temos os celulares que tiram fotos, mandam mensagens (verdadeiros correios), tocam músicas e nos mostram inclusive a localização desses fujões. Não temos mais o cheiro da nicotina impregnada no corpo, na roupa e na alma toda vez que a gente entrava em ambientes fechados como restaurantes, escritórios e casas noturnas, todavia tivemos um aumento significativo do consumo de drogas (maconha, cocaína, crack, LSD…) entre principalmente adolescentes e jovens.

No centro das discussões sobre a segurança pública no Brasil e no mundo está a relação entre a violência e o tráfico de drogas. O comércio de drogas alimenta o crime organizado e as facções. Comunidades vulneráveis controladas por traficantes se transformam em áreas de alta criminalidade. Pobreza, pouca educação e marginalização social continuam sendo fatores importantes que aumentam o risco de ocorrência de transtornos associados ao aumento da violência dos dias de hoje.

Nos dias atuais é difícil acreditar que a televisão era um artigo de luxo e que a imagem não passava de alguns chuviscos difíceis de decifrar. Mas, o tempo passou. A tecnologia evoluiu. A partir de 1990, a Internet começou a ser usada pela população em geral, através de serviços de empresas que começaram a oferecer conexão de Internet empresarial e residencial. Ela mudou nossa vida, dando a cada pessoa a oportunidade de ser escutada e permitindo acesso a um conhecimento antes restrito a enciclopédias caras e livros inacessíveis. Nem tudo são flores, a Internet através das ferramentas de relacionamento (redes sociais) conseguem aproximar pessoas com pensamentos em comum em qualquer lugar do mundo, todavia em muitas vezes distanciam pessoas próximas.

No âmbito geral, e que talvez seja nossa maior vitória, nos tornamos menos ignorantes e começamos a questionar sempre que não achamos algo correto.

Continuamos na luta, a vida continua sendo injusta quando permite que uns poucos tenham muito mais do que os muitos. Ainda temos muitos problemas, mas cada época da História tem os seus impasses e suas demandas de compreensão. Os sofrimentos contemporâneos estão de alguma forma ligados à velocidade e à ansiedade comuns do mundo hoje, e ainda estamos tentando lidar com isso.

O segredo é aceitar o que se foi. Não anular ou esquecer. É usar aquilo como riqueza, como ganho. Somos produtos da nossa história, com seus aspectos felizes e desafiadores. Fazer o alinhavo de todas essas experiências é, sem dúvida, o maior desafio de qualquer pessoa.

No meu tempo, era diferente. Aliás, ‘no meu tempo’ não, porque hoje, agora, também é meu tempo. “O mundo é assim agora e não vai voltar atrás. Você vai ficar lá ou aqui?”.

20 Thoughts on Tempo bom, não volta mais. Saudade… de outros tempos iguais!
    Ney Argolo
    6 Dec 2021
    3:00pm

    Muito Bom Viana, mergulhei nesse passado recente tão bem descrito por você !!!

    Pacheco
    6 Dec 2021
    3:39pm

    Muito bom amigo, como sempre textos ótimos para refletirmos!!!!

    Biagione Rangel
    6 Dec 2021
    4:28pm

    Perfeito! Mude logo de profissão. Sua vertente de escritor tem que ser potencializada. O país agradece!

    DALTRO
    6 Dec 2021
    7:00pm

    Excelente texto.
    De todo o exposto fica uma profunda reflexão.
    Parabéns amigo.

    Rafaella Muguet
    6 Dec 2021
    9:13pm

    Viana, excelente reflexão! Obrigada por compartilhar! Abraço

    George Adriano Bezerra de Moura
    6 Dec 2021
    9:18pm

    Ótimo! Revivi as boas décadas!
    O presente está melhor, sem dúvidas.
    Mais fácil de viver.
    Obrigado amigo Viana, por mais esse texto.

    Thiago Emerenciano
    6 Dec 2021
    11:27pm

    Excelente, ainda estou descobrindo se sou nostálgico ou saudosista.

Deixar um comentário

Continue a leitura

Veja outras notícias de Blog do Viana.